Felisbela Lopes | Opinião | Notícias | RTP Notícias

Perda de audição: um problema que quase não se ouve

Quando agendam a saúde, os média noticiosos tendem a privilegiar as políticas desse campo, subalternizando temas relacionados com as doenças. Com exceção das patologias oncológicas, as doenças sobressaem no espaço mediático sobretudo em contextos de surtos ou de crises sanitárias expressivas. Ainda assim, há exceções que, quando surgem, tendem a evidenciar falhas estruturais que merecem toda a atenção. O caso da perda da audição é um exemplo significativo.

O destaque que o “Jornal de Notícias” dedicou este fim-de-semana à comercialização de aparelhos auditivos dirigidos a pessoas com perda auditiva alerta para práticas eticamente questionáveis que prosperam nos interstícios de um enquadramento legal ambíguo, marcado por zonas cinzentas que permitem abusos difíceis de escrutinar. Numa peça com o título “a epidemia silenciosa que atinge Portugal”, assinalava-se que a perda de audição afetará mais de meio milhão de portugueses, sublinhando a dimensão de um problema de saúde pública pouco debatido. E que hoje começa a atingir faixas etárias cada vez mais jovens. Por exemplo, devido à exposição prolongada a volumes elevados através de auscultadores que os mais novos levam para todo o lado.

O tema da saúde suscita sempre grande interesse, assumindo os média noticiosos um papel central não apenas na disseminação de informação, mas também na construção de enquadramentos que moldam perceções e condicionam a compreensão de conteúdos complexos. Isso significa que os conteúdos jornalísticos constituem uma peça fulcral na promoção da saúde das populações. Daí a necessidade de práticas de produção particularmente rigorosas e específicas, nomeadamente no que respeita à literacia em saúde e à capacidade de comunicar informação de forma clara, acessível e contextualizada.

A audição não é um tema prioritário na agenda jornalística. Na obra Hipercultura, Stephen Bertman lembra que “dos órgãos sensoriais do corpo, só os ouvidos estão implantados de lado, a fim de permitirem apanhar os sons em estereofonia”. No JN, o presidente da especialidade de otorrinolaringologia da Ordem dos Médicos lembra que, “quando começam a ouvir mal, as pessoas começam a isolar-se. É um dos riscos mais significativos para as demências”. Ao tornarem visível esta doença, os média assinalam que o silêncio não pode ser confundido com uma ausência do problema. Neste caso, o debate é ainda mais urgente quando se percebe que os processos que mitigam a doença, nomeadamente os aparelhos auditivos, podem envolver práticas comerciais agressivas e compras pouco transparentes que atingem sobretudo populações muito vulneráveis.

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