Corpo de António Feio em câmara ardente

O corpo de António Feio está a partir das 18h30 em câmara ardente no Palácio das Galveias, em Lisboa. O funeral realiza-se amanhã, às 16h, para o Cemitério dos Olivais. O actor e encenador morreu, ontem, aos 55 anos, após um ano a lutar contra um cancro no pâncreas. Os artistas com quem António Feio trabalhou, entre os quais José Pedro Gomes, apontam-lhe o talento, a personalidade generosa e o entusiasmo.

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António Feio é considerado pela comunidade artística "uma referência" do teatro, devido à sua acção como actor e encenador RTP

António Feio "contribuiu muito para que o teatro voltasse a encontrar-se com o público", comentou o actor e amigo José Pedro Gomes. A dupla tornou-se reconhecida pelo grande público quando, em "Conversa da Treta" - onde era também encenador -, satirizava os hábitos da sociedade portuguesa.

A parceria, formada em 1993 com "Inox-Take 5", teve outros encontros em "O Que Diz Molero" (Diniz Machado), "Arte" (Yasmina Reza), "Dois Amores"(Ray Connery) e "Jantar de Idiotas" (Francis Veber).

Com a partilha destas experiências, surgiu "uma amizade muito forte e uma grande cumplicidade" que permitiu "um entendimento precioso".

Na perspectiva do humorista Herman José, este entendimento era "como um só organismo". Sobre a unidade entre António Feio e José Pedro Gomes, o presidente da Sociedade Portuguesa de Autores considera-a determinante porque "ajudou muitos jovens a irem ao teatro".

"O teatro português perde um dos seus actores mais versáteis e também um encenador muito experiente e inspirado", diz José Jorge Letria, que descreve a comédia praticada por António Feio como "moderna, ágil, de costumes, muito virada também para o 'nonsense', para o jogo com a linguagem do quotidiano, coisa que aconteceu muito com a 'Conversa da Treta'".

Estreia no teatro aos 11 anos

Os primeiros passos nos palcos foram dados pela mão da mãe, em Moçambique, de onde é natural. A carreira no teatro teve início em 1966, com a participação em "O Mar", no Teatro Experimental de Cascais (TEC) de Carlos Avillez.

"Era um miúdo muito simpático, com um grande sorriso, que manteve sempre", e que logo na estreia "obteve grandes ovações do público", recorda Carlos Avillez, que continuou a acompanhar a carreira de António Feio mesmo após este ter abandonado o TEC.

Fundador do Teatro Aquarius e da Cooperativa de Comediantes Rafael de Oliveira, António Feio integra o Teatro Popular-Companhia Nacional I, dirigida por Ribeirinho, seguindo-se o Teatro S.Luiz, o Teatro Adoque e o Teatro ABC. Na Casa da Comédia, teve a sua primeira experiência de encenação ao dirigir a peça "Pequeno Rebanho não Descanses", de Christian Giudicelli. Teve ainda incursões no Centro de Arte Moderna, Teatro Aberto, Teatro Variedades, Teatro Nacional D. Maria II e Teatro Villaret.

Em paralelo, António Feio dirige cursos de formação de actores e, com os seus alunos, forma grupos como "O Esquerda Baixa" e "Pano de Ferro".

O seu "talento inusitado, quer como actor quer como encenador", que fazem de António Feio "uma referência" no teatro português, são qualidades apontadas por António Reis, da companhia Seiva Trupe, no Porto, onde António Feio apresentou em Maio "Homens de Escabeche".

"Perdemos um homem muito novo, com muita qualidade e com muito para dar", um "homem bom, sério, dedicado, com um humor elegante", na perspectiva de António Reis. O actor e encenador vai fazer "muita falta ao teatro português", conclui.

"Um protagonista natural" de teatro, televisão e cinema

A actriz Ana Bola descreve António Feio como um "protagonista natural" e sublinha o "legado considerável que ficará para sempre na História do Humor" em Portugal.

"Ele era um tipo sem mácula, incapaz de criar uma situação mais complicada aos outros. Era um excelente colega, sem necessidade de protagonismo porque ele era um protagonista natural", disse a actriz que trabalhou com António Ferio em programas televisivos de humor como "Os Bonecos da Bola".

Tinha "um extraordinário sentido de humor e uma capacidade rara de se entusiasmar com as coisas, principalmente neste país tão difícil", acrescenta Ana Bola, que prefere sublinhar "o privilégio" que foi conhecer António Feio.

"Todos nós quisemos acreditar que ele iria mesmo 'matar o bicho', como ele dizia. Infelizmente foi o bicho que o matou, e prematuramente. Ele tinha ainda muito para fazer", concluiu. "O bicho", como António Feio se referia à doença que o atacava, foi combatido com humor. "Se pudesse, matava o bicho a rir", dizia numa das primeiras declarações públicas sobre o seu estado de saúde.

"O melhor trio do mundo"

António Feio, José Pedro Gomes e Miguel Guilherme protagonizaram "o melhor trio do mundo", num programa de Joaquim Letria, em finais dos anos 90. É desta forma que Nuno Artur Silva, autor de vários textos interpretados por Feio, descreve a sua primeira incursão em televisão.

"O António foi cedo demais", lamenta o responsável pela Produções Fictícias, sublinhando que António Ferio "era um tipo muito activo e pôs tantas gente a fazer coisas tão boas".

Nuno Artur Silva considera "injusto" que "tenha sido tirada" a António Feio "a possibilidade de fazer o que ele fazia tão bem, que era, sobretudo, dirigir pessoas, encenar peças e entrar nelas e fazer isto tudo com um grande sentido de humor com grande simplicidade, sem complicar".

Uma manifestação da simplicidade do actor foi a mensagem sobre a força da vida, deixado após o pré-visionamento do filme "Contraluz", de Fernando Fragata.



O argumentista destaca, entre as várias colaborações, com António Feio o trabalho na peça "O que diz Molero'. "Por isto, e por muito mais coisas, hoje é um dia particularmente triste", disse Nuno Artur Silva.

Políticos lamentam "enorme vazio"

O Presidente da República destaca as "elevadas qualidades humanas e artísticas" de António Ferio, "que lhe granjearam o respeito de todos os que acompanharam o seu percurso pessoal e profissional".

Na mensagem de condolências à família, Cavaco Silva refere que a morte do actor e encenador "deixa um enorme vazio entre todos os que se habituaram a conviver com ele" e nota a "forma como influenciou as novas gerações de actores, se transformou numa figura incontornável do teatro, cinema e televisão em Portugal, ganhando ao longo dos anos a estima de todos os Portugueses".

Cavaco Silva concedeu-lhe, em Março, o grau honorífico de comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

"O humor é uma das formas mais difíceis da actividade teatral. Só alguém com uma inteligência muito particular e uma sensibilidade muito particular tem sucesso no humor", afirmou a ministra da Cultura. Gabriela Canavilhas lamenta a morte "tão prematura" do actor que "tinha muito para dar ao teatro português", mas com uma "relação franca e próxima dos espectadores".

"É um momento de grande pesar para todos nós do meio cultural e em especial do meio teatral e também para os espectadores que se habituaram a ver no António Feio alguém muito próximo", concluiu.

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