Xi Jinping em Portugal. Uma "oportunidade" para Lisboa e Pequim

por Andreia Martins - RTP
O Presidente chinês vai estar em Lisboa até esta quarta-feira Jason Lee - Reuters

O Presidente chinês inicia esta terça-feira uma visita de dois dias a Portugal, onde será recebido pelas mais altas figuras do Estado português. A deslocação acontece a poucos meses da celebração dos 40 anos desde o estabelecimento de relações diplomáticas entre os dois países e as expetativas para a cooperação são muitas, com Pequim a contar com Lisboa para ampliar a “nova rota da seda”. Y Ping Chow, presidente da Liga dos Chineses em Portugal, vê grande potencial nesta visita para todas as partes envolvidas.

“Aqui, onde a terra se acaba e o mar começa”. O verso de Camões é destacado por Xi Jinping num artigo de opinião publicado no domingo pelo Diário de Notícias e pelo Jornal de Notícias, na antecipação da visita a Lisboa, que decorre até quarta-feira. 

Na peça de antecipação, são amplos os elogios feitos a Portugal por um dos líderes mais poderosos do mundo. Do outro “extremo da Eurásia”, como destaca o líder chinês, há um olhar atento para o bloco europeu, para o mundo e também para território português, com quem pretende uma “cooperação pragmática” mais profunda e uma amizade “que transcende e o espaço”.  

O Presidente chinês chega a Portugal depois de uma semana em périplo que passou por Madrid e Buenos Aires – onde participou na cimeira do G20 –, e termina a viagem em Lisboa. 
Xi Jinping vai reunir-se com o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, com o primeiro-ministro António Costa e com o presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues. 

A visita acontece em vésperas de um ano cheio de efemérides para a relação sino-portuguesa, mas também para a China. Xi chega a Lisboa antes do início do Ano Chinês em Portugal, que será também o ano de Portugal na China, com várias iniciativas culturais previstas para 2019.

Mas 2019 é também o ano em que se assinalam quatro décadas desde o estabelecimento oficial de relações diplomáticas entre os dois países, mais concretamente a 8 de fevereiro de 1979, cinco anos depois do 25 de Abril e quatro anos depois de o Portugal pós-ditadura, já durante o regime democrático, ter reconhecido o governo da República Popular como “o único representante político do povo chinês”. 

Assinalam-se também os 20 anos desde a transferência da soberania de Macau, oficializada em 1999. Será também o ano em que se assinalam os primeiros 70 anos desde a proclamação da República Popular da China, em 1949. A panóplia de celebrações acontece num momento em que Pequim se assume como ator cada vez mais preponderante na ordem mundial.

“[Xi Jinping] está a dignificar a China, a colocar a China no centro da política mundial”, refere Y Ping Chow, presidente da Liga dos Chineses em Portugal há mais de dez anos.  

Em entrevista à RTP, o responsável vê com agrado a “subida de patamar de importância” de Pequim no mundo. Mas as mudanças não aconteceram só ao nível externo ou estratégico.

“A China tem crescido e tem feito um grande trabalho contra a corrupção. E o povo chinês está a viver melhor”, considera este responsável nascido na China, mas que está há várias décadas em Portugal.  
Pequim no centro do mundo

Desde o estabelecimento de relações diplomáticas entre os dois países, apenas por duas vezes o Presidente chinês visitou Portugal. A primeira aconteceu em outubro de 1999, com Jiang Zemin, em plena transferência de Macau para Pequim, a segunda em 2010, com Hu Jintao a chegar num momento em que a crise económica já era uma realidade em Portugal e que viria a marcar os anos seguintes da relação sino-portuguesas.  

A China é atualmente a segunda maior economia mundial, atrás dos Estados Unidos. O PIB chinês corresponde a cerca de 16% da produção mundial.  
Agora é a vez de Xi Jinping, que assumiu funções em 2013. Y Ping Chow, da comunidade chinesa em Portugal, conhece este Presidente chinês. “Quando o atual Presidente foi secretário, o número 1 da província de Zhejiang, eu era um membro do conselho consultivo da província”.  

