Quando olhamos para o futuro europeu deparamos para uma enorme dificuldade de resposta à exigência dos desafios. Não é apenas uma questão de ritmo, é mesmo um défice pronunciado de convicção.
Marcelo Rebelo de Sousa discursou há poucos dias em Florença e mostrou-se preocupado com a falta de ambição europeia. Com o Brexit no horizonte, o orçamento da UE é curto de ambição, injusto na coesão e nas assimetrias da moeda única.
A solidez do projecto europeu está em risco. E os recursos financeiros comuns são apenas uma prova palpável. O pressuposto democrático, com os respectivos freios e contrapesos, revela um desgaste inusitado em muitas paragens. É já a separação de poderes e até o estado de direito que se põem em causa.
Com eleições para o Parlamento Europeu no horizonte podem vir aí maiores representações populistas. Como diz Bernardo Pires de Lima no livro que regista as suas viagens pelo nosso interior («O Lado B da Europa», Tinta da China), «a história dos últimos 60 anos não pode ser reduzida a lirismos romantizados sobre o ‘projecto europeu’, o ‘sonho dos pais fundadores’ ou a ‘solidariedade europeia’. Foi muito mais crua, suja e política do que isso».
Foi. Nem por isso podemos desistir de dar esperança ao muito que construímos em comum.
opinião
António José Teixeira
Viagem pelos umbiguismos europeus
Bernardo Pires de Lima visitou as 28 capitais da União Europeia. Durante 11 meses calcorreou muitos milhares de quilómetros de avião, de comboio, de autocarro e a pé. Nestes tempos de incerteza, quis saber in loco o que sentem e o que pensam os povos europeus. Cada cidade é um caso, mas há muitos casos comuns. O investigador de assuntos internacionais anotou um defeito geral: «o umbiguismo inebriante, perigoso etnocentrismo militante que nos tira perspectiva, relevância e influência». Não podia ser mais assertivo.