Um novo modelo de comunicação em Belém

Um novo modelo de comunicação em Belém

O atual Presidente da República não cultiva a economia da palavra pública de Cavaco Silva, nem incorre na sobreexposição mediática de Marcelo Rebelo de Sousa. Optando por uma estratégia comunicacional mais moderada, António José Seguro inaugurou agora um modelo de atuação distintivo: a elaboração de um relatório oficial, concluído um mês e meio depois da sua primeira Presidência Aberta na região Centro, no qual identifica falhas e apresenta “prioridades de ação”. Neste documento já enviado aos grupos parlamentares, a avaliação crítica do Governo é inequívoca. Neste caso, o momento de divulgação pública não foi o mais adequado.

A manchete de sábado do “Público” reunia elementos para provocar um forte efeito de agendamento. “Seguro aponta governação pouco clara e descoordenada nas tempestades” é um título que assinala um claro distanciamento entre a Presidência da República e o Governo. No relatório, escreve-se que “a governação da crise revelou insuficiências de coordenação, clareza e interoperabilidade”, afirmando-se que “não podemos permitir que esta experiência se encerre sem mudança”. O texto não apresenta recomendações, antes fixa “prioridades de ação”. A precisão concetual é significativa. Vamos à enumeração do que é necessário fazer: “desbloquear pagamentos e decisões pendentes”; “remoção urgente do material lenhoso derrubado”; “apoiar a reabertura de atividades económicas ainda condicionadas”. O tom dos alertas é suficientemente grave para fazer prever reações políticas imediatas. No entanto, no sábado os média noticiosos estavam concentrados no caso das crianças francesas abandonadas e nas medidas judiciais aplicadas à mãe e ao companheiro; no domingo a agenda noticiosa soltou-se deste drama para destacar a Taça de Portugal. O documento perdeu a intensidade noticiosa que potencialmente poderia ter alcançado.

O facto de Belém ter remetido este relatório para o Parlamento constitui uma estratégia política particularmente eficaz, na medida em que prolonga o tema na agenda pública, fixa as preocupações do Presidente e, não menos relevante, obriga os políticos a reagir. Dificilmente alguém poderá alegar não ter sido confrontado com estas inquietações, sobretudo o Governo. Sem o ter necessariamente antecipado, António José Seguro encontrou nos dados divulgados pelo INE no dia anterior, uma âncora sólida para sustentar o seu documento: 740 mil pessoas residem em locais de risco de incêndio rural, das quais 50 mil em áreas de risco máximo. Desse universo, há um grupo expressivo de população idosa a viver em zonas isoladas. Ou seja, depois das tempestades, persistem fatores estruturais que antecipam um verão que, em contexto de incêndios rurais, pode abrir outra tragédia.

Ao desenvolver a sua comunicação a partir de documentos formais, o Presidente da República impõe um novo modelo de comunicação: menos direto, mas mais persistente; menos fático, mas mais impactante; menos centrado na intervenção imediata, mas mais orientado para a ação política. Como se percebe, S. Bento não terá a vida facilitada em Belém.

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