Matthias Mehl, da University of Arizona, e Valeria Pfeifer, da University of Missouri-Kansas City, analisaram o quotidiano de mais de duas mil pessoas entre 2005 e 2019. Segundo a edição francesa da revista “Time”, esta investigação longitudinal revelou uma diminuição significativa da comunicação oral: o número médio de palavras pronunciadas por dia registou uma queda de 28 por cento, passando de 16.600 para menos de 12.000 palavras. A redução foi progressiva ao longo dos anos e particularmente acentuada entre os mais jovens.
Os investigadores apontam várias causas para tal fenómeno: os dispositivos móveis já não servem apenas para falarmos uns com os outros, mas para enviarmos mensagens e para nos afundarmos num scroll infinito que nos isola progressivamente; as redes sociais onde acumulamos “amigos” e vivemos, em parte, por intermédio uns dos outros; as práticas diárias em transformação (as compras feitas de forma autónoma, os pedidos de comida que se fazem através de aplicações; os serviços bancários online e o trabalho muitas vezes realizado em forma solitária). Importa salientar que o estudo termina em 2019, não incluindo o período pandémico. Tal significa que esta tendência poderá ter sido posteriormente intensificada.
A comunicação oral está, de facto, em declínio. Não é simples inverter esta tendência, mas a mudança depende apenas de desvios individuais, como levantar os olhos dos ecrãs para dizer “bom dia”, sair de casa e estar disponível para breves conversas ou não depender exclusivamente do trabalho remoto que nos afasta uns dos outros. Não estão apenas em causa as palavras que perdemos, mas as ligações pessoais que deixamos de construir em contextos coletivos. E, por extensão, a própria identidade que continuamente reconfiguramos. Em movimentos silenciosos, vamos definindo quem somos e a sociedade onde vivemos, convencidos de que nunca comunicamos tanto. Falamos menos e, decerto, estaremos menos disponíveis para escutar.
opinião
Felisbela Lopes
O declínio da comunicação oral na era digital
Nunca existiram tantos canais e redes de comunicação, mas hoje falamos cada vez menos. Nesta sociedade paradoxal onde o ruído invade múltiplos ambientes, as interações diminuem e o isolamento cresce. Escrevemos mais do que falamos e nessas mensagens, geralmente muito curtas e com sintaxe sincopada, silenciamos o tom de voz, tornamos invisível a linguagem corporal e apagamos as expressões faciais. Hoje o silêncio não se faz de uma ausência de som, mas do excesso de notificações e de estímulos digitais.