País
"Candida auris". Fungo resistente e oportunista que se coloniza na pele
As infeções fúngicas provocadas por candida auris têm aumentado nas últimas décadas, tendo-se tornado uma das principais causas de mortalidade em pacientes hospitalizados. A resistência aos medicamentos e até as alterações climáticas são alguns dos fatores apontados pela investigadora Catarina Pimentel para a disseminação deste patógeno oportunista, que foi detetado em Portugal pela primeira vez em 2022, e que pode estar colonizado na nossa pele sem o sabermos.
Investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) estudaram os primeiros casos confirmados em Portugal de infeção por Candida auris, este fungo resistente a medicamentos considerado uma ameaça à saúde pública global. Neste estudo, divulgado esta semana, foram investigados oito casos identificados em 2023, num hospital português, e “nenhuma das três mortes dos casos de infeção invasiva reportados esteve exclusivamente associada à infeção, mas sim a comorbilidades severas dos doentes”.
“Não é a primeira vez que aparece em Portugal”, afirmou Catarina Pimentel em entrevista à RTP, esclarecendo que o “primeiro caso de reporte de candida auris remonta a 2022, num estudo que foi coordenado pelo INSA, onde detetaram a candida auris num doente angolano que tinha vindo para Portugal para fazer transplante hepático”.
Na época, o país estava a enfrentar ainda a pandemia da covid-19, e quando este paciente “chegou a Portugal, na unidade de cuidados intensivos aqui na zona de Lisboa onde foi internado, foi então detetado candida auris”.
Neste doente, o fungo foi detetado numa “lavagem broncoalveolar”. Não se sabendo, por isso, “até que ponto estava colonizado ou estaria a contribuir para o estado desse doente que acabou por falecer”.
O Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge (INSA) esclareceu também, na quinta-feira, que foram confirmados casos de infeção pelo fungo Candida auris entre 2022 e 2025 em amostras clínicas de hospitais públicos do Norte e de Lisboa e Vale do Tejo. Embora a Candida auris não faça parte do conjunto de microrganismos de declaração obrigatória no Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica, o INSA reporta os casos que identifica ao Programa Nacional de Prevenção e Controlo de Infeções e Resistência a Antimicrobianos da Direção-Geral da Saúde (DGS) e, através deste, ao Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC).“Grandes taxas de mortalidade e morbilidade”
A Candida auris é uma levedura que pode colonizar a pele e causar infeções invasivas, principalmente em doentes com fatores de risco, como doenças graves, tratamentos invasivos e uso de cateter ou uso de antibióticos e imunossupressores. É mais frequente em ambientes hospitalares e considerada uma ameaça à saúde pública global, que está já disseminada em vários continentes, atingindo cerca de 60 países.
No estudo divulgado esta semana são relatados oito casos de doentes infetados com candida auris, mas nem todos estavam infetados. Segundo a investigadora líder do laboratório em Biologia Molecular de Leveduras, no ITQB NOVA, “há uma distinção entre infeção e colonização”.
“Desses doentes todos, cinco estavam colonizados e três estariam infetados, porque foi detetado na corrente sanguínea”.
E se a candida auris “chegou à corrente sanguínea, estamos com certeza a falar de uma infeção fúngica invasiva – que está associada (…) a grandes taxas de mortalidade e morbilidade”.
Contudo, a também professora universitária esclareceu que estes doentes “tinham outras doenças” e não há como saber qual foi “a contribuição da candida auris para o evoluir do estado clínico destes doentes” que acabaram por falecer.
A curiosidade, sublinhou Catarina Pimentel, é que até 2022, “Portugal era quase uma ilha no meio da Europa toda”, uma vez que em todo o continente europeu já tinham sido detetados “casos de candida auris”.
Apesar de não se ter reportado nenhum surto, Portugal estava em alerta já antes para o risco de transmissão e infeção por este fungo.Risco de infeção e colonização
A verdade é que muitas pessoas podem ter este fungo colonizado na pele, sem saber, e não estar infetadas.
A infeção, contudo, “pressupõe sempre uma colonização prévia”. A candida auris “prefere a pele e faz parte do nosso microbioma”, ao contrário dos outros géneros de fungos candidas que “preferem o trato gastrointestinal, urinário e vaginal”. E é exatamente por “colonizar a nossa pele”, explicou a investigadora, “que facilmente é transmitida de pessoa para pessoa”.
Este é um dos fatores que “a torna particularmente perigosa, porque existe a possibilidade desta transmissão horizontal - de pessoa para pessoa - o que não acontece com as outras candidas”.
