Twitter fecha cerca de 3500 contas ligadas a propaganda de Estado

por Carla Quirino - RTP
Ilustração de Kacper Pempel - Reuters

A rede social Twitter diz ter removido 3.465 contas que propagavam narrativas dos regimes da China, México, Rússia, Tanzânia, Uganda e Venezuela. Os perfis apagados ampliavam "operações de informação apoiadas pelo estado". A maioria era chinesa e partilhava informação falsa sobre a minoria Uigur.

Em comunicado, a rede Twitter detalha os perfis descobertos e apagados da plataforma digital. Pelo menos 2048 contas publicavam "narrativas que ampliavam a visão do Partido Comunista Chinês" associadas à minoria Uigur, da região de Xinjiang

O Twitter descobriu que inúmeros perfis vinculados ao estado da China estavam a publicar propaganda para alterar a perceção sobre os campos, onde se acredita que estão retidos mais de um milhão de uigur.

As páginas bombeavam para a rede social fotos e imagens, contas simuladas, potencialmente automatizadas e perfis falsos de uigures para difundir propaganda estatal e depoimentos enganosos sobre vidas felizes na região, pretendendo dissipar as evidências de uma campanha de opressão de anos.

A repressão exercida por Pequim contra o povo uigur tem um longo histórico. O grupo étnico, maioritariamente muçulmano, é acusado pelo governo de acções separatistas e a autoridade apenas está no terreno para "combater o extremismo".

Por sua vez o estado chinês é acusado por ativistas ocidentais de tentativa de genocídio dos Uigur, onde a tortura, trabalho forçado e esterilização fazem parte de uma estratégia de domínio chinês na região. Especialistas em direitos das Nações Unidas afirmam que pelo menos um milhão de uigur tem sido retidos em campos de concentração.

Outros 112 perfis retirados estavam ligados à "Changyu Culture", uma empresa privada apoiada pelo governo regional de Xinjiang.

Foram identificados mais de 30.000 tweets relacionados, que correspondiam a respostas a outros tweets. Com frequência, as frases rotulavam evidências de abusos como "mentiras" sob a hashtag #StopXinjiangRumours. Também havia partilha de vídeos que pretendiam fazer passar a mensagem como "a verdade" de Xinjiang.
Rede social é proibida na China
De acordo com analistas da thinktank do Australian Strategic Policy Institute (ASPI), o conteúdo de 2160 contas, associadas ao governo chinês que o Twitter encerrou, foi frequentemente produzido de forma "embaraçosa".

"Os verdadeiros autores assumem o controle e bombeiam esse conteúdo que geralmente é bastante reativo ... É tão absurdo , realmente não é muito bem feito. Uma das coisas estranhas sobre um conjunto de dados é que, por algum motivo desconhecido, eles incluem centenas de tweets com um identificador para uma conta @fuck_next", explicaram os especialistas ao The Guardian.

"O alvo não são as pessoas que são céticas em relação ao governo chinês. Estes conteúdos destinan-se a pessoas que confiam na media estatal chinesa e são céticas em relação aos media ocidentais dominantes", acrescentou o investigador da ASPI, Albert Zhang. "É propaganda para apelar às bases", sublinhou.

A limpeza de contas na rede Twitter desenvolveu-se um dia depois da empresa-mãe do Facebook, Meta, revelar que tinha desligado mais de 500 contas associadas a uma campanha de influência ligada à China sobre a Covid-19.

O conjunto de contas veiculavam e ampliaram alegações de um biólogo suíço fictício, Wilson Edwards, de que os Estados Unidos estavam a interferir nos esforços para identificar as origens do coronavírus.

Tanto o Twitter quanto o Facebook são proibidos na China, mas o governo de Pequim costuma usar as duas redes sociais dos Estados Unidos para propagandear as suas posições no cenário internacional.
Outros países
A subtração de contas também ocorreu no Uganda. O Twitter descobriu 418 contas "envolvidas em atividades inautênticas coordenadas" que operavam em apoio ao presidente Yoweri Museveni e seu partido, o Movimento de Resistência Nacional.

Na Tanzânia, 270 contas foram removidas, após a rede ter servido para o envio de denúncias de má-fé, visando membros e apoiantes do FichuaTanzania, um grupo de direitos civis.

O Twitter também desligou 16 contas ligadas à Agência de Pesquisa da Internet, uma empresa russa rotulada de "quinta de trolls" pelos críticos, que realiza campanhas de influência online pró-Governo.

"A operação contou com uma mistura de contas reais e não autênticas para introduzir um ponto de vista pró-Rússia no discurso político da África Central", disse o Twitter, citado na Aljazeera.

"Também removemos uma rede de 50 contas que atacaram o governo civil da Líbia e os atores que o ajudam, enquanto expressamos apoio significativo à posição geopolítica da Rússia na Líbia e na Síria", acrescentou o Twitter.

A rede também fechou outras 276 contas que partilharam conteúdo pró-governo no México, e “277 contas venezuelanas que ampliaram contas, hashtags e tópicos de apoio ao governo e suas narrativas oficiais”, rematou o gigante digital.

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