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Um mês após a captura de Maduro. Os interesses geopolíticos do petróleo venezuelano

Um mês após a captura de Maduro. Os interesses geopolíticos do petróleo venezuelano

"As companhias petrolíferas [norte-americanas] vão entrar, vão gastar muito dinheiro, e vamos recuperar o petróleo que, francamente, já devíamos ter recuperado há muito tempo". Esta foi uma das justificações usadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para a captura do seu homólogo venezuelano, Nicolás Maduro, há precisamente um mês. Nos 31 dias após a captura de Maduro, a indústria petrolífera venezuelana sofreu alterações significativas, nomeadamente com Caracas a permitir a entrada de capital privado e com as primeiras exportações para território norte-americano.

RTP /
Bombas de extração abandonadas e danificadas pelo tempo num campo da petrolífera estatal PDVSA no Lago Maracaibo. Foto: Leonardo Fernandez Viloria - Reuters

A palavra “petróleo” foi mencionada 26 vezes ao longo da já célebre conferência de imprensa desse mesmo dia e tem sido apontada como uma das causas paralelas para a captura do presidente venezuelano e para a tensão vivida entre os dois países.

O histórico das relações americano-venezuelanas é controverso nesta matéria e já levou à empresa estatal petrolífera venezuelana a pedir o corte de produção de petróleo às suas empresas parceiras.
Qual é o envolvimento dos Estados Unidos na Venezuela?
A Venezuela tornou-se exploradora de petróleo em 1914, quando completou a construção do primeiro poço, o Zumaque I, em Mene Grande, no norte do país, dois anos após a sua descoberta. A partir dessa data, a exploração de petróleo começou a ser assumida por várias empresas estrangeiras, sobretudo norte-americanas, como a ExxonMobil, que contribuíram para o desenvolvimento técnico da exploração de petróleo.

Para combater o crescente domínio das empresas estrangeiras, foi promulgada em 1943 a Lei dos Hidrocarbonetos, que obrigava as empresas a pagar ao Estado metade dos seus lucros na exploração do petróleo.

Em 1960, o país foi membro fundador da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEC), com a nacionalização da indústria a ocorrer em 1976. Porém, o Estado continuou a permitir parcerias com empresas estrangeiras, desde que tivesse 60% da participação.“Construímos a indústria petrolífera venezuelana com talento, empenho e habilidade americana, e o regime socialista roubou-nos isso durante as administrações anteriores e roubaram-na à força”, afirmou Donald Trump

Em 1999, Hugo Chavéz foi eleito presidente da Venezuela, tendo, em 2007, nacionalizado os ativos das empresas estrangeiras, como a norte-americana ExxonMobil, e que levou a pedidos de indemnizações pelos danos causados, decididos judicialmente a favor das empresas. Todavia, o Estado não cumpriu a decisão

Com a chegada de Nicolás Maduro ao poder, em 2013, a situação económica e social na Venezuela piorou, com acusações de corrupção e de gestão danosa da empresa pública, juntamente com a queda da produção de petróleo, que hoje produz apenas 1 milhões de barris por dia.

Além disso foram impostas sanções ao país, por parte dos Estados Unidos, em 2015, com o acesso venezuelano aos mercados limitado em 2019.

Até à nacionalização doa ativos por parte de Chavéz, os principais pontos de exportação eram os estados norte-americanos do Texas e Louisiana.
Qual é a importância do petróleo venezuelano para os Estados Unidos?
Ainda que os Estados Unidos sejam os maiores produtores de petróleo no mundo (13,3 mil milhões de barris por dia), o petróleo produzido é bruto leve, usado apenas para gasolina e pouco mais. Já o crude – petróleo não refinado - venezuelano é extra-pesado e crucial para a produção de asfalto, gasóleo e combustíveis para equipamentos pesados.

As reservas existentes na Venezuela são “a matéria-prima essencial” para serem processados pelas refinarias norte-americanas – e já o foi, no passado –, de acordo com a Associação Americana do Setor de Combustíveis e Petroquímica, pois o processamento de petróleo dos Estados Unidos “custaria milhares de milhões [de dólares]”.

Desta forma, a associação considera que o processamento de crude extra-pesado permite a redução de custos e a segurança energética, assim como a possibilidade de aumentar a produção nas refinarias norte-americanas.Quais são as reservas de petróleo da Venezuela?
A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo do mundo, correspondente a cerca de 303 mil milhões de barris, ou um quinto das reservas mundiais, segundo a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEC). Em segundo lugar encontra-se a Arábia Saudita (267 mil milhões de barris) e em terceiro o Irão (208 mil milhões). Os Estados Unidos possuem apenas cerca de 5 mil milhões de barris de reservas.

