Diretor de Informação da RTP demite-se face a polémica sobre imagens de manifestação
Nuno Santos apresentou ontem o pedido de demissão do cargo de diretor de Informação da RTP. Em causa, segundo um comunicado do Conselho de Administração da estação pública, está a alegada cedência de imagens da manifestação do passado dia 14 de novembro, frente ao Parlamento, “a elementos estranhos à empresa”, que poderão ter estado “dentro das suas instalações”. O diretor demissionário afirma que “nenhuma imagem saiu das instalações da RTP” e que não teve “qualquer intervenção direta” ou autorizou “de forma expressa ou velada a cópia de quaisquer imagens”. Manifestando-se “surpreendido” com a demissão, o Conselho de Redação já veio condenar “qualquer cópia de brutos de imagens jornalísticas não editadas”. A Comissão de Trabalhadores expressou preocupação com a possibilidade de as imagens terem sido entregues à polícia.
O regresso à empresa pública de rádio e televisão ocorreu depois da saída dos jornalistas José Alberto Carvalho, ex-diretor de Informação da RTP, e de Judite de Sousa, à data diretora-adjunta, para a TVI.
Na mesma nota, citada pela agência Lusa, o Conselho de Administração sublinha que “não foi consultado ou sequer informado, nem sobre qualquer pedido, nem sobre a presença de elementos estranhos à empresa dentro das suas instalações”. Para apurar os factos, a cúpula da estação pública pôs já em marcha um inquérito.
“A confirmar-se, em sede de inquérito, a ocorrência destes factos, o Conselho de Administração considera que os mesmos consubstanciam uma ação abusiva, uma quebra grave das responsabilidades inerentes à cadeia hierárquica da empresa”, prossegue o mesmo comunicado, para acrescentar que pode estar em causa “uma violação dos direitos, liberdades e garantias, com consequências nefastas para a credibilidade e idoneidade da produção informativa da RTP, pondo em causa a confiança do Conselho de Administração na lealdade e isenção dos responsáveis da Direção de Informação”.
A Administração da RTP enfatiza ainda que o inquérito “correrá os seus trâmites e dele decorrerá a abertura de eventuais processos disciplinares que se venham a justificar”.
“De consciência tranquila”
Num texto enviado ao início da noite à redação da RTP, Nuno Santos sublinha que a sua demissão “é irreversível” e reitera “de forma categórica” que “nenhuma imagem saiu das instalações” da empresa.
“Nos últimos dias efetuei um conjunto de contactos informais e uma reunião com o Conselho de Redação enquanto órgão representativo dos jornalistas. Reuni também com a Comissão de Trabalhadores. Aos dois órgãos, e no plano da competência de cada um deles, prestei todos os esclarecimentos que me foram pedidos sobre uma hipotética entrega a entidades externas à RTP de imagens não exibidas (vulgarmente denominadas como brutos) dos incidentes do passado dia 14 de novembro em frente ao Parlamento”, lê-se na nota do diretor de Informação demissionário.
“Nessas reuniões garanti – e reafirmo de forma categórica – que nenhuma imagem saiu das instalações da RTP. Respondi de forma clara a todas as questões e apresentei um conjunto de factos complementares entendidos e aceites pelas partes que deram o assunto como encerrado”, escreve Nuno Santos.
“Este processo”, acrescenta o jornalista, “abalou a relação de confiança com o Conselho de Administração a quem expressei a minha profunda discordância com o clima de suspeição instalado antes mesmo da abertura de qualquer processo de inquérito”.
“Na minha condição de diretor de Informação não tive qualquer intervenção direta nem autorizei de forma expressa ou velada a cópia de quaisquer imagens. No entanto e como líder da equipa entendo que, se não existe confiança na Direção de Informação, devo assumir por inteiro as minhas responsabilidades. Não há, nestas alturas, dois caminhos e nesse sentido renunciei ao cargo”, vinca Nuno Santos, para afirmar, adiante, que sai “de consciência tranquila”.
Conselho de Redação “surpreendido”
O Conselho de Redação da RTP já emitiu também um comunicado sobre este caso, dizendo-se “surpreendido” com a demissão de Nuno Santos, mas também com o teor da nota do Conselho de Administração. O órgão “condena qualquer cópia de brutos de imagens jornalísticas não editadas da reportagem dos jornalistas da RTP”. E frisa que “as imagens recolhidas pelas equipas de reportagem da RTP servem apenas para uso profissional e exclusivo dos jornalistas da RTP e não podem ser cedidas ou visionadas por mais ninguém”.
“O Conselho de Redação foi alertado ao final da tarde de quinta-feira, dia 15 de novembro, para um extenso pedido de cópia dos brutos de reportagem da manifestação de 14 de novembro frente à Assembleia da República”, adianta o comunicado. “Nesse mesmo dia”, esclarece o Conselho de Redação, foram pedidas explicações “por escrito” ao diretor de Informação, que, na resposta, negou a cedência de quaisquer imagens.
