Svetlana Alexievich vence o Nobel da Literatura

por Andreia Martins, RTP
A escritora é a 14ª mulher a vencer o Nobel da Literatura Foto: Nobelprize.com

O nome da autora bielorrussa de 67 anos foi revelado esta quinta-feira pela Academia Real sueca, que destacou as suas narrativas "polifónicas" como "um monumento ao sofrimento e coragem nos nossos tempos".

A jornalista e escritora, nascida na cidade ucraniana de Ivano-Frankivsk em 1948, dedicou-se ao relato e crónica da história União Soviética. Entre os livros mais conhecidos estão os livros "Zinky Boys" (1992), sobre a intervenção da URSS na guerra do Afeganistão entre 1979 e 1989, e "Voices from Chernobyl" (2005), sobre o desastre nuclear na Ucrânia em 1986.

Estes e outros trabalhos integram uma coletânea que a celebrizou, "Vozes da Utopia", o projeto de uma vida onde a autora se dedica a analisar "a vala comum" e "banho de sangue" que caracteriza o período histórico soviético e pós-soviético.

"A revolução, os gulags, a II Guerra Mundial, a guerra no Afeganistão, a queda do socialismo", como a própria enumera em várias entrevistas, são temas recorrentes no trabalho literário que desenvolveu desde 1988, ano da publicação do primeiro livro, "War Unwomanly Face", onde consta o relato na primeira pessoa de várias mulheres que sofreram os impactos da Segunda Grande Guerra.

Na bibliografia que disponibiliza no seu sítio oficial, a escritora assume a sua missão de relatar não apenas a história dos factos, mas também a "história do sentimento humano", um trabalho de crónica que atravessa várias gerações.

Pela "colagem de várias vozes", Alexievich transmite a perspetiva humana dos acontecimentos e aprofunda "o conhecimento e compreensão de uma época", destaca a Academia.

Esta é apenas a terceira vez que um prémio Nobel da Literatura é atribuído a uma autora de não-fição. Antes de Svetlana, só Winston Churchill e Bertrand Russell foram distinguidos no mesmo género literário.


Logo após o anúncio do nome vencedor, a imprensa bielorrussa e internacional deslocou-se à atual residência de Alexievich, em Minsk. 
Foto: Vasily Fedosenko, Reuters

Leitura política?
A bielorrussa, filha de pai bielorrusso e mãe ucraniana, estudou jornalismo na Universidade de Minsk entre 1967 e 1972, cidade onde trabalhou como jornalista para diários locais. Mas as vozes incomodativas que aglomerou nos seus livros e as críticas ao regime obrigaram que fugisse por várias vezes do próprio país. Viveu em Itália, França, Suécia e Alemanha durante os períodos de exílio.

Os livros da autora são pouco conhecidos em Portugal. Este ano a Porto Editora editou a sua recente obra "O Fim Do Homem Soviético - Um tempo de Desencanto", publicado em 2013 na versão original, o único livro até agora disponível com tradução portuguesa.

Antes de ser distinguida pelo juri sueco, a autora e jornalista bielorrussa tinha recebido o Prémio da Paz Erich Maria Remarque, da Alemanha (2001), o Prémio Nacional da Crítica, dos Estados Unidos (2006) e o Prémio Médicis Ensaio, em 2013.

Em declarações à Antena 1, José Milhazes, comentador de relações internacionais e especialista em política russa, considera que a entrega deste prémio é mais uma forma de "irritar" Vladimir Putin. "Trata-se mais uma vez de um prémio nobel político, como já aconteceu várias vezes no tempo da Guerra Fria", refere o especialista em assuntos pós-soviéticos.

Andrei Sannikov, político bielorrusso e amigo pessoal de Svetlana, destaca em declarações ao Guardian as visões críticas da escritora sobre a intervenção russa na Ucrânia. A posição liberal e crítica perante regimes de poder "maldoso" impediu, por exemplo, a publicação de alguns dos seus livros na terra natal, destaca Sannikov, exilado no Reino Unido.
Um novo género literário
Sara Danius, membro permanente da Academia Sueca e responsável pelo anúncio do nome vencedor na categoria de Literatura, destacou o trabalho da bielorrussa como fundador de "um novo género literário".
Na história do Nobel da Literatura, apenas 14 mulheres receberam a distinção da Academia Sueca. Uma lista reduzida que agora inclui o nome de Alexievich.
"Ela transcende os formatos do texto jornalístico e deu inovou com um género que outros ajudaram a criar", referiu Danius.

Já o jornalista sueco Bjorn Wiman, editor de cultura do diário Dagens Nyheter, descrevia as obras de Alexievich como "trabalho de fronteira entre o romance e o documentário".

O prémio, no valor monetário de 860 mil euros, já foi atribuído a 111 escritores desde 1901. Entre eles, está o nome de José Saramago, o único português vencedor na categoria e até hoje o único Nobel da Língua Portuguesa.

Desde segunda-feira que os prémios Nobel nos vários campos têm sido anunciados pela Academia das Ciências sueca. Já foram conhecidos os nomes distinguidos na Medicina, Física e Química. Amanhã é conhecido o Prémio Nobel da Paz.
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