A grande maioria das reservas localiza-se no cinturão do Rio Orinoco, uma das maiores bacias hidrográficas da América Latina, que banha a Venezuela e a Colômbia, e que ocupa cerca de 55 mil quilómetros quadrados.

As reservas de Orinoco representam 60% de toda a produção de petróleo, mas são de crude extra-pesado, o que dificulta a extração e a refinação de petróleo, pelo que é normalmente vendido a preços mais baixos.

Apesar das reservas abundantes, o país apenas produz 1 milhão de barris por dia, 0,8% da produção mundial de crude, 921 mil desses usados para exportação. Em 1999, eram cerca de 3,5 milhões de barris por dia.

O crude extra-pesado, assim como os subsídios do governo venezuelano, permitem que os preços da gasolina venezuelanos sejam mais baratos do que a média mundial (0,04 dólares por litro contra a média global de 1,29 dólares por litro).Quem faz a exploração de petróleo na Venezuela?
A empresa estatal Petróleos da Venezuela S.A (PDVSA) é a responsável pela exploração, refinação, produção e comercialização do petróleo venezuelano. Foi fundada na sequência da nacionalização da indústria em 1976, levada a cabo pelo presidente Carlos Andrés Pérez.

Administra a exploração de dez refinarias de petróleo na Venezuela, mas não é a única empresa autorizada. A companhia Chevron é a única americana licenciada a operar no país e a exportar crude venezuelano, apesar da suspensão decretada pela PDVSA aos carregamentos futuros, em abril de 2025.

A exploração de petróleo, apesar do desinvestimento e da corrupção, constituiu a principal fonte de receita do Estado, mas a diminuição da produção e incidentes como a explosão da refinaria de Amuay, uma das maiores do mundo, danificaram severamente a industria petrolífera.

Para além da Chevron, empresas russas e chinesas participam na exploração de petróleo através de parcerias com a PDVSA.
Quem investe na indústria petrolífera venezuelana?
A China é um dos principais acionistas da indústria petrolífera na Venezuela, tendo investido, entre 2016 e 2023, cerca de 2,1 mil milhões de euros, com as empresas chineses a constituem as principais companhias estrangeiras a operar no país.

Uma delas é a estatal Sinopec, que, de acordo com a Morgan Stanley, citada pela Reuters, controla 2,8 mil milhões de barris venezuelanos, seguidos da russa Roszarubezhneft (2,3 mil milhões) e da Corporação Nacional de Petróleo da China (1,6 mil milhões). Esta última era a grande investidora até às sanções norte-americanas à exportação de crude de 2019, mas ainda produz em cooperação com a Sinovensa, empresa venezuelana e opera em joint venture com a PDVSA.

Em agosto de 2025, foi anunciado um investimento superior a 1 mil milhões de dólares por parte da Corporação Nacional de Petróleo da China, para a exploração de duas reservas de petróleo, com o objetivo de produzir 60 mil barris de crude por dia, até ao final de 2026.Para onde é exportado o crude venezuelano?
A Venezuela exportou 656 milhões de barris de crude em 2024 e 218 mil de petróleo.

O principal mercado, de acordo com o relatório de 2025 da OPEC, é o continente americano, tendo exportado, em 2024, 550 mil barris de crude para a região, seguido da Ásia, com a exportação de 223 mil barris, 34 mil dos quais para a China e 71 mil para a Índia.

No entanto, os valores são considerados reduzidos, com a firma energética britânica Vortexa a assumir que foram exportadas para a China 470 mil barris em 2025, 4,5% das importações de crude da China.

A divergência nos números, de acordo com a Reuters, pode prender-se com a existência pequenas refinarias independentes, sendo os “principais compradores chineses de crude barato”, cuja uma parte é usada para o pagamento da dívida venezuelana à China, estimada em 10 mil milhões de dólares.

Essa exportação direta e indireta poderá representar um total de 95% de todas as exportações de petróleo venezuelano.Quais são os planos dos Estados Unidos?
“Nós iremos ter as nossas maiores companhias de petróleo dos Estados Unidos, as maiores de todo o mundo, a gastar mil milhões de dólares, consertar a infraestrutura gravemente danificada, a indústria petrolífera, e começar a fazer dinheiro para o país”Donald Trump afirmou a vontade do país de “recuperar” a indústria petrolífera venezuelana para a esfera de poder dos Estados Unidos, incluindo o investimento por parte de empresas norte-americanas para “consertar” a indústria “gravemente danificada”.

O presidente dos Estados Unidos também prometeu que a reconstrução das infraestruturas será feita “diretamente” pelas empresas norte-americanas, e o investimento usado a favor da população venezuelana. No entanto, prometeu manter as sanções à indústria venezuelana em vigor.

