Visita de Merz a Pequim é decisiva para estratégia europeia face à China
A visita do chanceler alemão, Friedrich Merz, a Pequim é "decisiva" para a estratégia europeia face à China, entre aceitar a narrativa chinesa de "estabilidade" ou avançar para uma resposta mais assertiva aos desequilíbrios comerciais, segundo o ECFR.
O diretor do programa para a Ásia do think tank European Council on Foreign Relations (ECFR), Andrew Small, sustentou num relatório de análise que um dos principais objetivos políticos de Pequim é preservar o status quo nas relações com os países europeus que, perante os crescentes excedentes comerciais chinesas e práticas não orientadas pelo mercado, poderão endurecer medidas de protecionismo comercial.
Para o analista, o ónus recai sobre Merz para deixar claro que a sobrecapacidade produtiva chinesa, a disposição de Pequim para instrumentalizar dependências económicas e o apoio ao Presidente russo, Vladimir Putin, são fontes de instabilidade para a economia alemã e para a segurança europeia.
A deslocação do chanceler é, assim, "menos um périplo bilateral" e mais um "momento definidor" para a Europa, no qual o sinal político enviado por Berlim poderá influenciar se o bloco opta por uma linha mais firme ou por manter o modelo atual de relação económica.
"Não alterar a trajetória atual da relação com a China tem um custo diário, traduzido em empregos perdidos, crescimento mais lento e esvaziamento de setores industriais competitivos", escreveu Andrew Small.
A implicação é direta para a Alemanha, cuja base exportadora enfrenta concorrência chinesa crescente, desde os veículos elétricos ao fabrico de maquinaria. A maior economia europeia vive sob pressão de desindustrialização e perda de empregos industriais, à medida que fabricantes chineses melhoram a qualidade dos seus produtos e mantêm preços competitivos.
Durante a visita, Merz pediu ao Presidente chinês, Xi Jinping, um "reajustamento" das relações comerciais, apontando o agravamento do défice alemão, as restrições impostas a empresas alemãs e a necessidade de reduzir riscos em cadeias de abastecimento críticas -- em particular a dependência europeia de terras raras chinesas para setores como o automóvel e a Defesa.
"A concorrência entre empresas deve ser justa", afirmou o chanceler alemão, defendendo "transparência", "fiabilidade" e "cumprimento de regras comuns". Merz apelou também para a redução de "subsídios que distorcem o mercado" e da "sobrecapacidade" industrial, sugerindo que uma maior procura interna na China, apoiada por uma apreciação moderada da moeda chinesa, poderia aliviar as pressões protecionistas na Europa.
Xi destacou a importância de preservar a estabilidade da ordem internacional e de reforçar a autonomia estratégica europeia, num momento de tensões entre Pequim e Washington. O líder chinês apresentou a China e a Alemanha como "defensores do multilateralismo" e "do livre comércio", acrescentando que Pequim "apoia a autossuficiência e a força" da Europa e espera que o continente "trabalhe com a China na mesma direção".
Apesar do endurecimento retórico, Andrew Small considerou que Merz "não dispõe de um plano para enfrentar a desindustrialização da Europa provocada pelos desequilíbrios chineses e por práticas que distorcem o mercado".
O analista defendeu que Berlim deve impulsionar uma estratégia europeia integrada para assegurar condições de concorrência equitativas. Embora a União Europeia tenha avançado com instrumentos como legislação industrial, uma doutrina de segurança económica e investigações sobre subsídios estrangeiros, essas iniciativas permanecem dispersas.
Segundo o ECFR, estas medidas devem ser consolidadas numa estratégia coerente e abrangente, capaz de operar "à velocidade e escala" exigidas pelos desafios colocados pela economia chinesa.
Andrew Small recomendou ainda uma coordenação informal com outras grandes economias confrontadas com desafios semelhantes.
"Diversificar parceiros comerciais pode ser útil, mas é insuficiente se empresas europeias enfrentarem concorrência chinesa subsidiada ou apoiada pelo Estado em terceiros mercados", observou.
A terceira dimensão é política: sinalizar uma linha vermelha a Pequim, deixando claro que a Europa defenderá o seu futuro industrial e recorrerá a instrumentos contra a coerção caso a China tente bloquear essa estratégia.
Para o ECFR, os líderes europeus têm reiterado preocupações em visitas anteriores a Pequim sem lhes dar seguimento. A visita de Merz representa, assim, uma oportunidade para alinhar discurso e ação e redefinir a credibilidade europeia na gestão da relação com a China.