Testes poderão indicar quadros de demência e Alzheimer dez anos antes dos primeiros sintomas

por Paulo Alexandre Amaral - RTP
Foto: Atlascompany - Freepik

Podemos estar perto de ter à mão um teste que nos indique a possibilidade de termos demência uma década antes de que esta comece a revelar os primeiros sinais e seja diagnosticada num paciente. A confirmação estará em marcadores desta condição presentes em amostras recolhidas de mais de 50 mil voluntários num projeto da Biobank, do Reino Unido. Mais concretamente, o caminho é indicado por determinados padrões de quatro proteínas que podem apontar à demência, Alzheimer ou demência vascular em idades mais avançadas.

Os cientistas descobriram nas amostras de mais de 50 mil voluntários saudáveis marcadores para a demência [que veio a ocorrer]. Os padrões das proteínas, quando combinados com riscos mais conhecidos – como a idade, o sexo, o nível de escolarização e a suscetibilidade genética – permitiram aos investigadores prever a demência com uma certeza de 90 por cento cerca de 15 anos antes de os pacientes receberem o diagnóstico médico.

“Este novo estudo junta-se ao número crescente de provas de que ter atenção aos níveis de certas proteínas no sangue de pessoas saudáveis pode prever a demência com precisão antes que os sintomas comecem a aparecer”, explicou Sheona Scales, diretora de investigação da Alzheimer's Research UK.

Das 52.645 amostras de adultos sem demência que foram recolhidas entre 2006 e 2010, analisadas 10 a 15 anos depois, mais de 1.400 indivíduos desenvolveram demência. Elevados níveis de proteínas foram sinais de alarme.

Recorrendo à inteligência artificial, os investigadores procuraram relações entre milhar e meio de proteínas do sangue e o posterior desenvolvimento de quadros de demência. Estes cientistas descrevem como quatro proteínas – Gfap, Nefl, Gdf15 e Ltbp2 – estavam presentes em níveis anormais naqueles indivíduos que vieram a desenvolver demência, doença de Alzheimer ou demência vascular.

A inflamação no cérebro pode levar células chamadas astrócitos a produzir em excesso Gfap, conhecido marcador para a doença de Alzheimer. As pessoas com Gfap elevado tinham duas vezes mais probabilidade de desenvolver demência do que aquelas com níveis mais baixos.

Outra proteína do sangue, Nefl, está ligada a danos nas fibras nervosas, enquanto, por exemplo, Gdf15 mais elevado pode aparecer após danos nos vasos sanguíneos do cérebro.

Níveis altos de Gfap e Ltbp2, por seu lado, eram altamente específicos para demência, mais do que de outras doenças neurológicas, descobriram as equipas de investigação. Estas mudanças ocorreram pelo menos 10 anos antes de as pessoas receberem um diagnóstico de demência.
Os custos de um diagnóstico

Apontado o caminho para a predição de um dos males mais preocupantes das modernas sociedades, a questão coloca-se também ao nível dos custos destes testes, de momento na ordem das centenas de euros.

Atualmente são mais de 55 milhões as pessoas que vivem com demência em todo o mundo, mas com o crescer da esperança de vida e outros fatores, estas serão poderão atingir a fasquia dos 78 milhões dentro de apenas seis anos, em 2030. Falamos aqui de demência em geral, mas os quadros dividem-se em 70% causada pela doença de Alzheimer e 20% pela demência vascular (uma condição caracterizada por danos causados nos vasos sanguíneos).

A identificação prematura de um indivíduo que tenha um quadro potencial de demência poderá ser crucial para a aplicação de terapias para a Alzheimer que apenas funcionam quando usadas para atacar a doença na sua fase inicial. Trata-se do donanemab e do lecanemab.

O donanemab, desenvolvido pela empresa Eli Lilly, é uma imunoterapia que funciona com anticorpos que apontam a sua ação contra a amiloide, substância que se acumula nos espaços entre as células do cérebro. Um estudo divulgado há cerca de meio ano aponta que a utilização do donanemab retardou o ritmo da doença em cerca de 30 por cento dos pacientes e até 40 por cento nas circunstâncias mais favoráveis.

O lecanemab tem o mesmo mecanismo de ação, sendo desenvolvido pelas empresas Eisai e Biogen.

A esperança é agora que aqueles testes possam ser amplamente utilizados para detetar a demência em fases que permitam uma maior e melhor intervenção médica, em particular nos casos da Alzheimer.

“Esperamos desenvolver isso como um kit de triagem que possa ser usado no NHS (National Health Service – designação e sigla do serviço nacional de saúde britânico)”, afirmou Jianfeng Feng, cientista e académico da Universidade de Warwick, em Inglaterra, e da Universidade Fudan, na China.

É uma nova esperança que se abre para a comunidade médica e, mais importante ainda, para os pacientes afetados por quadros de demência. A questão está também relacionada, primeiro, com a aprovação daqueles medicamentos (donanemab e donanemab) pelos organismos reguladores, e dois, pelos custos dos tratamentos.

Em relação a esta última questão, a existência de um teste que possa prever com alto rigor e eficácia a existência futura de um quadro de demência torna-se vital para abrir o caminho à prescrição de tratamentos tão dispendiosos – em causa está a antecipação em anos dessa terapia que funciona tanto melhor quanto mais cedo for aplicada.

E há sempre esse problema do preço dos testes, que para se generalizarem, dizem os membros da comunidade médica e científica, deverão ter um preço muito mais acessível.
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