O que aconteceu em Ceuta?

O que aconteceu em Ceuta?

A chegada abrupta de mais de 50 mil migrantes a Ceuta (os números divulgados são desencontrados) constituiu uma invasão do território, um descontrolo fronteiriço, uma passagem autorizada de Marrocos, um descuido de Espanha? Há leituras diversas, mas o que aconteceu na passada sexta-feira foi, acima de tudo, um drama humanitário. Bem documentado pelos média.

A imagem é paralisante. O plano que, nas diversas peças televisivas, mostrava dezenas de chinelos de borracha à deriva no mar dava a ver dolorosos vestígios de pessoas que se lançaram à água na esperança de uma vida diferente. Cada chinelo parecia contar uma travessia difícil, uma escolha desesperada e, o mais duro, talvez uma vida perdida para sempre. Essa imagem ganha ainda maior significado quando complementada com os números.

Na edição de sábado, o jornal “Público” publicava um gráfico que documentava as pessoas que desapareceram ou morreram no Mediterrâneo nos últimos anos: 5.136 em 2016; 3.139 em 2017; 2.337 em 2018; 1.885 em 2019. No período da pandemia houve uma redução. No entanto, depois regressaram os números pesados: 3.155 em 2023; 2.573 em 2024; 2.185 em 2025. No fim-de-semana, a imprensa internacional continuava a apresentar dados inquietantes: três milhões de marroquinos entre os 15 e os 29 anos nem estudam, nem trabalham. Esta geração “nem-nem” vê em Ceuta uma porta de entrada para um destino que permitiria recomeçar a partir do zero. Por isso, vieram assim: com a roupa que tinham no corpo, sem nada trazer consigo. Para quem observa as imagens com atenção, a situação impressiona. Muito.

É nestas alturas que o Jornalismo revela uma das suas funções mais importantes: dar a ver realidades que, sem essa observação, permaneceriam fora do espaço público. O discurso jornalístico não resolve crises humanitárias, não abre corredores de ajuda, nem define políticas migratórias. Mas ajuda a promover tudo isso, ao informar, ao contextualizar e ao mobilizar a nossa atenção para situações que, longe da cobertura jornalística, seriam ignoradas. Sem esse trabalho testemunhal, muitas tragédias permaneceriam silenciadas e, consequentemente, longe da agenda pública. Claro que a exposição mediática também favorece aproveitamentos partidários, como aconteceu. Contudo, há um drama que se sobrepõe a todos os ruídos: o de vidas marcadas pelo desespero.

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