A televisão e a normalização das artes marciais

A televisão e a normalização das artes marciais

Há 20 anos, atiraríamos para o domínio do absurdo qualquer possibilidade de erguer um ringue na Casa Branca para artes marciais mistas. Ora, no dia 14 de junho, os lutadores do UFC Freedom250 entrarão pela Sala Oval rumo aos jardins do edifício para protagonizarem um evento que marcará o início das celebrações da independência dos EUA e assinalará os 80 anos de Donald Trump. É importante perceber o papel da televisão no crescimento destes combates.

Dana White, diretor do UFC (Ultimate Fighting Championship), a poderosíssima organização de artes marciais, cedo percebeu que a modalidade não era apenas um desporto, mas um produto televisivo: ritmo rápido, confrontos pessoais, violência muito visual, narrativa simples. O problema maior era que ninguém queria transmitir aquilo. 

“Foi o nosso cavalo de Troia entrar na televisão”, diz esta semana à Time, uma edição que o coloca em capa sob o título “O promotor”, expressão que não remete apenas para o organizador de combates, mas para alguém que promove uma certa ideia de masculinidade que progressivamente se enraíza na sociedade global.

A viragem aconteceu em 2005, quando “The Ultimate Fighter” estreou na Spike TV e se tornou um inesperado sucesso. Através de um formato de entretenimento, a televisão normalizava assim a violência do octógono para um público alargado, dando contexto emocional à violência, transformando um combate duro numa narrativa atrativa. E o caminho lá se foi fazendo. 

Em agosto de 2025, a Paramount comprou os direitos de transmissão do UFC por 7,7 biliões de dólares ao longo de sete anos, eliminando o modelo de “pay-per-view” e garantindo desse modo que as lutas marciais fossem transmitidas pela CBS, uma subsidiária da Paramount. E tudo isto rende muito dinheiro: no primeiro trimestre de 2026 as receitas do UFC atingiram 401 milhões de dólares, um aumento de 12% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Paralelamente à modalidade desportiva, cresce um fenómeno: o da masculinidade agressiva que faz caminho na manosfera. “Não há nada que odeia mais do que homens que não agem como homens. Se isso me coloca na manosfera, então eu acho que estou dentro”, diz White à revista Time. No mesmo artigo, sublinha-se que, durante a comemoração da vitória na noite da eleição que o levou pela segunda vez à Casa Branca, Trump chamou White ao pódio enquanto os seus apoiantes gritavam "Dana! Dana! Dana!". O jornalista quis saber as razões que levaram o Presidente norte americano a escolher este evento para começar a celebrar a independência do país: “Porque eu gosto.”, diz, acrescentando algo mais revelador: “O trabalho que Dana fez é incomparável. Nunca vi nada igual.” Tudo isto consolida uma nova arquitetura de poder que se robustece através de estratégias de visibilidade.

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