A máquina editorial que empurra Bardella

A máquina editorial que empurra Bardella

Há alguns anos, Emílio Rangel, então diretor-geral da SIC, assegurava que uma televisão com grande audiência pode tudo, até eleger um Presidente da República. A ideia, provocadora, ganha hoje atualidade à luz da estratégia de Vincent Bolloré, o dono de um vasto e diversificado império, que combina interesses industriais com uma presença crescente nos média e na edição. Um dos seus objetivos é conduzir até ao Eliseu Jordan Bardella, o líder da União Nacional. Pelo caminho, vai somando polémicas, colocando em debate os limites da influência mediática, o pluralismo e as fronteiras da intervenção política.

O assunto tem tido uma noticiabilidade intensa em França. A demissão de Olivier Nora, histórico editor da Grasset, desencadeou uma onda de choque no meio literário. Em resposta, mais de uma centena de escritores publicaram uma carta aberta no jornal “Le Monde” e abandonaram com estrondo a editora. Hoje esse número já ultrapassa os 250. Bolloré não tardou a responder: à saída de uns, seguir-se-á a entrada de outros. A revista “Nouvel Obs” titulava em capa há uma semana “sequestro na cultura”. A editora Fayard também não ficou imune a esta mudança editorial rumo a uma linha ideológica mais conservadora, presente também nos média do mesmo grupo.

Ainda há pouco tempo, várias publicações davam conta de uma controvérsia à volta de Pascal Praud, um antigo jornalista de desporto que hoje está omnipresente em vários canais de Bolloré, polarizando o debate em torno de temas sensíveis como a imigração e a insegurança. Ao percorrer os diferentes meios de comunicação social deste grupo, torna-se evidente um padrão editorial: mais do que informar, estes projetos promovem uma engenharia de opinião que procura normalizar o discurso da direita radical. Não por acaso, a figura de Bardella surge cada vez mais legitimada neste ecossistema mediático, beneficiando de uma visibilidade que lhe é muito favorável num momento politicamente decisivo, em que o líder da União Nacional se posiciona como o candidato favorito às Presidenciais de 2027.

Num pequeno livro intitulado “Os Novos Cães de Guarda”, Serge Halimi sugere que, para compreender o funcionamento dos média, não é preciso analisar exaustivamente os respetivos conteúdos. Em certos casos, basta conhecer os seus donos. Isso ajuda a entender que, por vezes,

os jornalistas servem quem deveriam vigiar, escolhendo não só quem fala, mas também que ideias devem ser apresentadas e difundidas como se fossem verdade.

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