“Além disso, acresce o facto de ser muito resistente não só aos desinfetantes hospitalares, por exemplo, mas também aos próprios modos que os médicos têm para tratar”, acrescentou.
O que faz com que as infeções por candida auris sejam “particularmente alarmantes e possam causar surtos”. Embora a candida auris não seja a única espécie de candida que pode levar a surtos hospitalares.
“A candida auris é especial porque consegue agrupar este conjunto de características que a torna particularmente mais agressiva quando tem possibilidade de infetar. E essa possibilidade de infeção acontece muitas vezes em unidades como os cuidados intensivos, onde os doentes já estão debilitados (…) ou sujeitos a terapias muito drásticas, intensivas, (…) que fazem com que a nossa microbiota seja alterada”.
Ou seja: “as bactérias acabam por morrer e os fungos acabam por crescer e multiplicar-se de uma forma mais descontrolada”.Fungo resistente a medicamentos e desinfetantes
A candida auris não se dissemina no ar, mas por contacto visto que está nas superfícies ou colonizado na pele. Isso explica-se bem pelo facto de uma das características deste género de fungo é resistir e sobreviver muito tempo em superfícies e por ser “resistente às desinfeções também”.
“É um fungo emergente (…). Só em 2009 é que tivemos conhecimento da sua existência. Foi detetada no ouvido de um paciente japonês”, contou a especialista.
Uma das teorias em estudo é a possibilidade de a candida auris existir também no ambiente, visto que também já foi detetada na casca de uma maçã, numa investigação na Índia. A grande questão é como é que foi transmitida para o ser humano.
E uma das linhas de pensamento relaciona a emergência e crescimento deste fungo com as alterações climáticas. “Porque uma das grandes barreiras a que os fungos saltem para o Homem é o facto de os fungos não gostarem de animais de sangue quente”.
É por este motivo que “as infeções fúngicas não são tão prevalentes” nos seres humanos. São, contudo, “muito prevalentes em répteis”, de sangue frio.
“A verdade é que, o que impede os fungos de saltarem para os seres humanos (…), além do nosso sistema imunitário, é a nossa temperatura”, explicou, adiantando que com o aquecimento global, e em particular o aumento das temperaturas, “os fungos que estão no ambiente acabam por se adaptar a temperaturas mais altas”.
E a citar um estudo publicado na revista Lancet, a investigadora recordou que, desde o século XIX, “a temperatura humana tem vindo a diminuir”.
“Cada vez estamos mais frios, porque graças ao avanço da Medicina não precisamos de temperaturas tão altas para nos livrarmos exatamente destes microrganismos”.
Estes fatores em conjunto facilitam a transmissão para o ser humano: “Essa barreira térmica não é tão evidente, ou não é tão forte, e portanto este salto [para o ser humano] é mais fácil”.
Este era um fungo “predominantemente ambiental e que, de repente, consegue saltar para o Homem porque se consegue adaptar a temperaturas mais altas”. Capacidade de adaptação que pode também explicar a própria resistência da candida auris aos antifúngicos e desinfetantes.
Falta de investimento na investigação
Segundo Catarina Pimentel, há um problema no diagnóstico e tratamento das infeções fúngicas, como a provocada pela candida auris: a falta de investimento na investigação para o desenvolvimento de novos antifúngicos e de métodos de deteção.
“Acho que é muito importante apostar nisso”, salientou. “Um dos problemas de tratar infeções fúngicas é que os fungos são muito parecidos connosco, são seres eucariotas – isto quer dizer que, ao passo que é muito fácil, ao nível molecular, encontrar diferenças entre bactérias e células humanas, quando falamos de fungos essa diferença não é assim tão clara”.
“Por isso é que só existem, neste momento, três classes de antifúngicos disponíveis para tratar infeções sérias provocadas por fungos, como esta candida auris no sangue”.
É por causa desta dificuldade que “houve sempre pouco investimento”. Além do mais, não é introduzido no mercado uma nova classe de antifúngicos desde 2006.
Agora este novo estudo publicado pela Universidade do Porto “mostra que todos estes casos isolados de candida auris são resistentes a todas as classes de antifúngicos”. O que significa, que “neste momento não temos como tratar” as infeções fúngicas invasivas provocadas por este patógeno.
Apesar de não haver propriamente um tratamento, há “uma luz ao fundo do túnel”. Estão três em estudo na fase de desenvolvimento clínico, que têm “mecanismos novos de ação”.
“Mas não sabemos ainda se aquilo vai chegar ao mercado”, advertiu a professora.
