Voo de Israel em espaço aéreo saudita assinala impacto regional do acordo com os EAU

por Graça Andrade Ramos - RTP
O cumprimento em tempos de pandemia entre diplomatas, no regresso a Jerusalém do primeiro voo comercial direto israelita, com Abu Dabi, capital dos Emirados Árabes Unidos. Reuters

Apesar de Riade não ter relações diplomáticas com Jerusalém, um avião da El-Al, a companhia aérea comercial israelita, foi autorizado, segunda-feira e terça-feira, a usar o espaço aéreo da Arábia Saudita, para ir até à capital dos Emirados Árabes Unidos e regressar no dia seguinte pelo mesmo caminho.

Será o primeiro de muitos, ou assim se espera. Esta quarta-feira, chegou o anúncio oficial. A partir de agora, os aviões "que se dirijam aos Emirados Árabes Unidos e vindos de todos os países" estão autorizados a sobrevoar o espaço aéreo saudita.

A decisão vai "permitir a passagem do espaço aéreo do reino, de voos com destino e provenientes dos Emirados e para todos os países", sublinhou a Autoridade Geral da Avião Civil, citada pela agência oficial saudita, SPA.O anúncio surge depois de um pedido formal por parte dos EAU, assim como por via dos esforços diplomáticos do genro do Presidente Donald Trump, Jared Kushner, que se reuniu terça-feira com o princípe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman.

Apesar de não ser mencionado de forma específica, Israel é o verdadeiro beneficiado com esta norma, uma vez que, até agora, os seus aviões eram forçados a contornar as fronteiras aéreas sauditas e a fazer um enorme desvio na península arábica.

A partir de agora, os israelitas e quem esteja em território de Israel, podem, por exemplo, viajar para os EAU e dali para diversos destinos na Ásia, como a Tailândia, de forma mais célere e barata, já que o tempo de viagem é cortado de sete para três horas.

Isso mesmo frisou Benjamin Netanyahu, num curto vídeo publicado esta quarta-feira.

"Os aviões israelitas e os de todos os países poderão voar diretamente de Israel para Abu Dabi e para o Dubai e regressar", declarou o primeiro-ministro israelita.


A decisão saudita marca o primeiro impacto regional do acordo assinado entre Israel e os EAU, sob auspícios da Administração norte-americana, em agosto passado.
Novos ventos no Médio Oriente
Mediante esse acordo, Israel conseguiu normalizar relações com o terceiro vizinho do mundo árabe, apesar da oposição palestiniana que o classificou como "traição".

O voo direto de segunda-feira para Abu Dabi, levando a bordo uma delegação americano-israelita para uma visita de dois dias e o voo de regresso, terça-feira, da mesma forma, marcam esta distensão. Este foi um charter especial, e, para já, não há notícia de novos voos comerciais confirmados ou previstos.

Este voo israelita sobre território saudita é sinal de que novos ventos sopram na região, a favor de Israel, uma vez que toda e qualquer normalização das relações entre Riade e Jerusalém estava até agora pendente da resolução do conflito israelo-palestiniano, incluindo a criação de um estado palestiniano de acordo com as linhas estabelecidas antes de 1967 e então rejeitadas pelo mundo árabe.

Isso apesar das autoridades dos Emirados tentarem de todas as formas apaziguar os receios da Autoridade Palestiniana e do Hamas, quanto a uma mudança oficial de políticas face a Israel.


"As posições firmes e perenes do reino quanto à causa palestiniana não vão mudar com a autorização de sobrevoar o seu espaço aéreo", tweetou quarta-feira o ministro saudita dos Negócios Estrangeiros, o príncipe Faisal bin Farhan al Saud.

Apesar desta declaração, a verdade é que o reino tem cultivado relações clandestinas com Israel nos anos mais recentes, sob influência do príncipe herdeiro Mohammed Bin Salman, muito próximo do Sheik Mohammed bin Zayed, homem forte dos Emirados.

