Esta segunda-feira, David Lammy, agora vice-primeiro ministro, bem tentou sossegar a torrente que força o chefe de governo à demissão, assegurando que “Starmer não vai definir um cronograma para sua saída”. Não é isso que se desenha em bastidores que depressa se tornam públicos. Na quinta-feira, Wes Streeting apresentou a demissão do cargo de ministro da Saúde numa carta devastadora. Nela afirmou ter perdido a confiança em Starmer e considerou que este “não irá liderar o Partido Trabalhista nas próximas eleições legislativas”. Streeting (ainda) não se apresentou na corrida para disputar essa liderança, mas posicionou-se como alternativa e abriu oficialmente a sucessão.
Mas há outros candidatos. O mais forte, neste momento, é o mayor de Manchester, Andy Burnham. Também na quinta-feira, Josh Simons, deputado pelo círculo eleitoral de Makerfield, na região de Manchester, renunciou ao cargo de deputado, abrindo assim a possibilidade de Burnham ser eleito para a Câmara dos Comuns, uma condição indispensável para disputar a liderança trabalhista e eventualmente chegar a Downing Street. Todavia, antes disso, é preciso disputar eleições e é precisamente aí onde tudo pode decidir-se, porque o partido Reform UK é mesmo uma grande ameaça. No sábado, o jornal Daily Express ocupava três quartos da primeira página com um título citação de Nigel Farage, que surge como uma espécie de aviso de guerra política: “vamos dar-lhe um duro choque”.
Neste contexto, os média noticiosos britânicos assumem um papel central, ampliando divisões internas e transformando sinais de desgaste em narrativas jornalísticas de colapso iminente. Numa capa com o título “caos sem fim”, a revista The NewStatesman falava esta semana em “starmercídio”, defendendo que a saída do PM do governo permitiria recuperar a energia política e oferecer uma visão mais clara e convincente ao eleitorado. No fim de semana, The Guardian anunciava, em primeira página, que Burnham tornar-se-ia PM até ao outono. Entre manchetes de forte impacto simbólico e fugas seletivas de informação, os média aceleram o ritmo da contestação e reduzem o espaço de manobra do PM. O resultado é claro: a perceção da crise é por si só um colossal fator de instabilidade e uma base real para a mudança política.
opinião
Felisbela Lopes
O papel dos média na aceleração da instabilidade política britânica
Não podemos negar o esforço do primeiro-ministro britânico para se manter no poder, mas Keir Starmer está hoje no centro de uma tempestade política, alimentada não apenas pela oposição, mas sobretudo pelo seu próprio Partido Trabalhista. E adensada pelos média noticiosos. Esta semana, a revista The Economist afirmava que “substituir Starmer é arriscado, mas mantê-lo é mais perigoso”.