Os média como campo de batalha ideológica

Os média como campo de batalha ideológica

Marcadas para 18 de abril de 2027, as eleições presidenciais francesas podem abrir um novo ciclo político no país e na União Europeia. Marine Le Pen já anunciou que será candidata pela União Nacional, apesar de ter sido condenada em tribunal por desvio de fundos europeus, provocando surpresa em algumas fações do seu partido (incluindo no líder que queria protagonizar essa corrida eleitoral), uma forte rejeição entre as forças de esquerda, grande apreensão nas instituições europeias e uma intensa batalha cultural no setor dos média. A revista L’Express identifica um outro confronto importante nestas eleições presidenciais: o que opõe os grupos mediáticos Pigasse-Bolloré, transformando os média num importante campo de batalha.

Durante décadas, a televisão desempenhou um papel central na política, particularmente em contextos eleitorais. Hoje a disputa não se trava (apenas) nos debates, nas entrevistas ou nas sondagens, mas sobretudo na capacidade de definir a agenda pública, impor enquadramentos e moldar narrativas. Cada campo político aproxima-se dos meios que lhe são favoráveis e agora essa procura estende-se aos grandes grupos mediáticos, num ecossistema profundamente fragmentado onde a informação se cruza com projetos editoriais, interesses económicos e agendas políticas. O caso francês é particularmente revelador desta transformação.

Atualmente, o grupo de Vincent Bolloré assume-se como um protagonista político de primeira linha. Canais como CNews e jornais como Journal du Dimanche assumem uma linha conservadora, promovendo temas como imigração ou segurança e dando visibilidade a figuras de extrema-direita. Já os meios ligados a Matthieu Pigasse, como a Radio Nova ou Le Nouvel OBS apresentam-se como uma barreira firme ao crescimento de ideologias conservadoras. 

O problema não está nas linhas editoriais distintas, mas no risco de erosão de um espaço comum de informação, levando os cidadãos para universos polarizados onde cada um encontra apenas conteúdos que confirmam as suas convicções. É também esta a lógica das redes sociais. Ora, esta tendência coloca vários desafios ao jornalismo e legitima (muito) a existência de um serviço público de média.

Se os meios de comunicação social deixarem de ser um lugar de encontro de opiniões diferentes, não cumprem uma das suas funções mais relevantes: ajudar a construir um espaço público comum. Os média não podem ser fortalezas ideológicas, mas pontes de mediação promotoras de cidadania, capazes de partilhar a verdade dos factos e não narrativas de realidades paralelas.

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