Trump dá garantias ao Japão perante a ameaça de Pyongyang

O Presidente dos Estados Unidos falou ao telefone com o primeiro-ministro japonês e disse que vai impulsionar as capacidades militares na defesa contra a ameaça norte-coreana. A promessa é deixada no dia em que Xi Jinping chega aos Estados Unidos para o primeiro encontro entre os dois maiores líderes mundiais.

Andreia Martins - RTP /
Shinzo Abe e Donald Trump após conferência de imprensa, durante a visita do primeiro-ministro japonês aos Estados Unidos, em fevereiro. Carlos Barria - Reuters

A poucas horas do mais importante encontro bilateral desde que Donald Trump assumiu a presidência dos Estados Unidos, o líder norte-americano assegurou aos aliados japoneses que os Estados Unidos vão continuar a defender-se da ameaça norte-coreana, sem esquecer a proteção dos países aliados. 

Numa conversa telefónica de 35 minutos com o primeiro-ministro japonês Shinzo Abe, o Presidente norte-americano salientou que “todas as opções estão em cima da mesa”, incluindo uma eventual ação militar para fazer face às provocações da Coreia do Norte. 

“Donald Trump deixou claro que os Estados Unidos vão continuar a fortalecer a sua capacidade para dissuadir e a defender-se, a si e aos seus aliados, com toda a extensão das suas capacidades militares”, segundo informou a Casa Branca. 

As promessas do líder norte-americano chegam a Tóquio numa altura em que o Governo nipónico enfrenta enorme contestação interna. O próprio Partido Liberal Democrático, liderado por Shinzo Abe, apresentou uma proposta que apela ao chefe de Governo para que considere a opção de executar ataques contra alvos militares norte-coreanos.

O grupo que apresenta esta proposta argumenta que a solução não violaria a Constituição japonesa, muito restritiva em questões de Defesa desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Precisamente porque, uma ação desta natureza se enquadraria "no âmbito da autodefesa", como argumenou o antigo ministro da Defesa, Itsunori Onodera.
Situação tensa no extremo-oriente
Sem margem para dúvidas ou inseguranças, o Presidente norte-americano quis assegurar que “está do lado dos seus aliados, o Japão e a Coreia do Sul, perante a grave ameaça que a Coreia do Norte continua a representar”.  
Com a promessa renovada de proteção por parte dos Estados Unidos, a Coreia do Sul realizou esta quinta-feira um ensaio balístico. Segundo a agência de notícias Yonhap, o míssil de longo alcance atingiria qualquer parte do território norte coreano, uma vez que poderia chegar à distância máxima de 800 quilómetros. 

O teste das autoridades de Seul acontece um dia depois do lançamento de um míssil balístico pela Coreia do Norte, em direção ao Mar do Japão. Este novo lançamento, dizem os especialistas, teve como destinatários os líderes chinês e norte-americano, que se encontram esta quinta-feira na Florida. Um "lembrete" endereçado aos dois representantes, recordando que a questão da ameaça de Pyongyang continua por resolver. 

Ainda antes, na segunda-feira, Coreia do Sul, Japão e Estados Unidos tinham realizado exercícios navais conjuntos, manobras trilaterais que se prolongaram durante três dias ao largo do sul da península coreana, no sentido de contrariar a ameaça nuclear e balística de Pyongyang. 
 “Prontos para agir sozinhos”
A questão norte-coreana deverá ser o assunto predominante na visita de Xi Jinping aos Estados Unidos, que começa hoje e se prolonga até sexta-feira. O Presidente chinês vai ser recebido por Donald Trump na quinta de Mar-a-Lago, propriedade da família Trump na Florida, onde os dois líderes deverão discutir os recentes desenvolvimentos do programa de armamento de Pyongyang. 

O encontro acontece dias depois de Donald Trump ter garantido, em entrevista ao Financial Times, que os Estados Unidos estariam “prontos para agir sozinhos”, em caso de impasse por parte do gigante asiático. 

“A China tem uma grande influência sobre a Coreia do Norte. É a China que vai ter decidir se nos apoia com a Coreia do Norte ou não. Se eles não querem resolver o problema da Coreia do Norte, resolvemos nós”, referiu.
 
No início do ano, a China mostrou sinais de impaciência perante os sucessivos testes com mísseis encabeçados pelo regime de Pyongyang. As relações com o único aliado significativo que ainda resta ao regime norte-coreano - ligado ao vizinho peninsular sobretudo desde a revolução popular na China - têm esfriado nos últimos anos, sobretudo com a chegada ao poder de Kim Jong-un. 

Xi Jinping terá ficado desagradado com os recentes lançamentos balísticos, mas sobretudo com o assassínio de Kim-Jong-nam, que a Malásia atribui ao regime de Pyongyang. O meio-irmão de Kim Jong-un era próximo do regime chinês, tendo vivido vários anos no exílio em Pequim e em Macau. A irritação levou mesmo à suspensão das importações de carvão vindo da Coreia do Norte até ao fim de 2017, uma medida com impactos incalculáveis para o país. 

Se por um lado a China parece estar pronta a repensar a sua posição em relação à Coreia do Norte, num contexto de ascensão e normalização de Pequim no panorama internacional, o Governo chinês mostra que não está pronto a ceder em toda a linha nas suas convicções. 

A posição oficial continua a ser de apoio ao regime norte-coreano e a intromissão dos Estados Unidos nos assuntos da região gerou acrimónia, sobretudo na questão do sistema de defesa antimíssil, que os norte-americanos já começaram a instalar na Coreia do Sul no sentido de proteger o país aliado.

O início da construção do sistema THAAD, concertado entre Seul e Washington, levou o Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros a declarar que a instalação da infraestrutura “perturba o equilíbrio estratégico da região” e a boicotar empresas sul-coreanas no mercado interno.

Na antecipação deste encontro fulcral entre os dois líderes, a imprensa norte-americana tem avançado que a administração Trump está a ponderar impor sanções contra os bancos e empresas chinesas que dão à Coreia do Norte o acesso ao sistema financeiro internacional, deixando para já uma eventual ação militar.
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