Todos reconheceram que existe um modo específico de reportar essa realidade, sobretudo quando em campo estão seleções nacionais e quando uma bola de futebol começa a rolar. Duas décadas depois, os jornalistas enfrentam novos desafios, entre os quais se destaca a concorrência de conteúdos publicados nas redes sociais por qualquer cidadão. Neste novo ecossistema de comunicação, que espaço continuará a ter esse jornalismo?
A resposta é evidente: mais do que nunca, o jornalismo desportivo continua a ser indispensável. Num contexto em que qualquer pessoa pode produzir e partilhar informação, os jornalistas mantêm uma função insubstituível: dar sentido ao volume crescente de conteúdos que circulam, verificar factos, contextualizar e proporcionar análises que ultrapassem a instantaneidade e a carga emocional das redes sociais. Este Mundial é revolucionário a nível tecnológico e isso abre ainda outros desafios aos jornalistas, motivando-os a adaptar-se a um ambiente onde a credibilidade e a capacidade de interpretação se tornam ainda mais valiosos.
Claro que o jornalismo desportivo continua a reunir traços distintivos muito próprios: é mais emocional no tom, mais adjetivo no registo, mais vibrante no discurso. Isso acontece porque reporta um fenómeno que desperta paixões, reflete identidades e espelha pertenças. Todavia, essa proximidade à emoção (que lhe permite afirmar golos “espetaculares” ou entradas e saídas de campo “imprevisíveis”) nunca dispensa o respeito por princípios basilares da profissão. Pelo contrário: exige um compromisso maior com o rigor, uma procura incessante da verdade dos factos e uma preocupação permanente com a pluralidade de ângulos.
Neste Mundial de Futebol, estamos perante um evento global cuja presença se intensifica todos os dias nas redes sociais nas quais se ampliam rumores, opiniões e reações instantâneas. Neste ambiente comunicacional em constante transformação, os jornalistas desportivos são essenciais para combater desordens informativas, reduzir ruídos e travar especulações, proporcionando, com o seu trabalho, um contexto e uma interpretação dos acontecimentos que permitam compreender um jogo muito para além do resultado.
opinião
Felisbela Lopes
O jornalismo desportivo continua a contar
Há 20 anos desafiei vários jornalistas a refletirem sobre a especificidade do jornalismo desportivo na televisão a propósito do Mundial 2006. Os textos estão reunidos no livro "A TV do futebol".