Demora no diagnóstico dificulta tratamento
“Todas as infeções fúngicas invasivas estão associadas a grandes taxas de mortalidade, principalmente em contexto hospitalar”, começou por explicar quando questionada sobre o método de deteção de infeção, enumerando os fatores que, como internamentos longos, ou utilização de cateteres, “de alguma forma promovem que o fungo passe da pele para dentro do corpo, para o sangue ou afete alguns órgãos”.
“Um dos grandes problemas deste tipo de infeções é que não têm um sintoma específico e são facilmente confundidas com infeções causadas por bactérias. E como as infeções causadas por outros microrganismos são muito mais frequentes, em contexto hospitalar numa infeção fúngica, a primeira coisa que um médico fará é tratar com um antibiótico”.
O problema maior é “como se diagnostica”, porque os “métodos de diagnóstico são muito morosos”.
“Mesmo que um médico suspeite de uma infeção fúngica, a amostra tem de ir para laboratório e só passado 48 a 72 horas é que temos o resultado e confirmação de que é um fungo. (…) Quando um doente tem uma infeção fúngica invasiva, estas 72 horas são muito tempo. Às vezes é o suficiente entre salvar e não salvar, ou para a terapia ter sucesso ou não”.
Depois de identificado o tipo de infeção, é necessário ainda fazer um antifungigrama para “perceber se é efetivamente resistente ao antifúngico”.
“Estes tempos todos de demora fazem com que, muitas vezes, seja tarde demais. Isto é um dos fatores que está associado às elevadas taxas de mortalidade”, confessou.
Como prevenir?
Qualquer fungo do género candida é um “fungo oportunista”, que “utiliza as morbilidades do hospedeiros em seu próprio proveito”.
A maior parte da população está colonizada com candida albicans, por exemplo, “e nunca vai desenvolver uma doença ou ter uma infeção fúngica invasiva”, mas existem grupos considerados de risco, nomeadamente de pessoas que estão mais debilitadas, imunocomprometidas, em tratamentos com cateteres – que é uma forma do microrganismo entrar no corpo humano.
O desafio talvez seja a prevenção da disseminação e das infeções.
“Seria interessante saber se um doente, a partir do momento em que entra no hospital, está colonizado ou não com candida auris”, considerou Catarina Pimentel.
E em caso de estar colonizado, podia eventualmente isolar-se esse doente, “porque o problema é que se transmite de pessoa por pessoa e facilmente pode levar a um surto”.
Além das regras básicas da higiene e da limpeza das superfícies, “tem de haver maior controlo” e verificar se os doentes estão infetados, ou pelo menos colonizados.
“Se calhar não estávamos ainda em alerta para candida auris ou nunca íamos ver se o doente estava colonizado”, mas a investigadora acredita que a prevenção “deve passar por aí também, em unidades onde este tipo de infeções é mais prevalente”.
“Não é a primeira vez que aparece em Portugal”, afirmou Catarina Pimentel em entrevista à RTP, esclarecendo que o “primeiro caso de reporte de candida auris remonta a 2022, num estudo que foi coordenado pelo INSA, onde detetaram a candida auris num doente angolano que tinha vindo para Portugal para fazer transplante hepático”.
Na época, o país estava a enfrentar ainda a pandemia da covid-19, e quando este paciente “chegou a Portugal, na unidade de cuidados intensivos aqui na zona de Lisboa onde foi internado, foi então detetado candida auris”.
Neste doente, o fungo foi detetado numa “lavagem broncoalveolar”. Não se sabendo, por isso, “até que ponto estava colonizado ou estaria a contribuir para o estado desse doente que acabou por falecer”.
O Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge (INSA) esclareceu também, na quinta-feira, que foram confirmados casos de infeção pelo fungo Candida auris entre 2022 e 2025 em amostras clínicas de hospitais públicos do Norte e de Lisboa e Vale do Tejo. Embora a Candida auris não faça parte do conjunto de microrganismos de declaração obrigatória no Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica, o INSA reporta os casos que identifica ao Programa Nacional de Prevenção e Controlo de Infeções e Resistência a Antimicrobianos da Direção-Geral da Saúde (DGS) e, através deste, ao Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC).“Grandes taxas de mortalidade e morbilidade”
A Candida auris é uma levedura que pode colonizar a pele e causar infeções invasivas, principalmente em doentes com fatores de risco, como doenças graves, tratamentos invasivos e uso de cateter ou uso de antibióticos e imunossupressores. É mais frequente em ambientes hospitalares e considerada uma ameaça à saúde pública global, que está já disseminada em vários continentes, atingindo cerca de 60 países.
