Mordomo do Papa diz-se "inocente" no caso Vatikileaks

Paolo Gabriele, acusado de "roubo agravado" afirmou, na segunda audiência do processo Vatikileaks, que está "inocente" do crime de que é acusado, mas reconheceu-se "culpado" em relação a Bento XVI, por ter "traído a sua confiança". Gabriele garantiu ainda que não teve cúmplices, reconhecendo apenas ter inúmeros "contactos" no Vaticano, onde sentia um "descontentamento grande e difuso".

RTP /
Paolo Gabriele, ao centro na imagem, foi o mordomo do Papa até maio de 2012, quando foi acusado de ser responsável pela fuga de documentos privados de Bento XVI, publicados na imprensa Osservatore Romano/EPA

O ex-mordomo do Papa é acusado de ter roubado documentos dos aposentos privados do Papa, de quem era há muitos anos uma das pessoas de maior confiança.

Os documentos acabaram por ser publicados pela imprensa, alegadamente como prova da corrupção interna no Vaticano, num caso que acabou por ser conhecido como Vatikileaks.

Gabriele, de 46 anos, afirmou hoje, perante o Tribunal do Vaticano, que decidiu fazer cópias de documentos importantes, o que não considera um crime, pelo que se diz inocente.

Lamentou ter abusado da confiança de Bento XVI que garantiu "amar como um filho" e indicou ter sido influenciado pelos cardeais Angelo Comastri e Paolo Sardi.
Inquérito à detenção
O juiz do Vaticano ordenou entretanto um inquérito à forma como Gabriele ficou detido nas primeiras semanas após a sua prisão, a 23 de maio, pela polícia do Vaticano.

O ex-mordomo diz que durante 15 dias ficou fechado numa cela exígua onde não conseguia nem sequer abrir os braços e onde a luz estava permanentemente acesa. Gabriele afirma ainda ter sido pressionado psicologicamente

Após ser mantido na polícia do Vaticano durante 53 dias, Gabriele recebeu autorização para ficar em prisão domiciliária, em finais de julho.
Papa "é manipulado"
"Em relação ao "roubo agravado" declaro-me inocente. Sinto-me culpado de ter traído a confiança que tinha sido depositada em mim pelo Santo Padre, a quem amo como um filho", afirmou Paolo Gabriele perante os juízes do Vaticano.

O ex-mordomo acredita ainda que o Papa está a ser "manipulado" e que lhe são escondidos escândalos.

"Eu pensava que o Papa estava a ser manipulado. Às vezes, quando nos sentávamos à mesa, o Papa fazia perguntas sobre coisas de que ele deveria saber", disse o ex-mordomo, acrescentando acreditar que agiu "por ordem do Espírito Santo" para revelar a "maldade e corrupção" que existem na Cúria.
Acima de suspeita
Apesar de afirmar não ter cúmplices, Gabriele mantém que outros fizeram o mesmo que ele. "Neste ano, não fui o único a fornecer documentos à imprensa", garantiu.

A publicação dos documentos privados do Papa foi a maior fuga de informação registada na história do Vaticano. A investigação interna levou à detenção de Paolo Gabriele, considerado até então acima de suspeita.Código de silêncio

Paolo Gabriele terá sido o entrevistado anónimo do canal privado La Sette, em fevereiro de 2012, o qual revelou que no Vaticano reina uma "espécie de omertà (código do silêncio) para não revelar a verdade, não tanto por uma luta de poder, mas talvez por medo".

Gabriele terá afirmado ainda, nessa altura, que poderiam estar envolvidas no Vatileaks cerca de 20 pessoas "de diferentes órgãos" do Vaticano.


O secretário particular de Bento XVI, George Gänswein, foi igualmente ouvido pelo tribunal esta terça-feira e afirmou nunca ter suspeitado do mordomo até ver publicados em maio no livro Sua Santità, de Gianluigi Luzzi, determinados documentos que só podiam ser encontrados no seu escritório.

Além de Paolo Gabriele, um leigo casado, com aposentos no Vaticano onde foram encontrados outros documentos privados de Bento XVI, foi detido um técnico de informática, suspeito de cumplicidade no roubo.

Enquanto mordomo do Papa, Paolo Gabriele era o primeiro e o último a estar com Bento XVI todos os dias, sendo responsável por preparar as refeições do Papa e o seu vestuário. Incorre agora numa pena de seis anos de prisão.

O Papa pode perdoa-lo em qualquer altura do processo.
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