Toda a ajuda é pouca no resgate de centenas de sitiados pelas cheias a sul de Maputo

Centenas de famílias estão sitiadas em Boane, 30 quilómetros a sul de Maputo, pelas cheias que afetam Moçambique e que cortaram a estrada Nacional 2 (N2), com barcos da Marinha e de recreio mobilizados no resgate.

Lusa /
Toda a ajuda é pouca no resgate de centenas de sitiados pelas cheias a sul de Maputo Luísa Nhantumbo - Lusa

"A minha esposa conseguiu voltar ontem. Então, fiquei com o menino e agora acabamos de chegar", explica à Lusa Paulo Espírito Santo, ao sair de um destes barcos, com o filho, para o ancoradouro improvisado no distrito de Boane, onde o alcatrão da N2 é interrompido por uma imensidão de água a perder de vista, cortando a ligação para sul.

"Começou já ao final do dia [de sexta-feira], após as 15:00, com a situação de chuva, foi uma coisa repentina, quando a gente queria sair já não havia possibilidade, as embarcações já não estavam em funcionamento", conta, após tirar o colete salva-vidas, ainda aflito pelo receio vivido do outro lado, em Mazambanine, com centenas de outras pessoas ainda isoladas e casas totalmente inundadas.

Só durante a manhã, cerca de 200 pessoas foram dali retiradas -- incluindo uma grávida de sete meses que seguiu diretamente para o hospital -, em todo o tipo de barcos mobilizados para o apoio, depois de momentos de incerteza na madrugada, com as águas que não param de subir.

"Abrigaram-nos na casa de tratamento das águas e ficámos lá, pernoitamos lá. Então, esta manhã, ficámos mais ou menos umas duas horas de tempo à espera que viesse um socorro para poder nos fazer chegar aos pontos seguros", diz Paulo, arriscando que muitos, ao final da manhã, ainda aguardavam auxílio, apesar do vaivém constante de barcos, da proteção civil, Marinha e muitos particulares, com barcos de recreio, que se vão juntando ao salvamento.

"Creio que mais de 400 pessoas, por aí (...) E os danos também são de extrema importância, de tamanha dimensão que nunca me passou pela cabeça que um dia pudesse ver em Mazambanine", relata.

As fortes chuvas, ininterruptas há vários dias, e a abertura de barragens, já sem capacidade de encaixe, em Moçambique e nos países vizinhos, agravam o cenário e já colocam esta época das chuvas (outubro-abril) como uma das mais graves dos últimos anos, levando o Governo a decretar na sexta-feira alerta vermelho.

Junto ao ancoradouro em que se transformou a N2, entre os campos de milho à volta, técnicos de saúde recebem os deslocados que chegam em cada barco e prestam o primeiro auxílio, fornecendo sopa, chá e água, entre a ajuda também da Cruz Vermelha e outras instituições.

"Vejo as equipas de trabalho empenhadas, mas é possível vir ainda mais pessoal, mais `staff`, seria viável, porque a necessidade também é gigantesca, é demais", confessa Paulo. Técnico de informática, passou pelas tendas de apoio, que também providenciam transporte para centros de abrigo em viaturas do Exército, e agora vai procurar, juntamente com o filho de 16 anos, a mulher que chegou no dia anterior, pouco depois de o Governo ter dado ordem para evacuar a zona.

Receia, no entanto, por quem ficou para trás e pelos seus traumas, nomeadamente das muitas crianças, reconhecendo que é preciso "muita, muita ajuda", até porque quem está isolado já sente "escassez naquilo que são as necessidades básicas", de comida a saúde.

Carlos Gomes, paramédico português, chegou a Moçambique em 2023 para ajudar precisamente no mesmo local a retirar as vítimas das cheias desse ano, com o grupo SOS Resgate. Nesse ano ajudou a retirar 1.100 pessoas, de barco e moto de água. Hoje está de novo, com o mesmo grupo, na inundada N2 a socorrer e mobilizar barcos de resgate, numa azáfama constante e num cenário que, confessa, já é pior do que as cheias anteriores.

"Muita gente sitiada. Muita gente, muita, muita, muita gente. Estamos a falar, só num sítio, de mais de 190 pessoas para tirar (...) Estamos a precisar de muitas ajudas, principalmente de combustível", diz.

A equipa SOS Resgate trabalha com as autoridades moçambicanas, da proteção civil à Marinha e a polícia, para maximizar o apoio e fazer mais resgates: "Estamos mais coordenados, existe mais uma interação geral entre todos. Somos uma equipa de alguns particulares e algumas equipas estatais".

O resgate vai prolongar-se "por muitas horas, por muitos dias", diz Carlos, antes de ter de abandonar a entrevista para o apoio a mais um barco que chega.

Logo ao lado, Vanusa Cândido, da equipa de nadadores-salvadores, ajuda a coordenar os vários grupos, num trabalho de resgate que não para: "Recebemos uma informação de mais um local que está, pelo menos, com quase 100 pessoas e já foram alguns barcos alocados para lá (...) à medida que estamos a recolher pessoas, as próprias pessoas vão dizendo, olha, tem um familiar nesta zona que não ouço falar dele há um, dois dias, então temos que, de facto, também dar esse apoio".

O objetivo é chegar rapidamente ao "máximo de pessoas possível", trabalho que arrancou na sexta-feira, quando as águas começaram a subir. Contudo, as pessoas ainda se mostravam reticentes em sair.

"Mas hoje, quando a situação se vai agravando, elas vão, de facto, pedindo ajuda, que é onde nós estamos (...) O trabalho está a continuar e estamos à espera de ir recebendo mais pessoas, portanto, é um trabalho contínuo, mas sim, o bom é que estamos a escoar as pessoas", afirma.

Inicialmente ainda enfrentaram algumas dificuldades logísticas, como falta de combustível, mas a mobilização geral, das entidades públicas aos grupos de particulares, conseguiu "resolver a situação para hoje".

"Quanto mais barcos tivermos, mais pessoal e apoio tivermos, melhor conseguimos escoar todos (...) Várias pessoas em vários locais, o bom é que algumas pessoas já se começam a aglomerar em sítios [para serem resgatadas] o que facilita o nosso trabalho", aponta Vanusa, explicando que as pessoas chegam com fome e frio, mas sobretudo assustadas.

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