Tensão a leste. EUA ainda esperam invasão russa da Ucrânia "a qualquer momento"

Um alto responsável da Administração norte-americana adiantou na última noite, a coberto do anonimato, que Washington está ao corrente de um reforço em sete mil operacionais das forças militares russas posicionadas nas linhas de fronteira com a Ucrânia. Os Estados Unidos classificam como “falso” o anúncio, por parte de Moscovo, de um recuo às bases de soldados envolvidos em exercícios militares.

Carlos Santos Neves - RTP /
Guardas fronteiriços da Ucrânia patrulham a fronteira com a Rússia perto de Kharkiv, no leste Sergey Kozlov - EPA

“De facto, confirmámos que, nos últimos dias, a Rússia aumentou a sua presença ao longo da fronteira ucraniana em sete mil soldados, alguns dos quais chegaram na quarta-feira”, afirmou o alto responsável norte-americano, em declarações citadas pelas agências France Presse e Associated Press.

Este reforço, a ter ocorrido, empurrou os contingentes russos em redor da Ucrânia para um total próximo de 150 mil operacionais militares – precisamente o número aventado na terça-feira pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden. Em suma, a Administração norte-americana procura esvaziar de significado os anúncios de recuo de forças por parte do Ministério russo da Defesa.
Também o presidente ucraniano, Vlodymyr Zelensky, afirmou na quarta-feira ter constatado somente “pequenas rotações” de tropas russas.
A mesma fonte citada pelas agências noticiosas enfatiza que, embora Moscovo continue a dizer-se disponível para uma solução diplomática, “as suas ações apontam em sentido contrário”.

Os Estados Unidos continuam, assim, persuadidos de que a máquina de guerra russa pode avançar para território da Ucrânia “a qualquer momento”. Isso mesmo ficou reforçado durante uma conversa ao telefone, na quarta-feira, entre o presidente norte-americano e o chanceler alemão, Olaf Scholz, segundo Berlim: a ideia de que falta à Rússia, nesta fase aguda da crise, “dar passos verdadeiros” para aliviar a válvula de pressão.

A Rússia, insistiram os dois líderes, sofrerá “consequências extremamente graves” se partir para um ofensiva contra a Ucrânia – leia-se sanções reforçadas.
A Rússia tem recebido estas acusações norte-americanas – secundadas pelos aliados ocidentais dos Estados Unidos – com frieza, considerando-as manifestações de “histeria”. E o Ministério russo da Defesa divulgou repetidamente imagens de movimentações de tropas e equipamento de guerra, descrevendo-as como provas de um efetivo recuo.
“Não temos medo de nenhum prognóstico”
Afinando pela nota dominante da NATO, o presidente da Ucrânia observou na quarta-feira uma sequência de exercícios militares em território ocidental. Mais tarde deslocou-se a Mariopol, a leste, perto da linha da frente do crónico conflito com separatistas pró-Rússia apoiados por Moscovo.
“Não temos medo de nenhum prognóstico. Não temos medo de ninguém”, declarou Volodymyr Zelensky, envergando cores militares por ocasião do “dia da união” por si decretado. “Vamos defender-nos”, reiterou o chefe de Estado.
“Nova normalidade”
A cúpula militar russa anunciou na quarta-feira um ponto final aos exercícios realizados na península da Crimeia. Por sua vez, a Bielorrússia, Estado satélite da Rússia, veio garantir que todos os soldados russos destacados para o seu território, também no âmbito de exercícios, abandonarão o país até 20 de fevereiro.

Na sequência destes desenvolvimentos, o secretário-geral da NATO viria desvalorizar as imagens de movimentação de tropas russas. “Pelo contrário, parece que a Rússia continua a reforçar a sua presença militar”, contrapôs Jens Stoltenberg, para reiterar que a Aliança Atlântica pretende robustecer a presença a leste perante as ameaças de Moscovo, que descreveu como “a nova normalidade na Europa”.

O ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Jean-Yves Le Drian, pronunciou-se no mesmo sentido, ao acusar o Kremlin de Vladimir Putin de fazer anúncios vazios.
A raiz da tensão
O presidente russo exige, em síntese, o termo da política de alargamento da NATO, rejeitando em toda a linha a eventual abertura da Aliança Atlântica à adesão da Ucrânia. Reclama também a retirada de toda a estrutura militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte do leste da Europa.

Na passada terça-feira, a Duma, câmara baixa do Parlamento russo, acrescentou combustível à fogueira da tensão regional, apelando a Vladimir Putin para que reconheça a independência dos territórios separatistas do leste da Ucrânia. Algo que o secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, se apressou a classificar como “grosseira violação do Direito Internacional”.

O Departamento de Estado norte-americano advertiu entretanto para uma alegada campanha russa de falsas informações avançadas aos media, numa tentativa de influenciar a opinião pública. O porta-voz Ned Price manifestou, em concreto, preocupação com as afirmações de Vladimir Putin sobre um suposto “genocídio” em curso no leste da Ucrânia.

Já esta quinta-feira os órgãos de comunicação social da Rússia noticiaram que as forças ucranianas terão violado o acordo de cessar-fogo com o disparo de granadas de morteiro contra forças rebeldes pró-russas em Luhansk.

c/ agências
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