Veterano repórter de investigação detido na China por críticas a autoridades locais
Um veterano jornalista de investigação chinês foi detido pelas autoridades da província de Sichuan, no sudoeste da China, após publicar um artigo crítico da atuação de dirigentes locais, informou hoje a imprensa local.
A polícia do distrito de Jinjiang, em Chengdu, capital da província, informou na segunda-feira, através das redes sociais, que duas pessoas, identificadas apenas pelos apelidos Liu (50 anos) e Wu (34 anos), foram colocadas sob "medidas coercivas criminais de acordo com a lei", por suspeitas de "falsas acusações" e "operações comerciais ilegais".
De acordo com o jornal chinês Caixin, os detidos são o jornalista Liu Hu e a assistente, Wu Lingjiao.
Liu Hu é conhecido pelo trabalho como repórter de investigação no jornal New Express, sediado em Cantão. Nos últimos anos, tem mantido uma conta nas redes sociais onde publica reportagens independentes, sobretudo sobre conflitos entre empresas privadas e autoridades locais.
Na quinta-feira passada, Liu publicou um artigo, que foi entretanto apagado, no qual citava uma fonte que acusava Pu Fayou, secretário do Partido Comunista na vila de Pujiang (sob jurisdição de Chengdu), de abuso de poder e repressão a empresários locais.
O artigo também referia a alegada ligação de Pu à demolição forçada de duas propriedades do professor universitário Tuo Jiguang, que se suicidou em 2021 após um prolongado litígio com as autoridades.
Citado pelo jornal de Hong Kong South China Morning Post, um funcionário do comité do Partido em Pujiang confirmou que foi criada uma equipa de investigação conjunta entre Chengdu e Pujiang, afirmando que as autoridades "estão a dar grande prioridade" às alegações feitas por Liu. No entanto, recusou fornecer mais detalhes.
Não é a primeira vez que Liu Hu enfrenta problemas legais devido à sua atividade jornalística.
Entre 2012 e 2013, denunciou nas redes sociais casos de corrupção envolvendo altos responsáveis, incluindo o ex-vice-presidente da câmara de Chongqing e o presidente do Supremo Tribunal Popular de Xangai. Foi detido em 2013 por suspeita de difamação, mas acabou por não ser formalmente acusado.
O caso foi, na altura, elogiado pelo jornal oficial Procuratorial Daily como exemplo da independência do Ministério Público, tendo sido incluído na lista dos 10 principais casos de direito da imprensa de 2015 pela Universidade de Comunicação da China e pela Associação de Advogados de Pequim.
A nova detenção de Liu tem gerado manifestações de apoio por parte de juristas e académicos chineses.
O advogado criminalista Zhang Xinnian afirmou que "uma sociedade regida por boas leis precisa de pessoas íntegras como Liu".
Já Qu Weiguo, antigo diretor da Faculdade de Línguas Estrangeiras da Universidade Fudan, alertou que "as autoridades devem exercer a máxima contenção ao impor medidas coercivas contra jornalistas que investigam casos de corrupção".
A China impõe um controlo rigoroso sobre a imprensa, exigindo acreditação oficial para a cobertura de assuntos políticos e sociais. Jornalistas independentes operam frequentemente numa zona legal indefinida, sujeitos a censura ou processos criminais.
Nos últimos anos, Pequim tem reiterado o compromisso com a proteção dos direitos das empresas privadas, tendo aprovado legislação destinada a travar abusos por parte de governos locais, como demolições forçadas ou quebra de contratos.