Na passada sexta-feira, dois elementos do Conselho de Redação e outros dois membros da Comissão Trabalhadores estiveram reunidos com o diretor-adjunto de Informação, Vítor Gonçalves, que voltaria a garantir que “nenhuma cópia dos brutos de reportagem tinha saído para o exterior da RTP”. Luís Castro, subdiretor de Informação, esteve também presente nessa reunião.
“O CR questionou ainda o DI acerca da razão que levou a que o pedido de imagens fosse relativo a todos os brutos de reportagem. O DI admitiu ter havido excesso de zelo no pedido e voltou a insistir que nenhuma imagem saiu da RTP”, adianta o comunicado do Conselho de Redação.
“O CR aceitou as explicações do DI e deu a questão por encerrada”, acrescenta o mesmo texto.
O Conselho de Redação voltaria a reunir-se na segunda-feira com a Direção de Informação, desta feita com a presença de Nuno Santos. De quem recebeu, uma vez mais, “as várias garantias dadas ao longo dos dias” de que “as imagens nunca saíram da RTP”.
Nuno Santos, lê-se no comunicado do Conselho de Redação, “explicou que o pedido de imagens visava apenas salvaguardar eventual matéria probatória que, mais tarde, poderia vir a ser utilizada numa queixa motivada por danos causados num carro de reportagem durante a manifestação”.
“Ao longo deste processo, o CR falou com a Direção de Informação, com a Comissão de Trabalhadores e com o Sindicato dos Jornalistas, no sentido de ser encontrado um esclarecimento absoluto da situação, sob pena de poderem vir a ser colocados em causa a integridade física dos profissionais da RTP e o livre exercício da atividade jornalística”, salienta ainda o Conselho de Redação, que diz, por último, esperar “um desfecho célere deste processo e que seja assegurada a manutenção dum jornalismo Livre, Independente e Plural que tem sido imagem de marca da RTP, reconhecida por diversos sectores da sociedade”.
“Princípios deontológicos em causa”
Ouvida pela Lusa, a Comissão de Trabalhadores da RTP manifestou o receio de que a Direção de Informação possa ter cedido à PSP horas de imagens não editadas da manifestação de 14 de novembro. Algo que foi negado no passado sábado pelo diretor-adjunto de Informação. O jornalista Vítor Gonçalves dizia então à mesma agência de notícias que “nenhuma imagem” saíra, ou viria a sair, da RTP. E que o pedido da Direção de Informação para a gravação de um par de DVD com duas horas e 45 minutos de imagens não emitidas seria “uma salvaguarda” para uma eventual queixa da empresa em tribunal, por causa de danos a uma viatura de reportagem.
À Lusa, Camilo Azevedo, porta-voz da Comissão de Trabalhadores, sustentou que uma eventual cedência de “brutos” à polícia “coloca em causa os princípios deontológicos pelos quais se rege a profissão de jornalista”. “Trai a confiança entre os jornalistas e as fontes, porque as pessoas numa manifestação são fontes de uma peça de informação, ainda que não identificadas, e, sobretudo, coloca em risco a integridade física de todos os elementos de qualquer equipa de reportagem, jornalistas e pessoal técnico, que no futuro sejam destacados para cobrir eventos semelhantes”, assinalou.“A PSP pediu por email na semana passada para visionar as imagens que foram transmitidas pelas várias televisões. Se tivessem as nossas imagens, não tinham feito esse pedido”, argumentou o diretor-adjunto Vítor Gonçalves.
Nas mesmas declarações à agência noticiosa, Vítor Gonçalves alegou que o pedido para a cópia de imagens “foi feito de forma transparente, através dos meios normais, seguindo o protocolo das normas internas”: “Os DVD foram feitos, mas não foram para lado nenhum. Houve alguém que achou que eram para a polícia, mas não é verdade. Estou a dar a minha palavra que aquilo não saiu e não vai sair. Era muito grave se saísse”.
Camilo de Azevedo afirmaria, por seu turno, à Lusa que a explicação dada pela Direção de Informação, “no limite, justificava a gravação das imagens de uma cassete”. “E as outras? Para que é que a DI quis duas horas e 45 minutos de gravações, de cinco equipas de reportagem ao longo da tarde, se o que lhe interessava era fazer prova de um momento que demorou apenas alguns minutos?”, questionou o porta-voz da Comissão de Trabalhadores.
A Lusa cita um email enviado por Ana Pitas, subdiretora com responsabilidade pelos Meios de Produção, no qual a Direção de Informação solicita transcrições para DVD, com custos “imputáveis ao Telejornal”, de 50 minutos de duas cassetes, 25 minutos de uma terceira e 20 minutos de uma quarta e de uma quinta cassetes, totalizando 165 minutos de imagens captadas por cinco equipas de reportagem da RTP. Na mesma mensagem de correio eletrónico - remetida à secção de Planeamento e com conhecimento de Manuel da Costa, diretor-adjunto de Meios de Produção, Aníbal Costa e Carlos Carvalho – era solicitado que imagens fossem identificadas, se possível, “com o logótipo da RTP”.
“Quem pediu este trabalho a Ana Pitas? Quem visualizou e apontou nas cassetes o momento a partir do qual queria a gravação? Para quem foram os DVD?”, perguntou o porta-voz da Comissão de Trabalhadores.