“É uma pessoa muito sincera. Tem um pensamento rápido e acertado”, considera o responsável.   

No poder há cinco anos, Xi Jinping tem conseguido afirmar-se como um dos líderes mais proeminentes da China nas últimas décadas, comparado por muitos à importância ideológica que o próprio Mao Tsé-Tung teve para o país na sua fundação. Ainda este ano, o Presidente promoveu uma alteração significativa à Constituição, que veio terminar com a limitação de mandatos do chefe de Estado.  

Logo no ano de inauguração do mandato, Xi Jinping mostrou as grandes ambições de poder que agora se começam a revelar de forma mais evidente. Introduziu o Plano Belt and Road Initiative (Cintura e Rota), ou a “Nova Rota da Seda”, que pretende reforçar corredores entre a Ásia, a Europa e o resto do mundo, com a China no seu centro estratégico.  A delegação de Xi na visita a Portugal conta com altas figuras do poder na China: Wang Yi, ministro dos Negócios Estrangeiros e Conselheiro do Estado, Yang Jiechi, membro do Gabinete Político do Comité Central do Partido Comunista, e He Lifeng, chefe do principal órgão de planeamento económico da China. 

Na prática, este plano prevê um investimento em quase 70 países no sentido de fortalecer vias de comunicação e outras infraestruturas, físicas e digitais. Portugal não escapa a este novo desenho da globalização e na visita desta semana, entre Xi Jinping e António Costa deverá ser assinado um memorando de cooperação entre as duas nações. 

Portugal não pertence de pleno direito a esta rota, mas promete cooperar com a mesma nos mesmos moldes do que foi prometido por Itália e por Espanha. No caso português, o interesse será sobretudo o da exploração das potencialidades marítimas, com o aproveitamento do porto de Sines, mas também as ligações históricas e proximidade do país com a América Latina e África, e pela própria inserção comunitária de Portugal na Europa.  

“Este é um dia especial. Esta visita é muito importante para a comunidade chinesa, mas também para Portugal. Tenho a certeza que a visita vai trazer grandes vantagens para ambos. É uma grande oportunidade para ambas as partes”, considera Y Ping Chow.

No artigo de opinião de Xi Jinping de antecipação a esta visita, o Presidente chinês não hesita no otimismo. “Tenho a convicção de que o navio das relações sino-portuguesas vai navegar para um futuro ainda mais brilhante”, afirma.
“Má interpretação”
Durante a visita, vão ser assinados vários acordos em diversos domínios, desde a energia, infraestruturas, ciência, tecnologia e comércio. “Acho que é muito importante esta cooperação, assinada por entidades oficiais. A parte chinesa está disposta a colaborar, agora também tem de haver a parte portuguesa, que acompanha ou não o desenvolvimento”, refere Y Ping Chow.

Nos últimos anos, Portugal – tal como outros países no sul da Europa - conheceu uma expansão brutal de investimento chinês, sobretudo nos anos mais difíceis da crise económica. Entre 2010 e 2015, Pequim investiu em empresas de enorme relevância para Portugal, com destaque para a compra de 21,35 por cento de capital da EDP pela gigante China Three Gorges. REN, BCP, TAP ou Global Media foram outras empresas nevrálgicas para Portugal onde entrou capital chinês durante o período da “troika”.

A Comissão Europeia está atenta a estas movimentações. Em novembro, o Parlamento Europeu, o Conselho e a Comissão Europeia chegaram a um acordo político para a análise do investimento direto estrangeiro na União Europeia.  

O novo mecanismo regulatório permite à Comissão Europeia emitir pareceres consultivos sempre que considerar que um investimento pode afetar a segurança ou a ordem pública em determinado Estado-membro. A nova regulação não faz menção de alvos específicos e prevê o princípio da não-discriminação, mas promete um maior escrutínio de Bruxelas sempre que haja aquisições estrangeiras que tenham como alvo “ativos estratégicos da Europa”, como defendeu o Presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker.  