Foi também prometido que os Estados Unidos estariam no controlo do país, com a cooperação da presidente interina, Delcy Gonzalez, mas com uma administração designada pelo presidente norte-americano, com o objetivo de “trazer de volta” a Venezuela.

No entanto, no passado domingo, o secretário de Estado, Marco Rubio, assumiu que os Estados Unidos não irão governar diretamente a Venezuela, mas que tal seria uma opção, e que não passaria pela nomeação da líder da oposição venezuelana, Corina Machado.
O que aconteceu no último mês?
Nos 31 dias após a captura de Maduro, a indústria petrolífera venezuelana sofreu alterações significativas, que começam com a exportação de 799 mil barris de petróleo por dia em janeiro, mais 300 mil em relação a dezembro de 2025, e que pode ser resultado do levantamento das sanções impostas pelos Estados Unidos às importações de petróleo venezuelano, em dezembro.

A 6 de janeiro, Nicolás Maduro e a mulher, Cilia Flores, foram presentes a tribunal em Nova Iorque, e declararam-se inocentes. Maduro está acusado de quatro crimes: narcoterrorismo – é acusado de liderar o Cartel dos Sóis – posse de armas de fogo e dispositivos destrutivos conspiração para a importação de cocaína, e conspiração para posse de armas. A próxima sessão está marcada para 17 de março. 

No dia seguinte, os Estados Unidos apreenderam dois petroleiros, um em águas territoriais islandesas e outro no Mar das Caraíbas, que alegadamente violavam o bloqueio marítimo imposto pelos Estados Unidos à Venezuela, com mais navios apreendidos nos dias seguintes.

No dia 9 de janeiro, Trump reuniu com as principais empresas petrolíferas norte-americanas e pediu um investimento de, pelo menos, 100 mil milhões de dólares (84 mil milhões de euros) na reconstrução da indústria petrolífera venezuelana. O objetivo será controlar a exploração e venda de petróleo como forma de manter pressão contra Delcy Rodríguez.

Enquanto a Exxon apelidou a Venezuela de “não investível” e afirmou que o investimento só faria sentido se o país transitasse para a democracia, a Chevron – considerada por Wall Street como a melhor posicionada para beneficiar da intervenção norte-americana – espera aumentar a sua produção em 50 por cento, após os números do quarto trimestre de 2025 terem atingido os 2,8 mil milhões de dólares, menos 400 milhões do que o período homólogo do ano anterior.

A 14 de janeiro, o Departamento de Energia dos Estados Unidos anunciou uma venda de petróleo venezuelano no valor de 500 milhões de dólares, como parte de um acordo de dois mil milhões de dólares assinado entre os dois países. Esse dinheiro deverá ser investido no setor bancário venezuelano e nos mercados externos para “consolidar e estabilizar o mercado e proteger a renda e o poder de compra dos nossos trabalhadores”, segundo Delcy Rodríguez. 

As primeiras empresas a receber as licenças foram a Vitol e a Trafigura. No dia 29 de janeiro, o Parlamento venezuelano aprovou uma reforma à Lei dos Hidrocarbonetos para abrir o petróleo ao capital privado, quase em simultâneo com a reabertura do espaço aéreo venezuelano por parte dos Estados Unidos para voos comerciais, e o levantamento de algumas sanções à compra de crude venezuelano por parte de empresas norte-americanas.

A reforma da lei abre a participação privada à exploração, extração e armazenamento de petróleo e ao investimento estrangeiro, assim como o exercício de “gestão técnica e operacional” das joint ventures com a PDVSA.

No dia 1 de fevereiro, zarpou o primeiro petroleiro venezuelano em direção aos Estados Unidos com gás de petróleo liquefeito. O Chrysopigi Lady partiu do norte da Venezuela em direção a Rhode Island, depois de 460 mil barris de nafta terem chegado à Venezuela, a 23 de janeiro. 

No mesmo dia, Trump mostrou-se favorável a investimentos chineses no petróleo venezuelano, afirmando que receberia o país “de braços abertos”, assumindo ainda o desejo de envolver a Índia no comércio de petróleo da Venezuela, como forma de dissuadir a importação de petróleo russo. 

A captura de Nicolás Maduro, assim como as pretensões abertas dos Estados Unidos de explorar os recursos petrolíferos da Venezuela, têm sido criticadas por entrarem em colisão com o direito internacional, pela remoção de um chefe de Estado por forças estrangeiras e pela promessa de administração direta da Venezuela por parte dos Estados Unidos, algo que viola o princípio de soberania dos Estados prevista na Carta das Nações Unidas.

Além disso, os Estados Unidos têm sido acusados de capturar Maduro com o pretexto de explorar as reservas de petróleo – algo admitido pelo próprio presidente norte-americano -, à semelhança do que aconteceu em intervenções no Iraque e na Líbia.
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