Um jogo de meninas

O futebol não é um desporto popular nos Estados Unidos. Os americanos preferem o basebol, o basquetebol e o futebol americano. Ao futebol, nascido em Inglaterra e tão popular entre nós, eles chamam soccer.

Na América o futebol só é popular entre as meninas do liceu. Enquanto os rapazes vão para o futebol americano ou para o hóquei as raparigas, nas aulas de educação física, escolhem, o futebol como o desporto colectivo para praticarem na escola. Por isso, na América, o nosso futebol é considerado “um jogo de meninas”.

Para ser praticado, não é necessária a força do futebol americano, nem a velocidade do basebol ou a energia do basquetebol. É assim que os americanos entendem o jogo. Por esta razão, a equipa norte-americana não tem um grande palmarés em competições internacionais de futebol. Nunca ganhou um campeonato do mundo ou esteve perto disso. Recordei-me disto quando, nas vésperas do jogo com os Estados Unidos, Paulo Bento decidiu invocar o “orgulho masculino” para motivar os seus jogadores.

Ele disse isto: “temos de ser uma equipa madura, uma equipa de homens que saiba que o jogo, até em função daquilo que aconteceu anteriormente, possa não começar a correr-nos de feição. Teremos de ser homens, solidários e coerentes para podermos dar uma resposta cabal. Temos 90 minutos para ganhar”. Por duas vezes, Bento exortou os seus jogadores a serem homens! Este apelo surpreendeu-me: hummm, pensei eu, parece que vamos ter os “homens” contra as “meninas”!

Na verdade, depois de ter assistido ao jogo de ontem, não sei se esse foi o melhor argumento para motivar os nossos homens sem aspas. As “meninas” revelaram mais força, mais velocidade e mais energia do que os “homens” de barba rija e longa (se olharmos para Raul Meireles) deste lado do Atlântico.

No relvado, vimos que os Estados Unidos já não são aquela equipa suave, fácil, com pouca experiência em grandes competições. E fora do campo, pelo que pude observar na reportagem da correspondente da RTP, Márcia Rodrigues, o entusiasmo pelo futebol também está a crescer. Será que um dia, na América, em vez do “superball” o país irá parar por causa do “supersoccer”?

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