No estudo divulgado esta semana são relatados oito casos de doentes infetados com candida auris, mas nem todos estavam infetados. Segundo a investigadora líder do laboratório em Biologia Molecular de Leveduras, no ITQB NOVA, “há uma distinção entre infeção e colonização”.
“Desses doentes todos, cinco estavam colonizados e três estariam infetados, porque foi detetado na corrente sanguínea”.
E se a candida auris “chegou à corrente sanguínea, estamos com certeza a falar de uma infeção fúngica invasiva – que está associada (…) a grandes taxas de mortalidade e morbilidade”.
Contudo, a também professora universitária esclareceu que estes doentes “tinham outras doenças” e não há como saber qual foi “a contribuição da candida auris para o evoluir do estado clínico destes doentes” que acabaram por falecer.
A curiosidade, sublinhou Catarina Pimentel, é que até 2022, “Portugal era quase uma ilha no meio da Europa toda”, uma vez que em todo o continente europeu já tinham sido detetados “casos de candida auris”.
Apesar de não se ter reportado nenhum surto, Portugal estava em alerta já antes para o risco de transmissão e infeção por este fungo.Risco de infeção e colonização
A verdade é que muitas pessoas podem ter este fungo colonizado na pele, sem saber, e não estar infetadas.
A infeção, contudo, “pressupõe sempre uma colonização prévia”. A candida auris “prefere a pele e faz parte do nosso microbioma”, ao contrário dos outros géneros de fungos candidas que “preferem o trato gastrointestinal, urinário e vaginal”. E é exatamente por “colonizar a nossa pele”, explicou a investigadora, “que facilmente é transmitida de pessoa para pessoa”.
Este é um dos fatores que “a torna particularmente perigosa, porque existe a possibilidade desta transmissão horizontal - de pessoa para pessoa - o que não acontece com as outras candidas”.
“Além disso, acresce o facto de ser muito resistente não só aos desinfetantes hospitalares, por exemplo, mas também aos próprios modos que os médicos têm para tratar”, acrescentou.
O que faz com que as infeções por candida auris sejam “particularmente alarmantes e possam causar surtos”. Embora a candida auris não seja a única espécie de candida que pode levar a surtos hospitalares.
“A candida auris é especial porque consegue agrupar este conjunto de características que a torna particularmente mais agressiva quando tem possibilidade de infetar. E essa possibilidade de infeção acontece muitas vezes em unidades como os cuidados intensivos, onde os doentes já estão debilitados (…) ou sujeitos a terapias muito drásticas, intensivas, (…) que fazem com que a nossa microbiota seja alterada”.
Ou seja: “as bactérias acabam por morrer e os fungos acabam por crescer e multiplicar-se de uma forma mais descontrolada”.Fungo resistente a medicamentos e desinfetantes
A candida auris não se dissemina no ar, mas por contacto visto que está nas superfícies ou colonizado na pele. Isso explica-se bem pelo facto de uma das características deste género de fungo é resistir e sobreviver muito tempo em superfícies e por ser “resistente às desinfeções também”.
“É um fungo emergente (…). Só em 2009 é que tivemos conhecimento da sua existência. Foi detetada no ouvido de um paciente japonês”, contou a especialista.
Uma das teorias em estudo é a possibilidade de a candida auris existir também no ambiente, visto que também já foi detetada na casca de uma maçã, numa investigação na Índia. A grande questão é como é que foi transmitida para o ser humano.
E uma das linhas de pensamento relaciona a emergência e crescimento deste fungo com as alterações climáticas. “Porque uma das grandes barreiras a que os fungos saltem para o Homem é o facto de os fungos não gostarem de animais de sangue quente”.
É por este motivo que “as infeções fúngicas não são tão prevalentes” nos seres humanos. São, contudo, “muito prevalentes em répteis”, de sangue frio.
“A verdade é que, o que impede os fungos de saltarem para os seres humanos (…), além do nosso sistema imunitário, é a nossa temperatura”, explicou, adiantando que com o aquecimento global, e em particular o aumento das temperaturas, “os fungos que estão no ambiente acabam por se adaptar a temperaturas mais altas”.
E a citar um estudo publicado na revista Lancet, a investigadora recordou que, desde o século XIX, “a temperatura humana tem vindo a diminuir”.
“Cada vez estamos mais frios, porque graças ao avanço da Medicina não precisamos de temperaturas tão altas para nos livrarmos exatamente destes microrganismos”.
Estes fatores em conjunto facilitam a transmissão para o ser humano: “Essa barreira térmica não é tão evidente, ou não é tão forte, e portanto este salto [para o ser humano] é mais fácil”.
