Aprovada a vacinação universal dos adolescentes com jovens adultos ainda por inocular

Pouco mais de 15 por cento dos jovens adultos entre os 18 e os 24 anos estão completamente vacinados contra a covid-19 em Portugal. É um dos valores mais baixos a nível europeu. O ritmo de vacinação desacelerou nas últimas semanas e, agora, a vacinação universal dos adolescentes foi aprovada, levando à exclusividade temporária do auto agendamento para esta faixa etária. Mas, sendo o programa de inoculação organizado por ordem decrescente, como há ainda tantos jovens adultos por vacinar?

Inês Moreira Santos - RTP /
António Cotrim - Lusa

O programa "Casa Aberta" para as pessoas com 18 anos ou mais abriu nos centros de vacinação, na terça-feira. Mas, até ao passado fim de semana, a vacinação de jovens adultos entre os 18 e os 29 anos estava, aparentemente, a decorrer com algum atraso.

Se por um lado Portugal é dos países que mais vacinou as faixas etárias mais velhas e os grupos prioritários, por outro é dos países da Europa com menos jovens adultos vacinados. Segundo os dados do Our World in Data há, neste momento, mais de 99 por cento de pessoas com mais de 80 anos completamente vacinadas, assim como quase 59 por cento de pessoas entre os 25 e os 69 anos. Mas só 15,85 por cento de jovens adultos entre os 18 e os 24 anos já foram inoculados.

Depois de se ter registado um pico na taxa de vacinação na segunda semana de julho, o número de doses diárias administradas começou a diminuir nas últimas semanas. No início deste mês, a task force justificou este desaceleramento com o número de vacinas disponíveis em Portugal. Também alguns centros de vacinação do país tinham a mesma justificação quando questionados pelos utentes que não conseguiam agendar uma data para serem vacinados.

"Depois de avançar com a marcação, nunca recebo o SMS de confirmação. Já fiz este processo umas cinco vezes", relatou João Ferreira, de 26 anos, à RTP.

A questão que se levanta é, portanto, por que se alargou a mais faixas etárias a vacinação quando há a informação de haver vacinas insuficientes para vacinar os grupos de pessoas já em espera?
Vacinação por ordem decrescente, mas adolescentes com prioridade?
A 5 de julho passou a ser possível o agendamento da vacina para jovens adultos com mais de 27 anos e, dois dias depois, abriu o agendamento para os maiores de 25. Atualmente, o auto agendamento da vacinação está disponível a todos os adultos com idade igual ou superior a 18 anos.

O processo é igual ao já disponibilizado para as restantes faixas etárias. Na página da Direção-Geral da Saúde destinada ao agendamento é necessário introduzir a data de nascimento, preencher os dados necessários e, depois disso, escolher o local e a data para receber a vacina. Contudo, o processo de agendamento só fica finalizado quando a pessoa recebe um SMS para confirmar os dados, ao qual é necessário responder afirmativamente para que a vacina fique agendada.

Como a task force tem afirmado, desde que se iniciou o processo de vacinação contra a Covid-19, a inoculação decorre, preferencialmente, por ordem decrescente de idade. A DGS tem, aliás, alargado o programa de vacinação a todas as faixas etárias de forma gradual e decrescente.

Mas são muitos os casos de pessoas, por todo o país, que têm reclamado no atendimento do SNS24 ou nos centros de vacinação por não conseguirem agendar um dia para a vacina ou alterar o centro de vacinação quando não há vagas, embora as faixas etárias mais novas já tenham acesso ao agendamento. Outros afirmam que nem sequer chegam a ser contactados após a tentativa de agendamento no site.

"Tive covid em janeiro, estou recuperada desde dia 15 de julho e ainda não consegui marcar", contou Adriana Ferreira à RTP. "Completo o meu agendamento – embora não me apareçam datas – e nunca recebo mensagem".

De todas as tentativas para agendar a vacina, a jovem de 26 anos da zona de Pombal nunca recebeu uma mensagem a confirmar ou a informar a impossibilidade de se realizar a vacinação na data que escolheu. Ao contactar o seu centro de saúde garantiram-lhe que o "processo estava bem" e que "só tinha de aguardar".

Também a aguardar em lista de espera ficou Rita Domingos que afirmou que, sempre que tentava marcar uma data para ser vacinada, aparecia "indisponibilidade de datas".

"Coloquei-me em lista de espera. Depois dizia: ‘dentro de cinco dias úteis irá sair da lista de espera e terá de fazer nova marcação’", explicou. "Nunca saí de lista de espera. (…) E depois, quando pedi para o SNS me tirar da lista de espera, foi suspenso o agendamento para a minha idade".

De facto, na primeira semana de agosto o agendamento foi exclusivo para os adolescentes de 16 e 17 anos, o que impossibilitou que qualquer pessoa de outra faixa etária pudesse tentar nova data ou centro de vacinação, apesar de a task force ter admitido que continuavam pessoas de faixas etárias mais velhas à espera.

