Teerão afasta negociações diretas com EUA
O Irão afasta para já negociações diretas com os Estados Unidos para acabar a guerra, afirmou o chefe da diplomacia iraniana, quando as partes retomaram consultas diplomáticas apesar da crescente ameaça de retomar a guerra.
"Não vemos necessidade de nos reunirmos com os americanos neste momento. As nossas condições são claras e os mediadores continuam as suas consultas sobre o assunto", declarou Abbas Araghchi, numa entrevista à emissora qatari Al Jazeera.
Na sexta-feira, uma delegação do Qatar -- que tem atuado como mediador -- visitou Teerão pela segunda vez numa semana para tentar retomar as negociações de paz estagnadas desde julho.
O ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano disse que um dos seus assessores está no Qatar para continuar as negociações, acrescentando que mediadores qatari e paquistaneses continuam as consultas sobre as condições estabelecidas por Teerão para retomar as negociações com Washington.
O chefe da diplomacia iraniana indicou ainda que intermediários apresentaram propostas relativas ao programa nuclear do Irão, que Teerão está atualmente a estudar como parte de uma segunda fase do processo.
Aragchi considerou positivo que Washington esteja a tentar abrir a porta ao diálogo, referindo-se à carta enviada esta semana pelo vice-presidente dos EUA, JD Vance, ao secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, Mohsen Rezaei.
Alertou no entanto que, se o objetivo da carta for gerar controvérsia, seria "mais um erro" que seria acrescentado aos anteriores dos Estados Unidos.
O diplomata disse que Teerão estudou cuidadosamente a carta de Vance e que o seu conteúdo foi discutido em reuniões de alto nível, sem fornecer detalhes.
Relativamente a possíveis contactos futuros com os Estados Unidos, o ministro afirmou que atualmente não há planos para uma reunião com representantes norte-americanos e descreveu os relatos de uma possível reunião como "mera especulação mediática."
O ministro afirmou que, para realizar conversações diretas ou indiretas, os Estados Unidos devem primeiro aceitar as condições do Irão, incluindo a cessação das hostilidades em todo o Médio Oriente, a libertação dos ativos iranianos congelados e o levantamento do cerco naval e das sanções dos EUA.
Relativamente ao estreito de Ormuz, passagem marítima estratégica para o comércio global de petróleo, Araghchi disse que a proposta iraniana é a única atualmente considerada para a reabertura.
Desde o início da guerra, desencadeada pelos ataques israelo-americanos ao Irão a 28 de fevereiro, Teerão tem reivindicado o controlo da rota marítima e visa regularmente navios que tentam atravessá-la sem a sua autorização.
As exigências de Teerão já estavam incluídas num memorando de entendimento entre o Irão e os EUA alcançado em junho, após um cessar-fogo em abril para pôr fim a 40 dias de trocas de ataques.
Mas o frágil acordo foi destruído este verão, e os esforços diplomáticos para um acordo têm sido até agora infrutíferos.
As consultas estão a decorrer, enquanto crescem especulações sobre uma possível nova escalada militar.
O Presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou na sexta-feira que o diálogo com o Irão está a ser mantido para pôr fim ao conflito.
No entanto, meios de comunicação norte-americanos como o portal Axios e o The New York Times noticiaram que Washington e Telavive estão a coordenar uma possível nova ofensiva que incluiria ataques a líderes iranianos, a instalações energéticas e nucleares e à infraestrutura do país.
A atividade diplomática do Qatar e do Paquistão, juntamente com os recentes contactos entre representantes da Arábia Saudita e da Turquia em Teerão, faz parte dos esforços regionais para evitar uma escalada adicional e encontrar uma solução negociada para a guerra.