Jornalismo de saúde em tempo de incerteza

Jornalismo de saúde em tempo de incerteza

Um caso que represente uma ameaça à saúde pública e que subitamente ganha dimensão internacional possui sempre um enorme valor-notícia e tende a gerar grande apreensão. Perante o receio de novas pandemias, a interrogação impõe-se: terá o hantavírus potencial para evoluir para uma situação pandémica? Nas redes sociais, multiplicam-se interpretações em todos os sentidos. Nestas circunstâncias, é melhor acompanhar aquilo que dizem os especialistas escutados pelos média de natureza jornalística.

A Organização Mundial de Saúde já afastou a possibilidade de estarmos no limiar de uma “grande epidemia”, embora sejam esperados mais casos, porque o período de incubação do vírus pode chegar às seis semanas. Trata-se de um sinal que nos dá alguma tranquilidade, mas a previsão não é de todo infalível.

Nos média internacionais, o assunto ganhou bastante relevo e vários especialistas explicam por que razão este caso não deve ser lido como, por exemplo, o da Covid-19, recordando que as pandemias dependem mais da facilidade de transmissão do que da taxa de mortalidade. Apesar de potencialmente grave, o hantavírus parece não se transmitir de forma eficaz antes do aparecimento de sintomas, exigindo também contactos próximos e prolongados. Para além disso, os sintomas são severos, reduzindo a mobilidade dos doentes e, por extensão, o contacto com outras pessoas. Tudo isto afasta, para já, cenários pandémicos. Ainda assim, a vigilância epidemiológica mantém-se ativa.

Percorrendo os artigos noticiosos que falam deste caso, evidencia-se um discurso jornalístico que procura fornecer elementos de contexto que nos dotam de mais conhecimento sobre o que está a acontecer. Ora, é precisamente aí que reside uma das especificidades do jornalismo de saúde: para além de relatar o que acontece, contribui para uma literacia que nos ajuda a prevenir doenças e a promover a saúde. Através desse enquadramento informativo, assume-se também como um meio eficaz de combate às desordens informativas que ganham mais velocidade em momentos de incerteza.

Em conferência de imprensa, Maria Van Kerkhove, diretora interina do Departamento de Ameaças Epidémicas e Pandémicas da OMS, afirmou perante os jornalistas isto: “quero ser inequívoca: isto não é o SARS-CoV-2, não é o início de uma epidemia, não é o início de uma pandemia”. Desta vez, a OMS foi mais célere a reagir e clara no que disse. Precisamos de fontes oficiais que saibam comunicar deste modo, de forma direta e simples. Hoje temos esta convicção, mas, na saúde pública, todos sabem que os vírus podem evoluir. À cautela, os média noticiosos têm optado por títulos interrogativos, adotados quando tudo está em aberto.

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