“Por que razões os britânicos voltarão?” é o título da capa da revista francesa “L’Express”. Num longo artigo dedicado ao “fiasco do Brexit”, os jornalistas falam de um país mais pobre, mais triste e mais dividido. Na sua leitura, o divórcio teve consequências devastadoras. A nível económico, registaram-se quedas no investimento estrangeiro e no crescimento do país bem como uma evolução desfavorável de vários indicadores. Na política, a instabilidade refletiu-se nos seis chefes de governo em dez anos. E na sociedade é relativamente simples perceber que as tensões aumentaram de modo expressivo. Segundo uma sondagem da YouGov, apenas 30 por cento dos britânicos consideram que o Brexit foi uma boa solução.
Uma leitura oposta é apresentada pela conservadora revista britânica “The Spectator” que esta semana também dedica a sua capa ao tema. O texto assenta na análise de Michael Gove que, ao longo desse período, integrou o governo de quatro primeiros-ministros. Na sua perspetiva, o Reino Unido ganhou muito com este referendo em cuja campanha o próprio Gove se envolveu profundamente: há políticas que só se tornaram possíveis porque o país está fora da UE; existe mais poder para negociar acordos comerciais; e reconquistou-se uma inequívoca soberania legislativa.
Qual das revistas oferece a versão mais fidedigna? Ambas. Cada uma assume um ângulo de leitura. Este constitui um bom exemplo da construção social da realidade, conceito desenvolvido por Peter Berger e Thomas Luckmann . No jornalismo, esta ideia ganha uma dimensão particularmente relevante. Os média noticiosos não inventam a realidade, mas participam na forma como esta é percebida, construindo narrativas diferenciadas a partir de perspetivas distintas, contribuindo, desse modo, para perceções sociais. Isto não significa que todas as versões tenham a força da verdade. Tendo a realidade elementos verificáveis (dados, números, decisões, consequências...), a respetiva interpretação depende sempre de contextos, valores ou pontos de vista e é precisamente nesse espaço entre os factos e os significados a eles inerentes que nasce a construção social da realidade. Dez anos depois do referendo, não basta perguntar “o que aconteceu?”. É igualmente importante perguntar “quem conta o que aconteceu, a partir de que lugares e com que enquadramentos?”. Assim, perceberemos melhor determinados conteúdos jornalísticos.
opinião
Felisbela Lopes
O Brexit e a construção social da realidade
Assinalam-se, a 23 de junho, 10 anos do referendo que conduziu à saída do Reino Unido da União Europeia. O surpreendente Brexit mudou o país. Chegados à efeméride, os média dividem-se na leitura do que aconteceu. E isso resulta essencialmente da linha editorial e daqueles a quem se dá voz. Eis dois exemplos de visões diametralmente opostas.