A caminho dos seis meses de mandato de António José Seguro como Presidente da República, começa a desenhar-se um novo modelo de exercer o cargo. O atual PR é muito diferente de Marcelo Rebelo de Sousa. Intervém menos, escolhe momentos em que fala e profere discursos previamente preparados. Não se conclua daí que desvaloriza a comunicação. Pelo contrário.
Durante dez anos habituámo-nos a um PR omnipresente, que falava de praticamente tudo. Marcelo gostava da atenção dos jornalistas e alimentava-os com aquilo de que as redações mais precisam: declarações, reações, comentários sobre a atualidade. Também se movimentava com grande à-vontade em diferentes ambientes. Ao lado de chefes de Estado ou de cidadãos anónimos, revelava uma espontaneidade desarmante e uma rara capacidade de se ajustar rapidamente aos contextos, tanto no gesto como na palavra.
António José Seguro é muito diferente. Adota uma postura mais contida, uma intervenção mais institucional, uma proximidade com as pessoas mais ponderada. Evita o improviso e a palavra é sempre calculada. Tinha prometido isso na noite em que foi eleito. Quem o observa no terreno percebe que essa contenção não significa ausência de uma estratégia de comunicação. Existe, sim, um outro modelo: mais disciplinado, menos centrado na reação imediata e mais orientado para a construção de uma imagem de estabilidade, serenidade e autoridade institucional. Quando o atual Presidente chega a algum evento, percebe-se bem que não chega sozinho. Quem o acompanha vai dando orientações precisas para que o espaço do PR fique bem delimitado. A espontaneidade de Marcelo deu lugar à encenação institucional com Seguro. Há uma nova forma de enquadramento do Presidente. Essa estratégia não termina quando o evento acaba. Prolonga-se no espaço digital, onde a Presidência tem agora um papel ativo na produção e difusão de conteúdos. Marcelo nunca percorreu tal caminho.
Ainda é muito precoce fazer qualquer avaliação. Sendo certo que o modelo criado por Marcelo se impunha depois de largos anos sob uma Presidência rígida protagonizada pelo casal Cavaco Silva, também é verdade que precisávamos de um Presidente que restituísse a Belém uma postura mais formal que o cargo naturalmente pressupõe. A um Presidente de todos os dias, sucedeu outro que surge em determinados momentos e fala com prudência. Nenhum modelo é superior ao outro. Marcelo foi muito importante em tempos de crise, como o da pandemia, e de tragédia, como o dos incêndios. Ainda não sabemos como será António José Seguro em momentos excecionais. Será então que se perceberá se a contenção é uma virtude ou uma limitação.
opinião
Felisbela Lopes
Do Presidente de todos os dias ao Presidente dos momentos escolhidos