Teerão acusa Washington de procurar pretexto para intervenção militar

O Irão acusou na terça-feira os Estados Unidos de procurarem um pretexto para intervir militarmente no país, depois de Donald Trump ter ameaçado agir "com muita firmeza" caso manifestantes detidos nos protestos contra o regime sejam executados.

Lusa /
Shawn Thew - EPA

"As fantasias e a política dos Estados Unidos em relação ao Irão baseiam-se na mudança de regime, com sanções, ameaças, agitação orquestrada e caos a servirem de modus operandi para fabricar um pretexto para a intervenção militar", destacou a missão iraniana numa mensagem acompanhada de uma carta de protesto dirigida aos líderes da ONU.

Teerão respondeu a declarações recentes de Trump, que anunciou que iria enviar ajuda económica à oposição no Irão e voltou a ameaçar com um possível ataque militar contra o regime da República Islâmica pela repressão dos protestos civis nas últimas semanas ou caso avance com execuções de manifestantes detidos.

O chefe de Estado norte-americano já tinha anunciado o cancelamento de todos os encontros com as autoridades iranianas até que "o assassinato sem sentido de manifestantes cesse", e incentivou os manifestantes a continuarem a protestar, garantindo , sem adiantar mais pormenores, que "a ajuda está a caminho".

O Ministério Público de Teerão adiantou na terça-feira que um número não especificado de manifestantes será julgado por "moharebeh" (guerra contra Deus, em persa), uma das acusações mais graves no Irão, que prevê a pena de morte, segundo um comunicado divulgado pela televisão estatal.

O Irão ocupa o segundo lugar no mundo em número de execuções, apenas atrás da China, segundo as ONG: em 2025, o país executou pelo menos 1.500 pessoas condenadas à morte, de acordo com a organização não-governamental (ONG) Iran Human Rights (IHR).

A ONG citou o caso de Erfan Soltani, de 26 anos, detido na semana passada na cidade de Karaj, perto de Teerão, que, segundo a sua família, já foi condenado à morte e poderá ser executado já hoje (quarta-feira).

Doze pessoas foram executadas durante a última grande onda de protestos, entre 2022 e 2023, segundo esta ONG sediada na Noruega. Outras doze foram executadas por espionagem para Israel desde a guerra de junho entre os dois países inimigos.

A IHR aumentou na terça-feira para 734 mortes verificadas nos protestos antigovernamentais no Irão, mas admite que o número real pode atingir milhares, como já indicam outras estimativas entretanto divulgadas, e estimou que o número de detidos ultrapassou os 10.000.

"Com base nos dados disponíveis e na verificação de informações obtidas de fontes fidedignas, incluindo o Conselho Supremo de Segurança Nacional e o gabinete presidencial, a estimativa inicial das instituições de segurança da República Islâmica é de que pelo menos 12.000 pessoas foram mortas neste massacre em todo o país", indicou a emissora multilingue por satélite, com sede em Londres, na sua página `online`.

Também a Human Rights Watch (HRW) denunciou na terça-feira uma escalada da repressão no Irão, com o assassinato de manifestantes nos recentes protestos contra o regime, e instou a comunidade internacional a intervir, pressionando Teerão a respeitar os direitos humanos e a facilitar a investigação da ONU sobre os acontecimentos.

A organização não governamental (ONG) destacou em comunicado que as restrições à Internet dificultaram "a verificação de assassinatos ilegais e outras violações dos direitos humanos cometidas durante a repressão dos protestos", que começaram em 28 de dezembro.

Stéphane Dujarric, porta-voz do secretário-geral da ONU, António Guterres, destacou na terça-feira que a ONU não tem atualmente uma presença dedicada aos direitos humanos no Irão, o que "dificulta a verificação direta dos factos", mas garantiu que o líder da ONU, o português António Guterres tem levantado repetidamente a questão dos direitos humanos no Irão em discussões com as autoridades iranianas.

 

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