Caretos, matrafonas e facanitos mantêm samba longe de Trás-os-Montes

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Os "caretos", de máscaras de ferro e chocalhos à cintura, invadem este fim-de-semana as ruas de muitas localidades transmontanas, protagonizando um Carnaval de raízes pagãs, que resiste à importação do samba e da festa brasileira.

Os desfiles diabólicos de "caretos", "matrafonas" e "facanitos", as "pulhas casamenteiras" e as "leituras de testamentos" ou "papeladas", representam o mais genuíno das tradições do Entrudo em Trás-os-Montes, disse hoje à Lusa o investigador de literatura oral Alexandre Parafita.

As personagens principais deste Carnaval são os típicos "caretos", figuras cuja identidade ou sexo se desconhece, de tal modo se encontram fantasiadas, que cantam, dançam e fazem "diabrices" nos cafés e espaços públicos.

Em Trás-os-Montes e Alto Douro, os mais conhecidos são os caretos de Podence, concelho de Macedo de Cavaleiros, ou os caretos que, em Lazarim, concelho de Lamego, colocam as ancestrais máscaras, esculpidas pelos artesãos locais em madeira de amieiro.

Em Podence, os rapazes, vestidos com os seus fatos de franjas de cores garridas, máscaras de lata e chocalhos à cintura, percorrem todos os cantos da aldeia, entram e saem pelas janelas das casas e alpendres, trepam aos telhados, em buscam das raparigas solteiras que arrastam para a rua ensaiando com elas rituais eróticos.

Os caretos lançam água, farinha, o que tiverem à mão e não largam as mulheres, novas e menos jovens, que nem por isso repudiam tão diabólicas figuras.

Alexandre Parafita explicou que as mulheres, caso não queiram entrar neste "jogo" só têm uma solução: vestem-se de "matrafonas" (mascaradas como eles) e saem também para a rua, onde estarão imunes às investidas dos rapazes.

O cortejo completa-se com os "facanitos", ou seja os mais pequenos da aldeia que, mascarados de mafarricos, acompanham os adultos, cumprindo o seu próprio ritual de iniciação e garantindo a continuidade da tradição.

O investigador disse ainda que as "pulhas casamenteiras" são mais próprias do Sul da região transmontana.

Trata-se de tradições nocturnas, cumpridas nos sítios elevados das aldeias, onde os rapazes disfarçados, com o auxílio de um funil dos tonéis, entoam as suas sentenças, em verso, "casando este com aquela", geralmente os "encalhados" da povoação e sempre num jeito de severa crítica social.

O investigador salientou que esta crítica social também se pode encontrar nas "leituras dos testamentos", que no concelho de Vinhais são denominadas de "papeladas", tradições mais próprias das aldeias do Norte de Trás-os-Montes.

Habitualmente, simula-se a morte de um burro ou de um galo e, depois, dois ou três rapazes mascarados sobem a um palco improvisado e ditam o testamento do animal, perante os ouvidos atentos de cada vizinho, que aguarda, ansioso e perplexo, a parte do "defunto" que lhe tocará.

Em outras localidades, como em Agarez, concelho de Vila Real, o "Enterro do Entrudo" sai também às ruas na noite de terça-feira de Carnaval, uma tradição antiga, através da qual a população transgride a ordem e, sem preconceitos, critica a sociedade.

Como num Auto de Fé, um "arcebispo", um "monge", um "vigário", o "padroeiro" e dois "cónegos" precedem o caixão (uma urna com um boneco dentro) do "defunto", que será seguido por um grande número de populares que se mostrarão sensibilizados pela morte do Entrudo.

Perante toda a assistência será constituído um tribunal, através do qual serão apresentadas as sentenças do "defunto".

A mensagem do Entrudo, divulgada através do padroeiro, tem como principal objectivo o choque e a provocação do riso.

O Enterro do Entrudo representa o fim do Carnaval e antecede a quarta-feira de Cinzas, altura em que começa um período de contenção e preparação da morte de Cristo.

Segundo Alexandre Parafita, as festas do Entrudo fazem parte de um "tempo excepcional e têm uma função transgressora, libertadora e, em muitas circunstâncias, iniciática".

"Trata-se de um tempo limitado, mas intenso, em que tudo é permitido, um tempo de ruptura das proibições, que se opõe aos constrangimentos da Quaresma que se avizinha", sublinhou o investigador.

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