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Uma pena suspensa e uma de prisão efectiva no caso Vatileaks II
Chega ao fim o processo que ficou conhecido como Vatileaks II, iniciado após a detenção em novembro de 2015 de um prelado espanhol próximo do Opus Dei, Angel Vallejo Balda, e de uma consultora italiana, Francesca Chaouqui. Ambos foram acusados de terem passado documentação confidencial a dois jornalistas, que os usaram para publicar dois livros sobre os meandros financeiros do Vaticano.
De acordo com os autores dos livros, Gianluigi Nuzzi e Emiliano Fittipaldi, os documentos provam a má gestão e abuso de fundos pela Cúria.
Além do monsenhor espanhol, de Chaouqui e dos dois jornalistas, era arguido um colaborador do prelado, Nicola Maio, acusado de "um papel limitado" no caso.
O Vaticano acusou Chaouqui, Vallejo e Maio de formar uma associação criminal e de conspiração para divulgar documentos privados.
Condenações
Finalmente, Chaouqi foi hoje condenada numa pena suspensa de dez meses de prisão e Vallejo foi condenado em 18 meses de prisão efectiva.
A sentença difere das molduras penais que pendiam sobre os dois réus. A pena mais severa, de três anos e meio de prisão, aneaçava Chaouqui, considerada a "instigadora e responsável" da fuga de documentos.
Já o monsenhor Angel Vallejo Balda enfrentava a eventualidade de uma pena ligeiramente menor, de três anos e um mês de prisão. E para o seu colaborador, Maio, foi pedido um ano e nove meses de prisão.
O promotor de Justiça do Vaticano, equivalente ao Procurador, pediu ainda um ano de prisão com pena suspensa para o jornalista Gianluigi Nuzzi e a anulação das acusações contra Fittipaldi por falta de provas. São ambos acusados de pressionar Angel Vallejo e Francesca Chaouqui para obterem os documentos.
Vallejo foi o único dos arguidos a reconhecer em tribunal que entregou a Nuzzi a senha de acesso aos documentos da extinta comissão que investigava a gestão das Finanças do Vaticano, a que presidia. Justificou-se com um estado de confusão mental.
Os advogados dos arguidos pediram todos a absolvição dos seus clientes.

"Covil de ladrões"
O caso embaraçou o Vaticano, já em fogo lento devido a uma anterior fuga de documentos privados do Papa Bento XVI que ficou conhecida como Vatileaks.
Vallejo e Chaouqui eram ambos colaboradores próximos na Comissão papal para Referência na Organização da Estrutura Económico-Administrativa da Santa Sé (COSEA), entretanto encerrada. Ambos terão transmitido aos jornalistas os documentos confidenciais sobre as finanças do Vaticano que acabaram publicados nos dois livros.
Em janeiro de 2016 o arcebispo Angelo Becciu, responsável pelos Assuntos Gerais - e essencialmente o n.º 2 da Secretaria de Estado do Vaticano - reagiu à fuga, afirmando que a impressão de que a Curia é um "covil de ladrões", dada pela informação divulgada era uma falsa ideia das finanças e da gestão do Vaticano.É uma "completa falsidade", afirmou o arcebispo Becciu à revista Panorama.
Uma das alegações dos livros abordava a Coleta de Pedro, o fundo que tradicionalmente agrega as doações dos fiéis. De acordo com os livros, apenas 20 por cento do dinheiro arrecadado vão realmente para auxílio aos pobres.
Becciu afirma que, em cada dez euros coletados para o fundo, somente dois vão para obras de caridade. Seis financiam despesas do Vaticano e outros dois são para poupança.
À Panorama, o arcebispo perguntou: "Queremos subir o montante entregue aos pobres de dois para seis euros? De quatro mil empregados já tivemos de despedir 400. Preferimos não dar ao Governo italiano este peso adicional e seguir a recomendação do Papa Francisco, reformar mas de uma forma que não leve ninguém perder o seu emprego".
O caso provocou um debate sobre as limitações e direito à informação, com acusações de que o Vaticano pretendeu, com o processo contra os jornalistas, impedir a imprensa livre. Becciu reagiu, dizendo que não tem nada contra o dever de informar, mas tudo contra a forma como os jornalistas obtiveram a documentação.

Lavar de roupa suja
O Vatileaks II trouxe ainda à luz a relação ambígua dos dois principais acusados, o monsenhor Angel Vallejo, o único não-italiano implicado, e Francesca Chaouqui, colegas na COSEA. Ambos trocaram insultos e acusações ao longo do julgamento.
Ele afirmou que ela não passa de uma alpinista social ambiciosa e manipuladora que o colocou sob um encantamento e se voltou contra ele quando não conseguiu uma posição permanente no Vaticano.
Ela enviou-lhe mensagens insultuosas com referências 'impublicáveis' à sua alegada homossexualidade. O monsenhor argumenta que Francesca o levou a acreditar que era uma espia capaz de revelar segredos sobre a sua vida pessoal se não conseguisse um cargo proeminente no Vaticano.
No seu testemunho final, Chaouqui acusou Vellejo de mentir e negou ter sido sua amante, pedindo desculpa por algumas das palavras ditas durante o julgamento. "estava cheia de raiva. Não consigo conter as lágrimas. Nunca dei documentos a jornalistas", afirmou.
Francesca foi mãe há três semanas e apelou aos juízes para não a mandarem para a prisão. "Não quero que o meu filho cresça numa prisão", disse a chorar.
É pouco provável que, mesmo condenados, algum dos arguidos chegue a entrar na prisão. O Vaticano possui apenas duas celas e é o Estado italiano quem habitualmente fica responsável pela detenção caso o Vaticano o peça.
