E quando menos se esperava, Jair Bolsonaro, em prisão domiciliária e sujeito a restrições de comunicação, entrou na Convenção do Partido Liberal onde o seu filho, Flávio Bolsonaro, se apresentou como candidato à Presidência do Brasil. Fê-lo através de um vídeo produzido por Inteligência Artificial, ou seja, ocupou o palco sem lá estar. E a pergunta que sobressai é esta: o que acontece à política quando se (re)criam conteúdos artificiais que produzem um efeito do real?
O vídeo começa com a imagem e a voz do ex-presidente do Brasil a anunciar que aquele conteúdo foi gerado por IA. A versão digital diz aquilo que se espera ouvir de Bolsonaro: apoia o seu filho, ataca os adversários, diz-se vítima de um processo judicial. A transparência do filme não resolve o essencial daquela comunicação que institui uma
ação política por procuração tecnológica. Eis um Bolsonaro digital a declarar aquilo que Bolsonaro real não pode afirmar. E tudo isso se desenrola em plena convenção partidária.
Se durante décadas a política tinha uma dependência colossal da televisão para projetar um político, agora a IA dá um passo mais além: já não é preciso transmitir aquilo que um político diz. Podemos recriá-lo. Ou seja: a TV mostrava o político em cena, a IA mostra o político sem precisar fisicamente dele. Já não está apenas em causa a possibilidade de criar mentiras, mas, acima de tudo, de fabricar simulacros da verdade. Perante isso, os eleitores reagem emocionalmente, sem pensarem de forma estruturada sobre a natureza de determinado conteúdo. É isso que importa.
Neste novo ambiente comunicacional impõe-se a pergunta: quem é responsável por aquilo que a IA faz um político dizer? No Brasil, o Supremo Tribunal Federal pediu explicações e a defesa de Jair Bolsonaro já assegurou que o próprio não autorizou a fabricação daquele filme que a sua imagem protagoniza. Por seu lado, Flávio Bolsonaro garantiu que o vídeo é legal e não engana o eleitorado. O Tribunal Superior Eleitoral decidirá se a campanha do filho do ex-presidente do Brasil cometeu irregularidades. Contudo, a questão não é apenas jurídica. É também democrática. Se a IA dilui a responsabilidade de quem fala, quebra-se um elo estruturante em qualquer processo eleitoral: a confiança.