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As outras notícias também importam

As outras notícias também importam

Em qualquer alinhamento noticioso, as peças jornalísticas são ordenadas a partir daquilo que se considera mais relevante. No entanto, as notícias que ficam em espaços menos centrais revelam frequentemente elementos instituintes, fundamentais para compreender a realidade que todos os dias nos estrutura enquanto sociedade. Encontramos vários exemplos em suplementos de jornais.

Este fim-de-semana, a Fugas (ou o Fugas, conforme se entenda como revista ou suplemento), que acompanha a edição de sábado do “Público”, tinha na capa as “Guardiãs da Natureza”, uma rede que surgiu no âmbito do Movimento Mulheres pelo Clima, que procura desenvolver ideias e negócios em diferentes áreas protegidas do país, conciliando preservação ambiental com desenvolvimento económico e fixação das famílias nesses territórios. Somam-se já 300 guardiãs, espalhadas por 19 áreas protegidas. O artigo ouve algumas mulheres, enquadradas nos respetivos ambientes.

Num tempo em que o jornalismo está em crise, nem sempre há recursos para fazer reportagens. Por isso, quando surgem, é preciso percorrê-las com atenção. Porque correspondem a agendamentos alternativos, a construções narrativas mais densas e a escolhas de fontes de informação que vão além de confrarias repetidamente presentes na esfera mediática. Ao acompanhar de perto o quotidiano de algumas guardiãs e ao colocá-las nos lugares que habitam, a jornalista Mara Gonçalves revela dinâmicas impercetíveis ao turista que por aí passa em fugaz visita. É através daquilo que algumas dessas mulheres dizem que percebemos o papel transformador que têm e o contributo que dão para a coesão e a valorização dos territórios. Ora, esse olhar atento faz-nos perceber que as mudanças estruturais começam muitas vezes em iniciativas discretas, longe dos grandes centros urbanos.

Ao iluminar histórias assim, num discurso que introduz o leitor no interior da própria narrativa através da primeira pessoa do plural que nos torna parte de todo o percurso (“estamos junto à Rocha da Pena, monumento geológico no coração da região do Algarve”), esta reportagem, tal como muitas outras, ajuda-nos a compreender o país que somos nas suas múltiplas geografias e através de uma diversidade de experiências. Por isso, estas peças são tão importantes não só para a definição de traços distintivos do jornalismo, mas também para fortalecer o sentido coletivo de pertença a um território comum. Num tempo marcado pelo ritmo acelerado das redes sociais, ler com tempo estas peças jornalísticas é uma forma de resistir à superficialidade dos atuais regimes mediáticos.

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