Como as prisões italianas estão cheias, o Estado italiano costuma suspender as sentenças de menos de três anos.
Após o Vatileaks dos documentos de Bento XVI, o Vaticano tornou crime a divulgação de documentos oficiais em 2013.
Além do monsenhor espanhol, de Chaouqui e dos dois jornalistas, era arguido um colaborador do prelado, Nicola Maio, acusado de "um papel limitado" no caso.
O Vaticano acusou Chaouqui, Vallejo e Maio de formar uma associação criminal e de conspiração para divulgar documentos privados.
Condenações
Finalmente, Chaouqi foi hoje condenada numa pena suspensa de dez meses de prisão e Vallejo foi condenado em 18 meses de prisão efectiva.
A sentença difere das molduras penais que pendiam sobre os dois réus. A pena mais severa, de três anos e meio de prisão, aneaçava Chaouqui, considerada a "instigadora e responsável" da fuga de documentos.
Já o monsenhor Angel Vallejo Balda enfrentava a eventualidade de uma pena ligeiramente menor, de três anos e um mês de prisão. E para o seu colaborador, Maio, foi pedido um ano e nove meses de prisão.
O promotor de Justiça do Vaticano, equivalente ao Procurador, pediu ainda um ano de prisão com pena suspensa para o jornalista Gianluigi Nuzzi e a anulação das acusações contra Fittipaldi por falta de provas. São ambos acusados de pressionar Angel Vallejo e Francesca Chaouqui para obterem os documentos.
Vallejo foi o único dos arguidos a reconhecer em tribunal que entregou a Nuzzi a senha de acesso aos documentos da extinta comissão que investigava a gestão das Finanças do Vaticano, a que presidia. Justificou-se com um estado de confusão mental.
Os advogados dos arguidos pediram todos a absolvição dos seus clientes.
"Covil de ladrões"
O caso embaraçou o Vaticano, já em fogo lento devido a uma anterior fuga de documentos privados do Papa Bento XVI que ficou conhecida como Vatileaks.
Vallejo e Chaouqui eram ambos colaboradores próximos na Comissão papal para Referência na Organização da Estrutura Económico-Administrativa da Santa Sé (COSEA), entretanto encerrada. Ambos terão transmitido aos jornalistas os documentos confidenciais sobre as finanças do Vaticano que acabaram publicados nos dois livros.
Em janeiro de 2016 o arcebispo Angelo Becciu, responsável pelos Assuntos Gerais - e essencialmente o n.º 2 da Secretaria de Estado do Vaticano - reagiu à fuga, afirmando que a impressão de que a Curia é um "covil de ladrões", dada pela informação divulgada era uma falsa ideia das finanças e da gestão do Vaticano.É uma "completa falsidade", afirmou o arcebispo Becciu à revista Panorama.
Uma das alegações dos livros abordava a Coleta de Pedro, o fundo que tradicionalmente agrega as doações dos fiéis. De acordo com os livros, apenas 20 por cento do dinheiro arrecadado vão realmente para auxílio aos pobres.
Becciu afirma que, em cada dez euros coletados para o fundo, somente dois vão para obras de caridade. Seis financiam despesas do Vaticano e outros dois são para poupança.
À Panorama, o arcebispo perguntou: "Queremos subir o montante entregue aos pobres de dois para seis euros? De quatro mil empregados já tivemos de despedir 400. Preferimos não dar ao Governo italiano este peso adicional e seguir a recomendação do Papa Francisco, reformar mas de uma forma que não leve ninguém perder o seu emprego".
O caso provocou um debate sobre as limitações e direito à informação, com acusações de que o Vaticano pretendeu, com o processo contra os jornalistas, impedir a imprensa livre. Becciu reagiu, dizendo que não tem nada contra o dever de informar, mas tudo contra a forma como os jornalistas obtiveram a documentação.
Lavar de roupa suja
O Vatileaks II trouxe ainda à luz a relação ambígua dos dois principais acusados, o monsenhor Angel Vallejo, o único não-italiano implicado, e Francesca Chaouqui, colegas na COSEA. Ambos trocaram insultos e acusações ao longo do julgamento.
Ele afirmou que ela não passa de uma alpinista social ambiciosa e manipuladora que o colocou sob um encantamento e se voltou contra ele quando não conseguiu uma posição permanente no Vaticano.
Ela enviou-lhe mensagens insultuosas com referências 'impublicáveis' à sua alegada homossexualidade. O monsenhor argumenta que Francesca o levou a acreditar que era uma espia capaz de revelar segredos sobre a sua vida pessoal se não conseguisse um cargo proeminente no Vaticano.
No seu testemunho final, Chaouqui acusou Vellejo de mentir e negou ter sido sua amante, pedindo desculpa por algumas das palavras ditas durante o julgamento. "estava cheia de raiva. Não consigo conter as lágrimas. Nunca dei documentos a jornalistas", afirmou.
Francesca foi mãe há três semanas e apelou aos juízes para não a mandarem para a prisão. "Não quero que o meu filho cresça numa prisão", disse a chorar.
É pouco provável que, mesmo condenados, algum dos arguidos chegue a entrar na prisão. O Vaticano possui apenas duas celas e é o Estado italiano quem habitualmente fica responsável pela detenção caso o Vaticano o peça.
Como as prisões italianas estão cheias, o Estado italiano costuma suspender as sentenças de menos de três anos.
Após o Vatileaks dos documentos de Bento XVI, o Vaticano tornou crime a divulgação de documentos oficiais em 2013.