Carlos Carvalhas abandona liderança do PCP após 12 anos
Carlos Carvalhas anunciou hoje, nos Açores, que vai abandonar a liderança do PCP no próximo congresso do partido, em Novembro, depois de 12 anos como secretário-geral dos comunistas, por não querer "eternizar-se no lugar".
"As razões são simples, 12 anos como secretário-geral, mais dois anos como secretário-geral adjunto. São 14 anos. Não se trata de divergências nem de cansaço", explicou Carvalhas no Faial, onde se deslocou no âmbito da campanha eleitoral para as eleições legislativas regionais de 17 de Outubro.
O anúncio desta decisão estava previsto para mais tarde, mas, segundo o gabinete de imprensa do partido, foi precipitado pela manchete de hoje do jornal A Capital, que anunciava que "Carlos Carvalhas renuncia ao cargo de secretário-geral do PCP".
Carvalhas disse ainda que a decisão de abandonar o cargo no XVII Congresso do partido, que se realiza de 26 a 28 de Novembro, em Almada, já tinha sido comunicada aos órgãos executivos do partido no início do ano.
No seu entender, é necessário que o próximo Congresso do PCP faça um "significativo rejuvenescimento e renovação de quadros a todos os níveis: Comité Central e órgãos executivos".
Diversos dirigentes do PCP contactados pela Lusa confirmaram que está em curso um processo de auscultação e consulta a membros do Comité Central do partido sobre a substituição do secretário-geral, com o deputado Jerónimo de Sousa a ser apontado como "possível ou provável" sucessor de Carlos Carvalhos.
Contactados pela Agência Lusa, dirigentes do PSD, PS, CDS-PP e Bloco de Esquerda escusaram-se a comentar o anúncio de Carvalhas, mas saudaram a sua forma de estar na vida democrática.
"O conhecimento que tenho de Carlos Carvalhas é de anos passados no Parlamento em que manteve sempre a coerência e a defesa dos seus valores, apesar de estes serem opostos aos que o PSD defende", disse Miguel Relvas, secretário-geral dos sociais- democratas.
"Não nos imiscuímos na vida interna de outros partidos, mas quero cumprimentar, em nome do PS, Carlos Carvalhas pelo contributo que nos últimos doze anos deu à vida política e pública portuguesa", afirmou, por seu lado, António José Seguro, líder parlamentar do PS.
Já o porta-voz do CDS-PP Guilherme Magalhães fez questão de deixar "uma palavra de apreço pessoal" a Carlos Carvalhas.
O Bloco de Esquerda recusou-se a tecer qualquer comentário sobre esta matéria.
A saída de Carvalhas motivou entretanto diferentes leituras de antigos dirigentes do PCP.
Para Edgar Correia, do Movimento de Renovação Comunista, o abandono do secretário-geral foi imposto pela direcção central do partido e não corresponde à vontade de Carlos Carvalhas.
"Foi imposta pelo grupo que há muitos anos controla o PCP.
Carlos Carvalhas cedeu a pressões da linha dura, na altura das perseguições por delito de opinião, mas isso só conseguiu adiar a sua expulsão (de Carvalhas)", afirmou Edgar Correia.
O ex-dirigente da comissão política do PCP, expulso do partido em 2002, considerou que a liderança de Carvalhas estava "esgotada", mesmo para a "linha dura".
Para renovador João Semedo, a decisão "é mais uma expressão do isolamento e das dificuldades" que o partido atravessa.
"A sua saída já era esperada. É mais uma expressão de isolamento e das dificuldades que o PCP atravessa, nomeadamente quando se está a iniciar um novo ciclo eleitoral, com autárquicas, presidenciais e legislativas", disse.
Quando anunciou a sua decisão, Carvalhas admitiu que esta pudesse ter repercussões negativas no seio do partido, gerando o "relançamento de intrigas e especulações sobre a vida interna e a situação do PCP".
"Confio, porém, que os militantes do PCP e a generalidade dos portugueses que segue com apreço a luta do PCP enfrentem com serenidade e racionalidade política esta questão", frisou.
Carlos Alberto do Vale Gomes Carvalhas nasceu em 1942 em São Pedro do Sul, Viseu. A 04 de Dezembro de 1992, sucedeu a Álvaro Cunhal, que liderava o PCP desde 1961.
Nos seus 12 anos de liderança, marcados pela moderação de posições, Carvalhas tentou fazer a ponte entre "ortodoxos" e "renovadores" sem a "descaracterização" do partido.