Tensão entre Bruxelas e Washington, guerra na Ucrânia. O que esperar da Conferência de Munique?

Tensão entre Bruxelas e Washington, guerra na Ucrânia. O que esperar da Conferência de Munique?

A conferência acontece numa altura em que os Estados Unidos representam para a Europa uma ameaça à sua segurança e perto do quarto aniversário da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia.

RTP /
Foto: Thilo Schmuelgen - Reuters

Realiza-se este fim de semana a 62.ª Conferência de Segurança de Munique. Aguarda-se pelas intervenções do príncipe Reza Pahlavi do Irão, filho do Xá deposto em 1979, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, entre outros. 

O ministro português dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, também deverá discursar no evento, assim como o presidente francês, Emmanuel Macron.

A conferência realiza-se numa altura de grande tensão entre os Estados Unidos e a Europa e quando se assinala o quarto aniversário da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia.EUA: “O mais poderoso entre aqueles que destroem as regras” 
O relatório da conferência, intitulado sugestivamente “Em Destruição”, alerta para “consequências de longo alcance da ascensão de forças políticas que priorizam a destruição em detrimento da reforma”, apontando o presidente norte-americano, Donald Trump, como “o mais poderoso entre aqueles que destroem as regras e instituições existentes”.

No ano passado, o vice-presidente norte-americano, JD Vance, fez o diagnóstico de uma Europa em “declínio” e defendeu que apenas os partidos nacionalistas poderiam salvar o continente, apelando ao abandono do “cordão sanitário” ao partido de extrema-direita alemã AfD, acusando o velho continente de estar a “recuar” na liberdade de expressão. 

Este ano, a administração norte-americana estará representada pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. Espera-se que use um tom menos confrontacional, mas poderá ainda assim pressionar os aliados europeus a partilharem o ónus na segurança europeia, estima a agência France Presse. 

Nas últimas semanas, as ameaças norte-americanas à Gronelândia e a nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, divulgada a 5 de dezembro, têm causado tensão entre Washington e o velho continente. 

Nesse documento, temia-se o “declínio civilizacional” da Europa, acusando a União Europeia de “minar a liberdade política e a soberania”, de ter uma política migratória geradora de conflitos, assim como de “censura da liberdade de expressão e supressão da oposição política”.Rússia e Ucrânia: intensões de retomar diálogo em meio a ataques
Para além do futuro das relações transatlânticas, a Rússia e a guerra da Ucrânia também deverão ser temas a tratar.

Volodymyr Zelensky estará presente na conferência, numa altura em que a guerra na Ucrânia entra no seu quarto ano, e em meio de conversações com a Rússia e os Estados Unidos para resolver o conflito.

No entanto, os constantes ataques russos às infraestruturas energéticas, durante um inverno ucraniano muito rigoroso, aumenta a tensão entre Kiev e Moscovo, apesar das pressões norte-americanas para um acordo de paz e realização de eleições ainda durante a primavera. 

Emmanuel Macron, presidente francês, irá também participar e já manifestou vontade de reabrir os canais de contacto com a Rússia para negociar a Europa pós-guerra da Ucrânia, algo partilhado pela chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, que pede um lugar para a União Europeia na mesa das negociações de paz.
Europa inspirada pelo Canadá
Apesar de não marcar presença na conferência, devido ao tiroteio numa escola secundária que matou dez pessoas, as palavras do primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, deverá estar “na mente de todos”, segundo a agência France-Presse.

Em janeiro, durante o Fórum Económico Mundial de Davos, Carney fez um discurso em que avisava para o fim do sistema internacional pós-1945 e pediu para se parar de “invocar a ‘ordem internacional baseada em regras’ como se ainda funcionasse conforme anunciado”, a favor da criança de um novo multilateralismo liderada pelas médias potências.

O discurso, muito elogiado, pode estar por trás de decisões sobre uma maior independência europeia face a Washington, nos campos económico, diplomático, financeiro e político.

Na terça-feira, o presidente francês, Emmanuel Macron, avisou que a União Europeia deve “despertar” e “sair do estado de minoria geopolítica”, pedindo um bloco europeu mais unido, com capacidade de endividamento comum para financiar projetos de segurança, defesa, inteligência artificial e tecnologias verdes, como forma de a União Europeia não ser “varrida” destes setores nos próximos três a cinco anos.
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