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Bicicletas em Lisboa. Jovem programou alternativa para escapar aos problemas da aplicação Gira

Bicicletas em Lisboa. Jovem programou alternativa para escapar aos problemas da aplicação Gira

Desde o início do mês que existem duas versões da GIRA: a original e a alternativa. Afonso Hermenegildo, de 19 anos, tomou a iniciativa de corrigir problemas. Agora, centenas de pessoas usam esta versão, embora tenha sido desenvolvida sem o conhecimento da EMEL.

Gonçalo Costa Martins - Antena 1 /
Gonçalo Costa Martins - Antena 1

Cinco meses foi o tempo de incubação da ideia de Afonso Hermenegildo. Foi em maio que o jovem de 19 anos começou a utilizar o sistema municipal de bicicletas partilhadas e, num instante, começou a sentir os problemas da aplicação GIRA.

Ao “ir para todo o lado” nas ‘Giras’, “apercebi-me que aquilo [a aplicação] não é aceitável para um serviço destes”, lamenta Afonso. Sucedem-se os problemas: inícios de sessão que não ficam guardados, bicicletas assinaladas a verde que não surgem na aplicação e pedidos para concluir registos de contas e adesão a passes (embora ambos existam).

“Talvez seria engraçado tentar fazer uma aplicação melhor que a existente e que tivesse coisas novas”, ambicionou Afonso. No início do 2º ano da licenciatura em Sistemas e Tecnologias de Informação, na Universidade Nova de Lisboa, meteu mãos ao teclado para programar uma alternativa.

Em outubro e novembro, conseguiu construir um “caminho” até aos servidores da GIRA, desenvolvendo uma interface onde é possível iniciar sessão e, através dos pontos acumulados e não dos passes, desbloquear bicicletas nas estações.

Uma aplicação útil, mas que desafia a segurança da EMEL
Chama-se mGIRA – Afonso explica que o M é de Melhor, e certo é que os problemas da GIRA original foram contornados. O esforço é reconhecido pela Mubi - Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta.

“Acho que esta iniciativa tem um grande mérito, que é mostrar às entidades responsáveis pela GIRA que é possível fazer um bocadinho melhor e ir mais além”, aponta Herculano Rebordão, um dos dirigentes da Mubi, que considera “anormal” o estado da aplicação. “Efetivamente tem tido muitos problemas”, uns que desaparecem com atualizações do software, outros “que existem desde sempre”, afirma à Antena 1.

A própria Empresa de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa (EMEL) reconhece a existência de “alguns problemas”, sem detalhar quais, apontando como causa o crescimento de rede, entre as bicicletas nova e a integração da rede GIRA no passe Navegante. Ao mesmo tempo, estão a ser preparadas soluções, que passam por um “redesenho completo da aplicação” ligada com a EMEL.



O tal “caminho” construído por Afonso aproveitou algumas aberturas dos servidores da EMEL. “Tecnicamente não é público, mas ao ter uma API implica que está aberto. Não é suposto outras pessoas utilizarem o API deles, não está nada documentado, nada disso, mas eles têm a ‘morada do sistema’. Uma pessoa sabendo disso consegue mandar para lá tudo o que quiser”, diz.

Uma API (interface de programação de aplicação, traduzido para português) permite o acesso a algumas informações. Juntamente com um proxy, uma espécie de servidor intermediário, Afonso conseguiu aceder à rede de estações e bicicletas, juntamente com os nomes de utilizadores e palavras-passe.

“Aquilo passa tudo pela aplicação, não é guardado em lado nenhum. A base de dados é toda da GIRA. Aquilo simplesmente manda o pedido de autenticação ao sistema deles”, assegura o jovem da Lourinhã.

Depois de saber desta aplicação alternativa, a EMEL terá consentido o acesso feito aos seus servidores. “A interação do Afonso com a app da GIRA resultou da atual necessidade de evolução tecnológica da EMEL que assenta numa cultura crescente de interoperabilidade, transparência e inovação”, refere a empresa à Antena 1. Não explica, mesmo depois de questionada, se a mGIRA não representa um uso indevido de informações pessoais ou da rede de estações. Além disso, ela continua ativo, pelo que continua a ser possível interagir com os servidores.

A “boa vontade” de Afonso
Afonso já foi recebido por responsáveis da EMEL: “fizeram advertências quanto ao uso da API, pode implicar riscos ao sistema deles”. No entanto, acredita também que deixaram a “porta aberta” para uma colaboração.

Entre as funcionalidades que acrescentou, estão a possibilidade de desenhar percursos e o acesso a estatísticas de utilização. A mGira já chegou a ter mais de 600 utilizadores neste mês de dezembro, situando-se agora na ordem dos 200.


O especialista em cibersegurança Rodrigo Adão da Fonseca acredita na “boa vontade” de Afonso, mas aponta que deveria ter criado a alternativa em cooperação com a empresa.

“Há aqui pelo menos um período inicial onde a vontade de ser útil para resolver problemas na aplicação levaram-no a utilizar dois mecanismos (API e proxy) que não são adequados” refere à Antena 1.

Por outro lado, e tendo em conta o aparente consentimento da EMEL, “cabe à EMEL decidir se quer ou não acomodar o esforço e até a boa vontade do jovem Afonso”, diz Rodrigo Adão da Fonseca.

A empresa municipal de mobilidade rejeita que estes problemas estejam a afastar os utilizadores, antes pelo contrário: “registamos já o crescimento assinalável nas viagens face ao ano anterior”.




No entanto, Herculano Rebordão, da Mubi, chama a atenção que, se os problemas não forem resolvidos, os utilizadores vão afastar-se.

“Se a pessoa olha para isto como um verdadeiro transporte público... Era como ter o passe, querer entrar num metro ou num autocarro e, às vezes, não dar. O que é provavelmente iria fazer no fim de quando fosse renovar o passe? Se calhar pensava em usar outro sistema de transporte. Acho que com a GIRA também acontece isso”, compara.
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