Arriscado e lucrativo, o contrabando foi durante anos um meio de subsistência para as famílias da raia. Durante o Estado Novo, quem era apanhado arriscava perder toda a mercadoria, pagar multas e até ser preso.
Apesar do risco, o contrabando não era vergonha.
Marta Jorge (Jornalista), Emanuel Prezado (Imagem), Vanessa Brízido (Edição), Margarida Rodrigues (Grafismo), Sara Piteira (Multimédia)
A fronteira entre Portugal e Espanha tem de cerca de 1200 quilómetros. Por toda a linha se passaram produtos, consoante as necessidades e as épocas.
Na geografia do contrabando e da emigração clandestina avançamos até aos ângulos mais extremos, onde Portugal se afunila em Espanha:
- Concelho de Melgaço, Minho
- Concelho de Miranda do Douro, Trás-os-Montes
- Concelhos de Barrancos e Serpa, Alentejo
“O marco 10 está ali”, disse, enquanto apontava para uma rocha de granito ao longe. Maria do Carmo Soares conhece bem as marcações de fronteira de Castro Laboreiro. Começou a percorrer os caminhos despidos do planalto com 11 anos, quando trazia gado de Espanha para Portugal.
Depois de passar pelo emaranhado de fetos e silvas, a ex-contrabandista subiu ao pequeno pilar gravado nas laterais com as iniciais dos dois países e avançou. “Tenho um pé em Espanha e outro em Portugal”, afirmou.
Os marcos de fronteira eram os guias dos antigos contrabandistas. Em pequenos grupos, homens, mulheres e crianças faziam caminhos de noite, em silêncio. “Era apalpar. Caíamos, levantávamos, seguíamos viagem e a sorte é que os animais eram muito mansinhos e não passavam por cima de nós”, contou.
Do lado português fugiam à Guarda Fiscal e do lado espanhol, à Guardia Civil. “O medo era constante. O medo acompanhava-nos desde que saíamos de casa, até que entrávamos em casa”, lembra Carmo Soares.
O contrabando era e é crime. Durante o período do Estado Novo, os contrabandistas apanhados podiam perder as cargas, pagar multas ou até ser presos. Maria do Carmo Soares ganhava 250 escudos por noite, correspondente a 1,24€. “Eram amargados de ganhar, mas aquele dinheirinho sabia muito bem”, sublinha.
Maria do Carmo Soares
Seis quilómetros abaixo de Castro Laboreiro, em Alcobaça, as irmãs Duartina e Maria Dias, de 68 e 85 anos, levavam fruta de Portugal para Espanha e de lá traziam peixe, marisco, bananas, vacas e panelas de pressão. “Uma vez ia com as panelas e ao chegar aquelas três casas, um guarda berrou-me. Eu agarrei, larguei as panelas e vim-me embora para casa. Ele bem berrava para mim, mas eu vim para casa!”, lembra a irmã mais nova.
Num país de grandes desigualdades e poucas oportunidades o contrabando na raia não era vergonha, era muitas vezes uma necessidade. Uma forma de sobrevivência. “Eu ganhei para instalar a luz em casa”, recorda Duartina.
Segundo a antropóloga Eduarda Rovisco, “o contrabando era perigoso, de facto". Desde logo porque "era um risco em termos de investimento, mas sobretudo porque houve muitas pessoas que morreram no contrabando, morreram assassinadas pelas autoridades, morreram também muitas pessoas a atravessar ribeiras, rios", acrescenta.
"O número de pessoas que morreu por afogamento era considerável. Depois era arriscado também por causa das prisões", conclui a investigadora.
Nos trilhos da raia tocavam-se duas rotas proibidas, a das mercadorias e a das pessoas.
Maria de Lurdes Durães e o marido eram proprietários de um café em São Gregório, concelho de Melgaço. A camioneta da Rodoviária Nacional parava frente ao estabelecimento e, atrás do balcão, Lurdes fazia a ponte entre quem queria emigrar e o passador.
Muitas vezes, na mesa ao lado do passador, sentava-se o chefe local da PIDE. Nesses casos, Lurdes avisava quem entrava, com o gesto de dois dedos esticados a bater no ombro. “Queria dizer que ali estava alguém com divisas, para terem cuidado”, conta.
