Vhils e a arte no centro das revoluções urbanas

Vhils e a arte no centro das revoluções urbanas

Não é habitual Portugal tornar-se notícia nos média internacionais pela cultura que produz. Por isso, merece particular atenção o último número da revista Courrier International. “O mundo segundo Vhils” é o título de capa. Como se escreve em editorial, pela primeira vez na história desta publicação, um artista é convidado para colaborar ativamente na edição. Porque, como se explica, estamos perante “uma figura maior da arte urbana”.

Talvez o retrato de sua autoria do anterior Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, tenha chamado a atenção, mas Vhils, o artista português Alexandre Farto, nascido em 1987, tem uma obra ímpar em vários continentes. Nos seus retratos gigantes esculpidos em muros, os rostos emergem como se sempre lá tivessem estado. Como se a cidade os tivesse guardado camada após camada. É fazendo a arqueologia desta espécie de palimpsesto que a sua obra ganha força. E singularidade. Vhils não acrescenta nada às paredes, retira-lhes matéria. Escava. Do seu estúdio na Margem Sul, no Barreiro, antiga zona industrial em frente a Lisboa, Vhils puxa para o centro uma geografia que a cidade ignora: a periferia.

Em editorial, o Courrier International escreve que a escolha do artista português se deve não só à magnitude do seu trabalho, mas também ao facto de toda a sua obra se cruzar com alguns dos temas mais relevantes do debate contemporâneo, como as consequências de um urbanismo acelerado, a importância do laço social e o lugar da arte na transformação e na dinâmica das cidades. Percorrendo as páginas desta edição, encontramos o trabalho de Vhils em Hong Kong, no Cairo, em Marselha, nos morros do Rio de Janeiro, na ilha de S. Vicente, na Madeira... E a revista acrescenta-lhe textos que falam da “arte no coração das revoluções urbanas”. E aí estão as cidades de S.Paulo, Madrid, Palermo, Joanesburgo, São Francisco e Lisboa. Todas se encontram no ponto em que o espaço não é cenário, mas uma memória viva que atravessa o nosso olhar e cria comunidade.

Não é comum o jornalismo ler a realidade à luz de manifestações culturais. Num tempo dominado por torrentes de informação que correm a uma velocidade vertiginosa, esta revista escolheu olhar o território através da arte, criando uma noticiabilidade a partir daquilo que os artistas revelam sobre as sociedades em que vivemos. E nisto destaca-se uma ideia importante de jornalismo: um jornalismo que não se circunscreve a relatar acontecimentos, mas que procura sinais profundos do nosso tempo. Ao distinguir Vhils, esta revista faz uma escolha editorial incomum: a de tratar a cultura como centro da narrativa contemporânea.

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