Venezuela. Rangel e Governo trocam críticas sobre política e diplomacia

A situação de crise vivida na Venezuela foi invocada pelo cabeça-de-lista do PSD para as eleições europeias na denúncia do que descreveu como “diplomacia de pantufas” praticada pelas Necessidades, a propósito dos fluxos de pessoas que têm abandonado o país sul-americano. O Governo respondeu esta sexta-feira, falando de “instrumentalização político-partidária”.

Carlos Santos Neves - RTP /
O ministro dos Negócios Estrangeiros reprova as “manifestações daqueles que querem tornar as dificuldades das pessoas em oportunidades eleitorais” Raul Martínez - EPA

Foi na quinta-feira que Paulo Rangel instou o Executivo a clarificar se, entre “3,5 milhões de refugiados” que abandonaram território venezuelano, há registo de portugueses. E acusou o Ministério dos Negócios Estrangeiros de protagonizar uma “diplomacia de pantufas”.Paulo Rangel deslocou-se recentemente à fronteira da Colômbia com a Venezuela.


“Eu ouvi o Presidente da República, quando recebeu o Presidente do Peru, dizer que havia portugueses entre os refugiados no Peru. O Governo português nunca nos falou nisso, será que eles existem, estão identificados, está a ser canalizada ajuda?”, perguntou na última noite o eurodeputado, ao intervir nas jornadas parlamentares do PSD.

“A forma como este Governo tratou a questão da Venezuela é o que chamo de diplomacia de pantufas ou uma política de veludo”, acentuaria Rangel, já depois de apelar ao Governo para que, a existirem refugiados portugueses, os fosse “buscar ao Peru, ao Brasil, à Colômbia”, dando-lhes “condições de dignidade em Portugal”.

“Não há milagres. As pessoas que integram este Governo, os seus principais ministros, alguns secretários de Estado promovidos, eram as pessoas que andavam a atravessar o Atlântico com os computadores Magalhães no tempo de Hugo Chávez”, reprovou mesmo o antigo líder parlamentar laranja.
“Não é a minha praia”

Confrontado com estas palavras, o ministro dos Negócios Estrangeiros imputou esta sexta-feira a Paulo Rangel um exercício de aproveitamento político da crise venezuelana.

“Faço uma distinção muito clara entre o que é utilizar as dificuldades para tentar obter ganhos eleitorais, que não é a minha praia, e as minhas responsabilidades enquanto chefe da diplomacia portuguesa”, reagiu Augusto Santos Silva, que falava na sequência de uma sessão comemorativa dos 90 anos do Instituto Camões.

Por sua vez, o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas falou também de aproveitamento “para fins político-partidários” e propôs-se “responder a Paulo Rangel com perguntas”.Lisboa foi uma das capitais europeias que reconheceram legitimidade ao autoproclamado presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó.


”Onde estava quando o Estado decidiu não cobrar emolumentos consulares, num apoio que vale mais de 12 milhões de euros, onde estava quando desde 2017 o Estado português começou a enviar medicamentos, totalizando mais de 500 quilos até hoje, onde estava quando foi entregando apoios sociais a idosos carenciados, num montante superior a 750 mil euros, e de apoio ao associativismo superior a 100 mil euros?”, indagou José Luís Carneiro, em declarações à agência Lusa.

A situação da comunidade de portugueses e luso-descendentes na Venezuela, reforçou o secretário de Estado, “é um tema muito sensível e relevante e não se compadece com tentativas de instrumentalização político-partidária numa época eleitoral”.

No entender de José Luís Carneiro, Paulo Rangel, “em detrimento de utilizar para fins eleitorais um tema tão sensível da sociedade portuguesa e querer utilizar para fins eleitorais um tema que exige grande compromisso e sentido de Estado, devia preocupar-se em fazer chegar ao Ministério dos Negócios Estrangeiros os casos de necessidade identificados na deslocação que teve agora, ao fim de quatro anos, à fronteira com a Venezuela, para o MNE poder prestar o apoio àqueles que diz ter encontrado na deslocação que fez”.
Números

Questionado pela Lusa sobre o número de portugueses “refugiados”, o secretário de Estado das Comunidades sublinhou que o Governo “não costuma utilizar essa linguagem”, esclarecendo em seguida que, nos últimos quatro anos, deixam a Venezuela 5450 portugueses, que procuraram ajuda nas embaixadas do país em países vizinhos.

“Relativamente aos casos identificados como de necessidade, foram devidamente encaminhados para a Direção-Geral dos Assuntos Consulares e tem vindo a ser prestada uma retaguarda de apoio”, frisou José Luís Carneiro.

Desde 2015, foram registadas 4168 inscrições consulares de portugueses saídos da Venezuela para o Panamá, 500 na Argentina, 374 no Chile, 205 na Colômbia, 61 no Uruguai e 20 no Peru.

c/ Lusa
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