Lurdes e o marido, taxista, eram dos poucos com autorização para atravessar a fronteira oficial. Do lado espanhol, esperavam os portugueses e transportavam-nos até Ourense.
Durante o Estado Novo, Portugal controlava a emigração com mão de ferro.
"A emigração era criminalizada. Um passador que era apanhado corria o risco da cadeia. E a vigilância era muito maior. Mais apertada. Até porque aí não estava só em jogo a Guarda Fiscal. A própria PIDE atuava", conta o sociólogo e professor, Albertino Gonçalves.
Maria do Carmo Soares
Ex-contrabandista
Castro Laboreiro, Melgaço
Maria de Lurdes Durães
Ex-contrabandista e ex-passadora
S.Gregório, Melgaço
Maria Dias e Duartina Dias
Ex-contrabandistas
Alcobaça, Melgaço
O produto que mais saia de Portugal para Espanha era o café. “Café era sempre. Iam os homens às vezes com 15/16 quilos e eu com 35. Eu queria ganhar mais dinheiro que eles e queria trazer de comer para os meus filhos”, conta Carmen Pires, residente em Constantim, uma aldeia fronteiriça, do concelho de Miranda do Douro.
“Eu acho que o contrabando deve mesmo ser entendido neste período como uma parte da política colonial portuguesa. Por exemplo, o café, que foi o produto mais contrabandeado chegava à metrópole, a um preço baixíssimo, porque a mão-de-obra angolana era quase escrava. E, de outra forma, Portugal não conseguia escoar uma quantidade tão grande de matéria-prima produzida nas colónias portuguesas”, conta Eduarda Rovisco.
Carmen tem agora 82 anos, começou no contrabando aos dez. “Se não fosse esperta não me tinha desenrascado. Eramos pobres, quem é pobre tem de fazer tudo”, afirma.
Andavam mais de 30 quilómetros a pé e Carmen depressa percebeu que podia rentabilizar o risco e o cansaço das travessias noturnas com a passagem de pessoas. “Oh, passei muitos. Homens e mulheres passei tudo!"
Ganhava entre 250 e 300 escudos por homem e muitas vezes levava mais de dez de uma assentada. Foi apanhada, presa e libertada. Ficou-lhe a fama de valente.
Carmen Pires
O antigo guarda-fiscal Artur Gomes lembra-se de Carmen Pires. Ainda a apanhou “na altura, vinha ela e mais duas pessoas e ainda lhe aplicamos a transgressão da fronteira. Nessa altura, salvo erro, era 1200 escudos”.
Artur é de Paradela, o ponto mais oriental de Portugal, “é onde o sol nasce primeiro”. Com 72 anos, lembra-se de muitas vezes ter deixado passar contrabandistas, “se fossem pessoas que iam lá buscar umas coisas, itens para consumo, claro que a gente às vezes fechava os olhos.”
Conhecia bem as rotas e as técnicas para passar a fronteira. Antes de ser guarda-fiscal, foi, também ele, contrabandista. Começou aos oito anos a ir ao Castro, em Espanha, para comprar bolachas a pedido da professora primária.
Aos 16 anos já levava contrabando pesado, “ia-se em colunas, quatro, cinco ou seis contrabandistas com o fardo do café às costas. Nunca iam juntos. Iam uns aqui, outros 40 ou 50 metros mais à frente, outros mais à frente, porque normalmente (os guardas) saíam ao da frente ou ao segundo. Outros piravam-se como podiam!”
“Era um trabalho duro, muito de escravo. Mas compensava, porque enquanto a jorna, nesse tempo, andava por 50 escudos o dia, nós, numa viagem dessas, que nos levava seis ou sete horas para cada lado, ganhávamos por volta 300 escudos”.
Artur Gomes
Ex-guarda fiscal e ex-contrabandista
Paradela, Miranda do Douro
Beatriz Pires
Paradela, Miranda do Douro
Carmen Pires
Ex-contrabandista e ex-passadora
Constantim, Miranda do Douro
No Baixo Alentejo, na Freguesia de Corte do Pinto, no concelho de Mértola, o rio Chança, um afluente do Guadiana, divide Portugal de Espanha.
