Ucrânia. Aviso de Joe Biden entreabre a porta a Putin e expõe fragilidades dos aliados

Ucrânia. Aviso de Joe Biden entreabre a porta a Putin e expõe fragilidades dos aliados

O presidente norte-americano está a ser acusado de dar a Vladimir Putin "luz verde" para agir na Ucrânia. Bastará à Rússia agir sem grande estrondo e verá, numa espécie de bónus, a confusão instalar-se entre as potências ocidentais, como insinuou Joe Biden.

Graça Andrade Ramos - RTP / Adicionar como fonte informativa
Joe Biden, Presidente dos Estados Unidos da América. na Casa Branca, Washington, em dezembro de 2022 Reuters

“É uma coisa se se tratar de uma incursão menor e então acabaremos às turras sobre o que fazer ou não”, alvitrou na quarta-feira o presidente dos Estados Unidos, numa busca de garantias que atraiu de imediato críticas generalizadas, internas e externas. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky lembrou na rede Twitter as grandes potências de que “não há incursões menores e nações menores. Tal como não há vítimas menores e desgosto menor pela perda dos mais queridos”.

O presidente entregou de bandeja ao presidente russo Vladimir Putin a melhor estratégia para cavar um fosso entre os EUA e os seus aliados europeus, consideram os mais críticos.

“Muito perturbante e perigoso” tweetou a representante republicana do Wyoming, Liz Cheney, muitas vezes um apoio decisivo a políticas dos rivais democratas.

Quinta-feira foi dia de a Casa Branca apagar fogos. O discurso presidencial retomou a hipótese mais grave que tem vindo a ser invocada. “Se quaisquer unidades militares russas passarem a fronteira ucraniana, isso é uma invasão”, a qual terá uma “resposta económica severa e coordenada”, esclareceu Joe Biden.

Ao explicar-se, o atual inquilino da Casa Branca não deixou de voltar a tocar na tecla da cautela.

A “Rússia tem um longo historial de outras agressões além das ações militares declaradas”, notou Joe Biden, dando como exemplos “táticas paramilitares, ataques em zonas alegadamente cinzentas e operações de soldados russos sem uniforme das forças russas”.
Menu de Putin
O assunto merece reflexão. Os EUA e seus aliados já decidiram o que fazer - impor sanções económicas severas - se a Rússia agir quanto à Ucrânia como um elefante numa loja de porcelanas, mas nada foi dito quanto a manobras mais discretas ou ao uso parcial das tropas, em pequena escala. Se observadores e analistas não têm visto sinais de divisão no bloco dos aliados ocidentais, o busílis da questão permanece: como determinar a severidade da infração e a resposta adequada. E que tipo de apoio dar a Kiev.

Putin tem uma panóplia de escolhas. Poderá por exemplo mover para o interior da Rússia a maioria das 100 mil tropas atualmente destacadas junto à fronteira, enquanto intensifica o apoio aos separatistas da região de Donbass, no leste da Ucrânia, mantendo a ameaça de invasão para conter Kiev ou levar os generais ucranianos a cometerem erros.

Pode igualmente lançar um ataque cibernético contra Kiev ou realizar pequenas incursões em território ucraniano justificáveis sob qualquer pretexto. Noutro cenário evocado na semana passada para o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais pelo cientista político Seth Jones e pelo ex-paramilitar da CIA Philip Wasielewski, e citado esta quinta-feira pela Associated Press, o presidente russo poderia enviar tropas “pacificadoras” para Donbass e recusar retirá-las enquanto negociações de paz não se concluíssem com sucesso.

Para Moscovo, isso significaria provavelmente a anexação das duas províncias leste da Ucrânia, Donetsk e Luhansk, até ao rio Dniepre, cenário que seria contraproducente se conseguido pela invasão declarada.

Essa, entre outras opções, iria “acarretar importantes sanções internacionais e implicar grandes dificuldades económicas, além de contrariar os objetivos de enfraquecer a NATO ou afastar os EUA dos seus compromissos para com a segurança europeia”, escreveram os analistas.
Quando, como e porquê
Até agora foi prometida uma resposta dura pelos aliados em caso de invasão mas parece nada estar previsto em concreto quanto aos castigos políticos e financeiros a impor ou quanto aos extremos que os poderão desencadear.

Se o ministro britânica da Defesa, Ben Wallace, garantiu esta semana no Parlamento que “está pronto um pacote de sanções que irão garantir que o Governo russo será castigado se pisar a linha”, também se escusou a definir que linha será essa.

E questionado sobre a “incursão menor” evocada por Biden, um diplomata francês, sob anonimato, não comentou nem as consequências decididas por um amplo “consenso europeu” nem a definição do que poderá constituir um ataque à soberania ucraniana.Numa ação aparentemente concertada, o ministério da Defesa da Estónia anunciou esta sexta-feira em comunicado que o país irá enviar para Kiev mísseis anti-blindados, com as vizinhas Letónia e Lituânia a contribuírem com mísseis stinger anti-aéreos.

Quarta-feira, o presidente Joe Biden sublinhou que a estratégia na coordenação das sanções a aplicar, por exemplo a nível bancário, é complicada devido aos prováveis efeitos económicos negativos nas economias tanto dos Estados Unidos como a Europa.

“Tenho de ter a certeza de que estamos todos de acordo antes de prosseguir”, explicou. O ministro ucraniano dos Negócios estrangeiros referiu entretanto ter falado com Biden sobre um novo reforço das capacidades defensivas da Ucrânia.
Regresso a 1997
Com o atual braço de ferro, o presidente russo pretende extrair garantias por parte da NATO de que não aceitará a Ucrânia como membro. Exigências que não só a Aliança como as principais potências europeias e os Estados Unidos já recusaram categoricamente.

Esta sexta-feira, a Aliança rejeitou igualmente exigências russas para retirar as suas armas, tropas e demais equipamento estacionadas na Roménia e na Bulgária, num regresso às fronteiras de 1997 como garantia de segurança.

O assunto dominou o encontro realizado em Genebra entre os responsáveis dos Negócios Estrangeiros dos Estados Unidos e da Rússia.

"A NATO não irá renunciar à sua capacidade de proteger e defender os seus membros, incluindo com a presença de tropas na zona leste da aliança", declarou em comunicado a porta-voz da NATO, Oana Lungescu.

Em 2014, quando anexou a Península da Crimeia e apoiou as milícias separatistas ucranianas, Vladimir Putin enfrentou algumas sanções internacionais que nada mudaram. A Crimeia pediu para ser integrada na Federação Russa e o conflito no leste da Ucrânia fez desde então cerca de 14 mil mortos.
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