No artigo publicado no DN, Xi Jinping não deixa esquecer a ajuda que foi dada a Portugal em anos de maiores dificuldades económicas. “Após a ocorrência da crise da dívida soberana europeia, depois da crise financeira internacional em 2008, o governo da China e o governo de Portugal envidaram esforços conjuntos para resistir aos riscos e fazer face aos desafios derivados. Uma após a outra, as empresas chinesas vieram investir em Portugal. Ao expandir os seus negócios fora da China, contribuíram também para a criação de postos de trabalho e para o desenvolvimento socioeconómico de Portugal”

Y Ping Chow destaca que a presença da comunidade chinesa em Portugal é extremamente positiva. “Embora os chineses sejam muito bem tratados em Portugal, existe uma ideia que os chineses vêm cá comprar o que é dos portugueses. Os portugueses estão cá a fazer negócios, e os negócios beneficiam ambas as partes, a China, mas também as empresas portuguesas. Não é discriminação, é uma certa incompreensão, má interpretação, por parte de algumas forças políticas”.  
“Os chineses sentem-se bem em Portugal”

Na China, existem cerca de 80 milhões de praticantes de ténis de mesa - quase oito vezes o número total da população portuguesa. O cientista político Lucian W. Pye dizia que a China é uma civilização que finge ser uma nação.  

Com uma população de 1.386 milhões – quase um quinto da população mundial – a demografia estende-se por todo o globo e Portugal não é exceção. Mais de 20 mil chineses vivem atualmente em Portugal.  

Y Ping Chow nasceu em Zheijang, na zona de Xangai, mas vive no Porto desde os sete anos de idade. Veio em 1962, juntando-se aos pais e avós que já viviam em Portugal. Depois de várias décadas por cá, há um sotaque estrangeiro que se combina com características do sotaque nortenho.  

O avô, um antigo emigrante japonês, viajou pela primeira vez para Portugal durante os anos 30, com a escalada da guerra sino-japonesa. O casal tornou-se um dos primeiros elementos da comunidade chinesa a escolher o país para viver.  

Venderam mercadorias de cidade em cidade na Europa mas instalaram-se no Porto, onde criaram uma fábrica de gravatas e de outros produtos próprios. Para avós, pais, filhos e netos, a vida passou sempre por Portugal desde então.  

“Os chineses sentem-se bem em Portugal. Um país que é seguro, não tem discriminação racial, tem um custo de vida razoavelmente barato, um clima que não se encontra em todos os países. É tudo mais pequenino, é tudo mais fácil de desenvolver. A comunidade gosta de Portugal e gosta dos portugueses”, sublinha.

Quando uma nova família chega a Portugal, a integração é facilitada pelos que já cá estão. “É muito fácil integrar-se na comunidade. Basta ter uns amigos”, aponta Y Ping Chow.  

Para o presidente da Liga dos Chineses em Portugal, o país tem beneficiado com a presença da comunidade e dá o exemplo dos vistos gold. Uma oportunidade que, para Y Ping Chow, está a ser “mal aproveitada” em Portugal.  

“Estive na China e tenho falado com muitas pessoas que têm capacidade e desejo de poder adquirir um golden visa. Mas a maior preocupação deles é com o ensino dos filhos. Grande parte sai por causa da educação dos filhos. Essa é uma parte que se pode desenvolver melhor”, aponta.  

Outro aspeto relevante apontado pelo presidente chinês diz respeito à saúde. Já depois da visita de Xi Jinping, é assinado a 6 de dezembro um protocolo entre entidades portuguesas e chinesas para a criação de uma nova unidade de tratamento de saúde com medicina tradicional chinesa. Y Ping Chow prevê que este centro possa abrir já no próximo ano em Lisboa.

“Isto é um primeiro passo para dar um apoio às comunidades chinesas nesse aspeto. A abertura deste centro vai ajudar muito”, acrescenta o responsável. 
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