“Cheguei a passar com águas aqui ao pescoço”, conta Augusta Dias, com 62 anos. Para a Andaluzia levavam café. Para cá “trazíamos o que as pessoas pediam: azeite, Pedro Domecq, que era um brandy, alpergatas, chocolates, pirex, chouriços.”
A mãe chegou a trazer casacos e calças de ganga “Levi’s”. Com o dinheiro, sustentou a família de 11 filhos.
Escondiam os produtos em meias de vidro, que penduravam aos ombros e amarravam à cintura. Por cima vestiam um casaco largo e, por último, a mochila, “depois era a sorte”. Se encontrassem guardas perdiam apenas a mercadoria da mochila.
A Guarda Fiscal nunca lhes tocou na roupa ou as mandou despir, mas há relatos de abusos noutros locais. “Há um registo mais escondido que tem a ver com as práticas de assédio sexual “, alerta a antropóloga Eduarda Rovisco.
O Manual da Guarda Fiscal de 1959 previa a figura de 'apalpadeira' para inspeção à roupa das mulheres, mas na prática nem sempre era assim que acontecia. “Muitas destas mulheres queixaram-se de práticas que hoje são consideradas gravíssimas, das autoridades portuguesas e espanholas sobre si e sobre os seus corpos.”
Augusta Dias
No extremo leste do Alentejo, Barrancos teve uma grande relevância no contrabando. Filha de contrabandistas, Laura Marina, a irmã e a mãe costuravam coletes com bolsas verticais para esconderem pacotes de café e horizontais para levarem peças de tecido enroladas à cintura.
Se fossem apanhadas pelas autoridades “eles tinham um pau, faziam assim” e faz o gesto do “picar” da vareta na roupa. Se ouviam o plástico das embalagens de café, os guardas ordenavam “Vá! Cá para fora! Tiravam o café e ficávamos sem nada”.
Compravam as mercadorias em comércios dos dois lados da fronteira. Em Espanha vendiam-nos em lojas. Em Barrancos entregavam-nos em casa. Junto com o pão que a mãe cozia ia muitas vezes “toucinho, chouriço, morcilha, banha do porco, várias coisas. Depois começaram a pedir-nos também a pana, que para nós é a bombazina, e toalhas oleadas, que aqui não havia.”
Laura Marina lembra-se de outros produtos, que só havia em Espanha. “A gente gostava sempre de aquele perfume melhorzinho, o Vanderbilt ou Maroussia”, recorda.
A investigadora e antropóloga Eduarda Rovisco sublinha que existia “um leque muito grande de mercadorias que vinham de Espanha nos anos 70 e no final dos anos 60 que a população não teria acesso se não fosse pela via do contrabando".
Incluiam-se, por exemplo, "produtos de higiene pessoal, até perfumaria", por exemplo "champôs, cremes de barbear, até pó de arroz, maquilhagem. Ou seja, há uma série de produtos que entram pela primeira vez nestas aldeias e só entram porque vêm a preços baixíssimos de Espanha.”
O contrabando terminou oficialmente em 1993. Com a criação do mercado único europeu, a Guarda Fiscal foi extinta, os caminhos da raia cobriram-se de mato, as fronteiras tornaram-se pontos de passagem.
António Canhoto
Ex-guarda fiscal
Vila Verde de Ficalho, Serpa
Augusta Dias
Ex-contrabandista
Corte do Pinto, Mértola
Laura Marina
Ex-contrabandista
Barrancos
Maria Cordeiro
“Eu contrabandista? Só ia a levar fruta mais nada.”
Vila Verde de Ficalho, Serpa
O contrabando existe desde que existem taxas alfandegárias. A Guerra Civil Espanhola (1936/39) e a II Guerra Mundial (1939/45) catapultaram o contrabando de exportação português.
O controlo da fronteira terrestre e marítima portuguesa era assegurado pelo corpo da Guarda Fiscal.
O Mercado Único europeu, criado em janeiro de 1993, garantiu a livre circulação de mercadorias e pessoas entre os estados-membros.
Eduarda Rovisco, Antropóloga
Manuel Leal Freire