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Ex-autarca de Castelo de Paiva ficou marcado para sempre pela tragédia

Ex-autarca de Castelo de Paiva ficou marcado para sempre pela tragédia

Paulo Teixeira era presidente da Câmara de Castelo de Paiva quando a queda da ponte Hintze Ribeiro, há 25 anos, o marcou "para sempre", lamentando hoje as promessas do Estado à população que ficaram por cumprir.

Lusa /

Paulo Teixeira ainda vive na freguesia onde se deu o acidente e passa "todos os dias na ponte reconstruída", que levou o mesmo nome, e junto ao cemitério da vila - 25 anos depois, ainda sente o peso da tragédia, na qual morreram 59 pessoas.

"Desligo o som do rádio, e no cemitério faço o mesmo, por uma questão de respeito por quem lá está. Ainda há bocadinho passei na ponte, e desligo o som porque passei ali 30 dias da minha vida. É uma coisa que nos marca para sempre", atira.

O antigo autarca morava perto da ponte quando se deu a queda e foi, por isso, dos primeiros a responder naquele 04 de março de 2001, há 25 anos, num acidente de dimensões das quais, em Portugal, "não havia memória".

"Quando ao segundo ou terceiro dia aparece o primeiro corpo em Espanha, a mais de 400 quilómetros de Castelo de Paiva, foi uma coisa assustadora", recorda.

Paulo Teixeira lembra-se ainda de vários detalhes da difícil missão de resgatar corpos - só foi possível para 23 das 59 vítimas, e 36 famílias ficaram sem fazer o funeral dos entes queridos - e identificá-los.

O autarca de Matosinhos levou-lhe um banco do autocarro que tinha caído com a ponte, e que tinha aparecido numa praia matosinhense, e muitos objetos pessoais foram `descendo` o Douro.

O porta-chaves encontrado num par de calças levou a um trabalho "casa a casa", experimentando as chaves que poderiam abrir uma habitação e permitir identificar o último corpo encontrado no Douro, a 23 de maio, a começar pela freguesia de Raiva, onde mais gente tinha desaparecido no colapso.

Sem sucesso em Castelo de Paiva, a chave foi acabar a rodar a fechadura de uma casa em Melres, Gondomar, mas a luta pela recuperação dos corpos - e uma tentativa de recuperar o autocarro do fundo do rio, falhada - deixou `cicatrizes` na comunidade.

"Sei de algumas pessoas que não conseguem encerrar o luto. (...). Não perdi nenhum familiar, mas vivi intensamente isto. Eu não consigo tomar banho nas águas do Douro", conta.

Paulo Teixeira recorda toda a experiência como "marcas que ficam para o resto da vida". "Experiências vividas que também nos ajudam, às vezes, a ultrapassar algumas situações que nos vão aparecendo, e em que pensamos: `isto [Entre-os-Rios] foi muito pior. Foi muito pior", atira.

À comunidade, critica, foram feitas "promessas que estão por cumprir, que estão em Diário da República", depois de uma Comissão de Inquérito às Causas do Acidente presidida por Manuel Castro Almeida, atual ministro da Economia.

"Quer a Assembleia da República, quer o próprio Governo, definiram como prioridade a construção do IC35 em Castelo de Paiva, Entre-os-Rios. A única coisa que fizeram foi a ponte, e mau era, não é? A ponte e uns quilómetros, lá de Castelo de Paiva. Nós saímos da ponte e acabamos numa rotunda. À data de hoje, vinte e cinco anos depois, está por fazer. Vinte e cinco anos depois", protesta.

O antigo autarca salienta a importância da comunicação, a todos os níveis, e do trabalho articulado entre câmara municipal, população, bombeiros, Marinha e Governo, destacando essa como uma aprendizagem a todos os níveis para coordenação de esforços de resposta.

Vê muitas semelhanças com o que o país viveu nos últimos meses devido às tempestades que afetaram Portugal continental, em particular na zona Centro, onde morreram pelo menos 19 pessoas.

Se na altura, "sem a comunicação social, muitos dos problemas não teriam sido resolvidos", hoje preocupa-o a falta de voz de algumas das autarquias afetadas e o que vai acontecer "quando os holofotes se apagarem" - "vai ficar muita coisa por resolver", antevê.

"Daqui a dois meses vem o calor, dizem que vai ser um calor enorme, já ninguém vai ligar àquilo e os problemas vão ficar por resolver. (...) Neste momento, se calhar era importante criar-se uma estrutura, a nível do Ministério da Economia, só para análise dos processos das empresas, e outra a nível da Administração Interna, para os particulares", para gerir candidaturas, pedidos de apoios e minimizar burocracias e "complicómetros", sugere.

Antevendo que o país "não vai viver tempos fáceis", até no que toca a preços e acesso a materiais, advoga que catástrofes como estas, como Entre-os-Rios ou os incêndios em Pedrógão Grande, para dar alguns exemplos, "deviam ter um livro branco, um manual de procedimentos", para não se começar `do zero` na resposta à calamidade.

"A comunicação, numa catástrofe, é fundamental. Eu sabia lá o que era um briefing, nunca tinha falado para uma televisão... e nós não somos todos iguais. Uns têm mais facilidade de comunicação, outros menos. Depois de isto acalmar, devia haver quem compilasse. Porque as alterações climáticas, infelizmente, vão provocar situações destas", aponta.

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