Os desafios do jornalismo na era dos algoritmos

Os desafios do jornalismo na era dos algoritmos

A tecnologia estrutura hoje, de forma decisiva, os processos produtivos e de consumo de informação jornalística, mas não é (ainda) uma prioridade da agenda noticiosa. Quando isso acontece, percebemos que essa tematização é central em vários campos: político, social, de defesa, económico... Esta semana, a poderosa empresa Palantir ocupa a capa da revista portuguesa Visão e esteve em destaque em vários média internacionais. Eis o jornalismo a ser desafiado para interpretar sistemas tecnológicos complexos e difíceis de escrutinar, capazes de condicionar vidas e, em contextos de guerra, determinar mortes.

A edição desta semana da revista Courrier International publica uma peça do jornal Los Angeles Times com o título “como Israel usa a IA contra o Hezbollah”. O texto explica que o regime de Benjamin Netanyahu usa a Inteligência Artificial e sistemas avançados de vigilância para identificar e assassinar membros do Hezbollah no Líbano. E faz isso com apoio de perfis de ameaça de pessoas consideradas perigosas. Estes são construídos com base na combinação de volumes avassaladoras de dados de localização, atividade online, dados bancários, entre outros. Há várias empresas a desenvolver esse trabalho. Uma delas é a Palantir. 

Nesta quinta-feira, os média britânicos noticiavam que Mayor de Londres bloqueou o contrato de 50 milhões de libras entre a Polícia Metropolitana (Scotland Yard) e a Palantir. A razão apontada foi a violação de regras de contratação pública, mas existem sobretudo questões éticas que levantam muitas questões relativamente a este tipo de contratualizações. Neste momento, no Reino Unido, esta empresa tem contratos com o setor público no valor de mais de 600 milhões de libras.

O mundo hoje progride à velocidade dos algoritmos e as empresas de IA são atores centrais dessa transformação. Algumas operam numa zona de influência onde tecnologia, defesa, segurança e política se sobrepõem. Quando uma empresa privada participa na definição de quem representa uma ameaça, quem deve ser vigiado ou até quem pode morrer, há muito que deixou o domínio tecnológico para definir a arquitetura das decisões.

Neste contexto, o jornalismo enfrenta uma das suas missões mais difíceis e urgentes: escrutinar empresas com poderes colossais que operam a uma escala global. Estas, porém, trabalham sob elevados níveis de secretismo, protegidas por contratos impenetráveis e desenvolvendo processos complexos e muitas vezes insondáveis. 

Precisamente por isso o exercício jornalístico se torna ainda mais indispensável. É crucial hoje a agenda noticiosa incorporar estes temas como prioridade. Sem o trabalho de mediação crítica, e, consequentemente, de debate público, uma parte fundamental do nosso futuro coletivo fica entregue a algoritmos e a decisões tomadas longe do escrutínio democrático e, mais grave, do conhecimento público.

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