Quando o jornalismo promove os debates que a política adia

Quando o jornalismo promove os debates que a política adia

A capa desta semana da revista “The Economist” é ilustrada com um veraneante à beira-mar, numa praia deserta, sob um chapéu de sol que se incendeia. O título “está demasiado quente” abre um dossier que nos recorda que o mundo entrou numa nova fase climática. Desta vez, o tom dos artigos apresenta maior urgência: a mitigação e a adaptação já não serão suficientes para evitar ou, pelo menos, atenuar impactos climáticos. É preciso integrar neste combate a geoengenharia e atuar ao nível da estratosfera. Eis o jornalismo de ciência a promover um debate que os decisores políticos parecem adiar de tão absorvidos que andam por guerras, tarifas, crises orçamentais e calendários eleitorais.

Numa primeira abordagem, parece que nos deparamos com um paradoxo: como podem os jornalistas anunciar (em título) que a Terra está a escurecer, quando enfrenta um aquecimento sem precedentes? A ciência dá respostas. O planeta está a perder capacidade para refletir a radiação solar, absorvendo cada vez mais energia. Em linguagem mais técnica: está a diminuir o seu albedo, um conceito que decerto entrará depressa no léxico comum, tal como aconteceu com termos como pandemia ou imunidade de grupo. Assim, ainda que as medidas com vista à redução das emissões continuem a ser importantes, o atual ritmo do aquecimento obriga a outras estratégias. A revista britânica defende que é urgente intensificar um debate internacional sobre soluções de geoengenharia destinadas a aumentar a capacidade da Terra para refletir luz solar. Por exemplo, a injeção de aerossóis na estratosfera ou o branqueamento artificial de nuvens. São propostas controversas, com riscos conhecidos e muitos ainda por conhecer. Mas ignorá-las pode ser mais perigoso do que estudá-las.

Eis aqui um (bom) exemplo do jornalismo de ciência que procura, numa publicação que dá prioridade ao ângulo económico, recentrar o debate das alterações climáticas em novas e bem pertinentes abordagens. Num ecossistema mediático asfixiado por desordens informativas, o jornalismo procura, deste modo, destacar um campo demasiadas vezes desvalorizado: o da ciência. Já tínhamos percebido bem o seu valor em tempo de pandemia. É urgente recuperar a sua relevância quando tantas vidas poderão estar em causa. Hoje, as alterações climáticas constituem um dos maiores temas científicos do nosso tempo, exigindo igualmente agendas noticiosas que abram uma espécie de via verde para traduzir conceitos, escrutinar políticas e interpelar poderes.

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