À RTP, a equipa que coordena a vacinação em Portugal confirmou mesmo que, embora muitos jovens adultos ainda estejam por vacinar, os adolescentes de 16 e 17 anos foram considerados prioritários nesta fase devido à aproximação do início do ano letivo.
Centros de vacinação sem vacinas
Há pessoas que alegam que não conseguem agendar porque o site não disponibiliza datas com vagas disponíveis, há quem faça reclamações e não obtenha resposta e há ainda quem refira que não consegue, na página de agendamento, escolher outro centro de vacinação que tenha vagas.

Ana Vasconcelos tem 23 anos e contou à RTP que está desde dia 12 de julho a tentar agendar a vacina, tendo ficado "logo em lista de espera". Quando, após cinco dias, tentou agendar para outro centro de vacinação nunca chegou a receber nenhuma mensagem de confirmação. Ao contactar o posto escolhido, foi informada de que não havia disponibilidade de vacinas.

"Agora estou a aguardar para ser novamente contactada, não dá para cancelar nem para tentar noutro sítio"
, explicou.

Na mesma situação, Tiago Miranda de 25 anos, apresentou reclamação formal ao SNS24, mas nem recebeu resposta nem consegue cancelar ou agendar novamente.

"Estou a tentar desde dia 11 de julho, ainda não recebi nenhum SMS desde então. Já fiz reclamação, mas até agora não me disseram nada", disse.

Questionada quanto aos casos de pessoas que não recebem qualquer contacto após completarem o processo de agendamento, a task force justificou que se trataria de casos esporádicos mas que, ao fim de cinco dias de tentar agendar, é possível reagendar. No entanto, há quem não consiga cancelar nem marcar outro dia para ser vacinado, após cinco dias da tentativa de agendamento.

Cátia Miranda, de 28 anos, referiu que, desde que ficou em lista de espera a primeira vez, tentou marcar data de vacinação, deixou de conseguir agendar novamente, escolher outro concelho ou mesmo outro centro de vacinação. As autoridades locais informaram-na de que não havia vacinas para a sua faixa etária, contudo havia pessoas mais novas que agendaram posteriormente e que foram vacinadas no mesmo centro de vacinação.

"Não consigo agendar, nem escolher o distrito sequer e estou constantemente em lista de espera", contou. "Contactei o centro de vacinação e dizem não ter vacinas. Todavia já estão a vacinar faixas etárias mais novas".

Quanto aos alegados atrasos na vacinação, a estrutura que coordena a logística da vacinação contra a Covid-19 reconheceu à RTP que, nas últimas semanas, não houve tanta disponibilidade de vacinas. Além disso, também tem havido adiamentos de datas de vacinação consoante o universo de cada centro de vacinação e a coincidência com as datas previstas para a inoculação das segundas doses.

Isto é, segundo a task force, a quantidade de pessoas a que cada centro de vacinação dá resposta não é a mesma em todo o país, havendo regiões em que há menos população a vacinar e, por isso, o processo está a decorrer com mais rapidez. Já em centros de vacinação cujo universo populacional é maior, a taxa de vacinação das faixas etárias mais novas ainda será inferior.

Além disso, explicou ainda a instituição, havendo menos disponibilidade de vacinas e necessidade de garantir as suficientes para os utentes que necessitam da segunda dose, o agendamento para a primeira inoculação pode ficar mais condicionado e limitado, considerando o número de vagas disponíveis.
Casa Aberta e mais vacinas

Esta quarta-feira foi anunciado que, entre os dias 12 e 14 de agosto, o auto agendamento da vacinação contra a Covid-19 será exclusivo para adolescentes entre os 12 e os 15 anos, cuja vacinação arrancará no fim de semana de 21 e 22 de agosto.

"Temos um plano, um calendário, que foi desenhado para que os adolescentes estivessem vacinados antes do início da época escolar", disse Gouveia e Melo, esta quarta-feira, em declarações à SIC.

Em comunicado, a task force adianta que o autoagendamento para os utentes com idade igual ou superior a 18 anos voltará a ficar disponível a partir de 15 de agosto, estando também para esta faixa etária disponível desde terça-feira a modalidade "Casa Aberta", que dispensa marcação, mas exige a obtenção de uma senha eletrónica.

Contudo, o próximo fim de semana, 14 e 15 de agosto, será reservado apenas à vacinação dos jovens com 16 e 17 anos.

Ou seja, embora o auto agendamento volte a estar reservado aos adolescentes durante os próximos dias, os jovens adultos que ainda não tenham conseguido ser vacinados podem dirigir-se aos centros de vacinação com disponibilidade de vacinas para a "Casa Aberta".

Como já mencionado várias vezes pelo coordenador da task force, Henrique Gouveia e Melo, o ritmo de vacinação depende também do número de doses de vacinas que Portugal tem recebido. Mas é esperado que, ainda esta semana, o processo de inoculação acelere em todo o país com a entrega antecipada de mais de meio milhão de vacinas da Janssen e da Pfizer.

Até ao momento, Portugal já tem 62 por cento da população com vacinação completa contra a covid-19 e 71 por cento com pelo menos uma dose administrada, com os maiores de 65 anos quase totalmente vacinados.
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