Este era um fungo “predominantemente ambiental e que, de repente, consegue saltar para o Homem porque se consegue adaptar a temperaturas mais altas”. Capacidade de adaptação que pode também explicar a própria resistência da candida auris aos antifúngicos e desinfetantes.
Falta de investimento na investigação
Segundo Catarina Pimentel, há um problema no diagnóstico e tratamento das infeções fúngicas, como a provocada pela candida auris: a falta de investimento na investigação para o desenvolvimento de novos antifúngicos e de métodos de deteção.
“Acho que é muito importante apostar nisso”, salientou. “Um dos problemas de tratar infeções fúngicas é que os fungos são muito parecidos connosco, são seres eucariotas – isto quer dizer que, ao passo que é muito fácil, ao nível molecular, encontrar diferenças entre bactérias e células humanas, quando falamos de fungos essa diferença não é assim tão clara”.
“Por isso é que só existem, neste momento, três classes de antifúngicos disponíveis para tratar infeções sérias provocadas por fungos, como esta candida auris no sangue”.
É por causa desta dificuldade que “houve sempre pouco investimento”. Além do mais, não é introduzido no mercado uma nova classe de antifúngicos desde 2006.
Agora este novo estudo publicado pela Universidade do Porto “mostra que todos estes casos isolados de candida auris são resistentes a todas as classes de antifúngicos”. O que significa, que “neste momento não temos como tratar” as infeções fúngicas invasivas provocadas por este patógeno.
Apesar de não haver propriamente um tratamento, há “uma luz ao fundo do túnel”. Estão três em estudo na fase de desenvolvimento clínico, que têm “mecanismos novos de ação”.
“Mas não sabemos ainda se aquilo vai chegar ao mercado”, advertiu a professora.
Demora no diagnóstico dificulta tratamento
“Todas as infeções fúngicas invasivas estão associadas a grandes taxas de mortalidade, principalmente em contexto hospitalar”, começou por explicar quando questionada sobre o método de deteção de infeção, enumerando os fatores que, como internamentos longos, ou utilização de cateteres, “de alguma forma promovem que o fungo passe da pele para dentro do corpo, para o sangue ou afete alguns órgãos”.
“Um dos grandes problemas deste tipo de infeções é que não têm um sintoma específico e são facilmente confundidas com infeções causadas por bactérias. E como as infeções causadas por outros microrganismos são muito mais frequentes, em contexto hospitalar numa infeção fúngica, a primeira coisa que um médico fará é tratar com um antibiótico”.
O problema maior é “como se diagnostica”, porque os “métodos de diagnóstico são muito morosos”.
“Mesmo que um médico suspeite de uma infeção fúngica, a amostra tem de ir para laboratório e só passado 48 a 72 horas é que temos o resultado e confirmação de que é um fungo. (…) Quando um doente tem uma infeção fúngica invasiva, estas 72 horas são muito tempo. Às vezes é o suficiente entre salvar e não salvar, ou para a terapia ter sucesso ou não”.
Depois de identificado o tipo de infeção, é necessário ainda fazer um antifungigrama para “perceber se é efetivamente resistente ao antifúngico”.
“Estes tempos todos de demora fazem com que, muitas vezes, seja tarde demais. Isto é um dos fatores que está associado às elevadas taxas de mortalidade”, confessou.
Como prevenir?
Qualquer fungo do género candida é um “fungo oportunista”, que “utiliza as morbilidades do hospedeiros em seu próprio proveito”.
A maior parte da população está colonizada com candida albicans, por exemplo, “e nunca vai desenvolver uma doença ou ter uma infeção fúngica invasiva”, mas existem grupos considerados de risco, nomeadamente de pessoas que estão mais debilitadas, imunocomprometidas, em tratamentos com cateteres – que é uma forma do microrganismo entrar no corpo humano.
O desafio talvez seja a prevenção da disseminação e das infeções.
“Seria interessante saber se um doente, a partir do momento em que entra no hospital, está colonizado ou não com candida auris”, considerou Catarina Pimentel.
E em caso de estar colonizado, podia eventualmente isolar-se esse doente, “porque o problema é que se transmite de pessoa por pessoa e facilmente pode levar a um surto”.
Além das regras básicas da higiene e da limpeza das superfícies, “tem de haver maior controlo” e verificar se os doentes estão infetados, ou pelo menos colonizados.
“Se calhar não estávamos ainda em alerta para candida auris ou nunca íamos ver se o doente estava colonizado”, mas a investigadora acredita que a prevenção “deve passar por aí também, em unidades onde este tipo de infeções é mais prevalente”.