Quem comprar este fim-de-semana a revista “The Economist” encontrará em capa uma faixa amarrotada onde se lê: “Mission Accomplished”. Atrás, com o rosto oculto por essa tira, está um vulto que facilmente se identifica com Donald Trump. Desta vez, o Presidente dos Estados Unidos não está a bordo do USS Abraham Lincoln. Poderemos situá-lo num qualquer comício, porque há balões vermelhos na imagem, embora o púlpito seja oficial. Aí estão os média, num processo de agenda-setting, a dizer-nos no que pensar.
Quando em maio de 2003 George W. Bush anunciou a bordo de um porta-aviões o fim das operações militares no Iraque, tendo ao fundo a faixa com as palavras “missão cumprida”, não existiam condições suficientes para tal declaração. O prolongamento do conflito por vários anos confirmou o carácter prematuro desse anúncio que, a partir daí, ficou como uma metáfora de uma derrota política, revelando o desfasamento entre uma narrativa oficial e a realidade no terreno.
“The Economist” recupera essa referência histórica, estabelecendo, assim, um paralelismo simbólico que reflete um padrão comunicativo: anunciar um sucesso (muito) antes do tempo, procurando, desse modo, moldar perceções através de imagens encenadas. Neste caso, todos os elementos que vemos na capa acentuam o ridículo: os balões vermelhos infantilizam o dispositivo cénico; o rosto oculto e o dedo em riste revelam um homem paradoxal, simultaneamente afirmativo e evasivo; o púlpito da presidência norte-americana surge num contexto deslocado; e a faixa oscilante espelha um anúncio assente em bases frágeis. No interior, o texto sustenta essa leitura crítica, apontando um conjunto de objetivos por alcançar: tornar o Médio Oriente mais seguro, derrubar o regime iraniano, impedir o desenvolvimento de armas nucleares. Neste enquadramento, sugere-se ainda que Trump não pode permitir uma escalada militar não apenas por fatores geopolíticos, mas por receio em provocar instabilidade nos mercados e rejeição nas eleições intercalares.
Este exemplo permite-nos compreender que os média não se limitam a relatar acontecimentos: interpretam-nos, conferindo-lhes significados devidamente contextualizados que nos ajudam a ler melhor o que acontece. Através de processos de tematização e de enquadramento, o jornalismo reúne um poder significativo na definição de prioridades do debate público e na construção da opinião coletiva. E isso deve ser feito respeitando princípios jornalísticos de rigor, de neutralidade e de responsabilidade, fundamentais para garantir a credibilidade da informação e a confiança dos cidadãos.