Trump reparte a culpa pela violência em Charlottesville

por Carlos Santos Neves - RTP
“Tínhamos um grupo de um lado que era mau e outro grupo do outro lado que também era muito violento”, carregou ontem o Presidente dos Estados Unidos Kevin Lamarque - Reuters

Depois de ter condenado, debaixo de pressão, Ku Klux Klan, neonazis e outras organizações supremacistas, o Presidente norte-americano voltou na terça-feira à carga com uma posição de aparente equidistância perante os recentes acontecimentos em Charlottesville. Donald Trump considera que houve extremismo à direita e à esquerda na recente vaga de violência que varreu aquela cidade do Estado da Virgínia.

Sem esconder a irritação, o Presidente dos Estados Unidos chamou os jornalistas à Trump Tower, em Nova Iorque, para retornar à primeira leitura pública que fez das violentas manifestações nas ruas de Charlottesville, onde marcharam neonazis, supremacistas e elementos do segregacionista Ku Klux Klan. As responsabilidades são para repartir, considera Donald Trump.“Obrigado Presidente Trump pela sua honestidade e coragem”, escreveu entretanto no Twitter David Duke, antigo líder do Ku Klux Klan.


“Tínhamos um grupo de um lado e outro grupo do outro lado que também era muito violento. E ninguém o quer dizer, mas eu digo-o agora mesmo”, lançou o Presidente, no preâmbulo de um tenso vaivém de perguntas e respostas.

“Nem todas aquelas pessoas eram neonazis, acreditem. Nem todas aquelas pessoas eram supremacistas brancos. Havia um grupo de um lado, podem chamar-lhes a esquerda, que avançou violentamente para atacar o outro grupo. Podem dizer o que quiserem, mas é assim”, insistiu.

A violência tomou conta de Charlottesville no passado sábado após uma marcha designada Unite the Right, ou Unir a Direita, que oficialmente visava contestar planos para retirar uma estátua do general Robert E. Lee, comandante das forças confederadas na guerra civil norte-americana.

Grande parte dos militantes de extrema-direita integrou a marcha com armas de fogo, escudos, capacetes e bastões. Na contramanifestação que se seguiu havia também ativistas com paus, capacetes e escudos. Os dois lados acabariam por se defrontar em diferentes ruas da cidade.

O dia ficou marcado pela morte de uma mulher, vítima de um condutor que avançou com o carro contra uma multidão de opositores da marcha da extrema-direita. Outras 19 pessoas ficaram feridas. James Fields, um natural do Ohio com 20 anos de idade e descrito como simpatizante do nazismo, foi entretanto indiciado por homicídio.

Morreram ainda dois operacionais da polícia estadual; seguiam a bordo de um helicóptero de vigilância que caiu.
“Terroristas esquerdistas”

No mesmo dia da marcha Unir a Direita, Trump sairia a público para condenar o ódio e a violência por parte de “muitos lados”. Uma tomada de posição que lhe valeu uma barragem de críticas transversais a democratas e republicanos, todos a reclamar uma condenação expressa dos movimentos nacionalistas, racistas e xenófobos, vistos como o combustível da violência.

As vozes mais críticas viram em Trump um Presidente demasiado relutante na condenação de grupos que foram também parte da sua base de apoio na ascensão à Casa Branca.

Na segunda-feira, o Presidente acabaria por considerar “repugnantes” o “KKK, neonazis e supremacistas brancos e outros grupos de ódio”. Sem se livrar de novas críticas pela correção tardia da declaração inicial.

Com o regresso à casa de partida, Donald Trump vê-se agora debaixo de uma tempestade política em contínuo agravamento. Por outro lado, vê nomes como o de David Duke, antigo número um do Ku Klux Klan, a colarem-se à sua Presidência.


“Obrigado Presidente Trump pela sua honestidade e coragem em dizer a verdade sobre #Charlottesville e condenar os esquerdias terroristas do BLM/Antifa”, escreveu Duke no Twitter, referindo-se aos movimentos Black Lives Matter e antifascistas.

Por sua vez, o governador democrata da Virgínia, Terry McAuliffe, reprovou em toda a linha as palavras de Trump.

“Neonazis, homens do Klan e supremacistas brancos vieram a Charlottesville altamente armados, a vomitar ódio e à procura de uma luta. Um deles assassinou uma jovem mulher num ato de terrorismo doméstico e dois dos nossos melhores polícias morreram num trágico acidente enquanto serviam para proteger esta comunidade. Isto não foi os dois lados”, reagiu.
“George Washington perderá estatuto?”
Na tomada de posição desta terça-feira, o Presidente norte-americano mostrou também simpatia para com a causa da manutenção da estátua equestre do general Lee.

“Havia pessoas naquele grupo que estavam lá para protestar contra o derrube de uma estátua muito, muito importante e da alteração do nome do parque Robert E. Lee”, apontou, antes de aludir a figuras tutelares da independência da América.

“Foi George Washington um proprietário de escravos? George Washington vai perder o estatuto? Vamos derrubar estátuas a George Washington? E que tal Thomas Jefferson? Porque ele foi um grande proprietário de escravos”, enumerou Trump.

“A declaração que fiz no sábado, a primeira declaração, foi uma ótima declaração, mas não se faz uma declaração direta sem se conhecer os factos. Demora um pouco a receber os factos”, procurou justificar.
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