A rádio despertou para a revolução quando o dia 25 de Abril ainda estava longe de amanhecer; a televisão acompanhou os militares noite adentro; e os jornais procuraram atualizar os acontecimentos, colocando na rua edições sucessivas. Em velocidades distintas, os média portugueses foram acompanhando o que se passava ao mesmo tempo que estruturavam aquilo que se percebia ser o fim do regime e o despontar de uma democracia que teria ainda caminho a percorrer. Pode afirmar-se que no 25 de Abril informar foi relatar, mas também participar no curso dos acontecimentos.
Foi através da rádio que o golpe de Abril ganhou coordenação. A primeira senha foi transmitida às 22h55 nos Emissores Associados de Lisboa, com a música “E Depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho. Minutos depois, na Rádio Renascença, ouvia-se “Grândola, Vila Morena”, de Zeca Afonso, o som que se constituía como a confirmação para o avanço das tropas. No Rádio Clube Português, Joaquim Furtado ia lendo os comunicados do Movimento das Forças Armadas (MFA) como este: “Aqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas. As Forças Armadas Portuguesas apelam para todos os habitantes da cidade de Lisboa no sentido de se recolherem a suas casas nas quais se devem conservar com a máxima calma”. Ali estavam nas ondas sonoras os motores da Revolução de Abril.
Na imprensa, os vários títulos procuraram adaptar-se ao rumo dos acontecimentos através de sucessivas edições ao longo do dia. Foi o caso do jornal “República”, o mais influente diário não clandestino da oposição, dirigido por Raúl Rego. Com importantes fontes de informação no interior do MFA, avança nas suas primeiras edições com a notícia da Revolução, mas só na terceira edição a manchete surge a vermelho: “As Forças Armadas tomaram o poder”. Em rodapé, a frase: “este jornal não foi visado por qualquer comissão de censura”. A “Capital” é mais ousada do ponto de vista gráfico, com a manchete a ocupar toda a página: “Golpe militar: Movimento das Forças Armadas desencadeia ação de madrugada”. De registo mais noticioso, o “Diário de Notícias” escreve que, nas primeiras horas da madrugada, “eclodiu um movimento militar” e o “Diário de Lisboa”, sob a manchete “O MFA prosseguirá na sua ação libertadora”, publica um texto onde se escreve que “a população de Lisboa saiu à rua no meio de indescritível entusiasmo”. Mais cautelosos, os jornais próximos do regime demoraram a reconhecer a Revolução. O “Diário Popular” publica em primeira página uma fotografia onde praticamente só se veem carros militares, escolhendo esta legenda: “a meio da manhã, na rua do Arsenal, frente a frente forças leais ao Governo e forças revolucionárias”. “O Século” também manteve o tom cauteloso nas primeiras horas do dia.
Nas primeiras horas da revolução, a televisão não teve um papel tão relevante, agarrando o fio dos acontecimentos com mais intensidade a partir das 18h41, numa emissão a partir do Lumiar. Fernando Balsinha confirma que o MFA passa a controlar totalmente a rede emissora da RTP. Por seu lado, Fialho Gouveia conduz uma emissão especial do Telejornal centrada no MFA, destacando-se a vontade de libertar a nação de um regime ditatorial, ao mesmo tempo que se apela à serenidade da população numa tentativa de conter a incerteza e evitar confrontos nas ruas. Já depois da meia-noite, a Junta de Salvação Nacional instala-se no Lumiar e, pela voz do general António Spínola, apresenta o seu programa aos portugueses. Eis a imagem de um país que começava ali a adaptar-se a um novo tempo político.