Em comum, os três países têm a inimizade com o Irão. À Arábia Saudita interessa-lhe igualmente atrair investimentos estrangeiros para conseguir diversificar a sua economia dependente do petróleo.
Um "enorme avanço"
"O anúncio de hoje assinala um 'aquecimento' das relações entre a Arábia Saudita e Israel", comentou à AFP Marc Schneier, um rabi norte-americano próximo dos países do Golfo. "Apesar deles se manterem profundamente comprometidos com o povo palestiniano, este primeiro passo é importante e deve ser celebrado".

Netanyahu, a braços com forte contestação interna, celebrou o anúncio saudita e o seu contributo para a pacificação do Médio Oriente.

"Estes são os benefícios de uma paz que é genuína", escreveu, ao publicar uma ligação à notícia sobre a decisão de sobrevoo. "É um enorme avanço. Há anos que trabalho para abrir os céus entre Israel e o leste", acrescentou.
A primeira conquista surgiu em 2018, quando a Air India foi autorizada a voar diretamente para Tel Aviv, sobre a Arábia Saudita. Agora isso estende-se aos Emirados.
"Os voos vão ser mais curtos e baratos, e isso vai levar a um turismo mais robusto e desenvolver a nossa economia", referiu o primeiro-ministro, sublinhando que estas são"ótimas notícias para vocês, cidadãos de Israel".

"Quero agradecer a Jared Kushner e ao Sheik Mohammed bin Zayed pela importante contribuição de hoje. Haverá muitas mais boas notícias nos próximos dias", referiu ainda o líder israelita.


Tanto Kushner como Netanyahu têm admitido a possibilidade de futuros acordos de paz entre Israel e outros membros da Liga Árabe. A Arábia Saudita é o nome que mais vezes é mencionado.
Pit stop de Kushner em Riade
O reino saudita, além de líder do mundo árabe, é responsável por vários dos lugares mais santos do Islão, e os seus rivais regionais, Turquia e Irão, denunciaram claramente o acordo entre os Emirados e Israel, pelo que os ventos de mudança ainda irão levar tempo a mudar o rumo estabelecido pela monarquia saudita.

No regresso de Abu Dabi, terça-feira, Jared Kushner fez escala em Riade, para se reunir expressamente com Mohammed bin Salman e debater a estabilidade regional e áreas de cooperação, para conseguir essa alteração.

Na reunião esteve também presente o príncipe Faisal bin Farhan bin Saud, responsável pela diplomacia do reino.

Em cima da mesa, o acordo entre Israel e os EAU de normalização de relações, num "horizonte do processo de paz". A "necessidade de retomar as negociações entre os palestinianos e os israelitas para alcançar uma paz justa e duradoura", também esteve na agenda, de acordo com a SPA.

Dali, Kushner viajou para o Qatar, para se reunir com o Sheikh Tamim bin Hamad Al Thani, para debater o processo de paz para o Médio Oriente.

No mesmo dia do voo da El Al até Abu Dabi, segunda-feira, o movimento palestinano Hamas, que jurou destruir Israel, anunciou ter chegado a acordo com Jerusalém para por fim ao conflito armado entre ambos, que se intensificou durante este mês.

"Após diálogos e vários contactos, o último dos quais com o enviado do Qatar, Mohammed el-Emadi, foi alcançado um acordo para conter os ataques e por fim à agressão sionista contra o nosso povo", afirmou o gabinete do líder político do Hamas em Gaza, num comunicado citado pela agência AFP

O exército israelita estava a bombardear a Faixa de Gaza todas as noites, desde 06 de agosto, em retaliação a ataques palestinianos, sobretudo através do lançamento de balões incendiários e de projeteis.

Segundo dados das autoridades israelitas, os balões incendiários do Hamas originaram mais de 400 focos de incêndios em Israel.

c/agências
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