Governo português deve ser ponderado na forma como critica EUA alerta académico do Instituto Hudson
O diretor do centro de investigação norte-americano Instituto Hudson alertou hoje, em Lisboa, que "os políticos portugueses devem ser ponderados na forma como criticam" a guerra no Irão, iniciada a 28 de fevereiro.
"Não creio que os comentários que os líderes portugueses tenham feito até à data tenham suscitado grande atenção em Washington", no entanto, "os políticos portugueses devem ser ponderados na forma como criticam", disse à Lusa Peter Rough.
"É perfeitamente adequado criticar a guerra de uma forma subtil, séria e inteligente. Outra coisa é atacar de forma impetuosa e descuidada", considerou Rough, apontando o exemplo de Espanha, cujo primeiro-ministro, Pedro Sánchez, tem criticado abertamente a intervenção norte-americana.
Questionado sobre a escolha do Governo português de continuar a permitir a utilização da base das Lajes, no contexto da guerra contra Teerão, em contraste com países como Espanha, Itália e França, o académico enalteceu a decisão, ainda para mais face à relevância dada pelos analistas político-militares norte-americanos à base açoriana pelo "enorme valor geoestratégico".
Ainda assim, o diretor do Instituto Hudson, que tem assumido o desenvolvimento e promoção de políticas alinhadas com a visão da administração do Presidente norte-americano, Donald Trump, recomendou ao Governo português que se aceita que os EUA mantenham as bases não ataque os americanos a nível retórico.
Se as declarações do Governo português "não têm impacto do outro lado do Atlântico", o mesmo não se aplica ao chanceler alemão, Friedrich Merz.
No que diz respeito a alianças na Europa, a Alemanha é o "elemento central da estratégia dos EUA" no continente, defendeu Rough, que oscilou entre o elogio e a crítica de Merz por considerar que "por vezes se esquece de que é chanceler".
"Merz tem sido, na minha opinião, um bom parceiro em matéria de logística e estabelecimento de bases na Europa como uma oportunidade para os EUA projetarem poder", contudo o chanceler "estragou um pouco isso com reflexões indisciplinadas".
Merz acusou Washington de não ter uma "uma estratégia verdadeiramente convincente" para as negociações com o Irão e disse mesmo que os EUA foram humilhados pelos iranianos no conflito, durante um debate na segunda-feira com estudantes de uma escola secundária em Marsberg, no centro da Alemanha.
"Numa era de redes sociais, não se pode dizer uma coisa em alemão e esperar que fique restrita a um grupo de crianças em idade escolar. Em vez disso, vai ser filmado, vai ser transmitido através das redes sociais através do Atlântico, e vai aterrar com um estrondo na Sala Oval, onde o Presidente Trump o vai ver", argumentou.
Em resposta, Trump afirmou que Merz não sabia do que estava a falar e anunciou na quarta-feira que os EUA "estão a analisar e a avaliar a possível redução das tropas na Alemanha, devendo ser tomada uma decisão nos próximos dias".
Quanto ao Presidente francês, Emmanuel Macron, o académico defendeu que "ainda não se adaptou" à administração Trump e apenas "atualizou as suas atitudes típicas de Macron para o momento atual".
"Está bloqueado no seu país, não controla o próprio parlamento e, por isso, sente-se por vezes tentado a ser mais ativo na cena internacional onde está menos limitado", continuou.
Já a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, está "totalmente em sintonia com o Presidente Trump em praticamente todas as questões, desde a migração até ao conservadorismo nacionalista", argumentou.
Embora a líder italiana não esteja de acordo com Washington no que diz respeito à guerra contra Teerão, o académico justificou esta posição devido à coligação governamental delicada que Meloni lidera e as sondagens internas.
"Também tem uma responsabilidade especial como protetora do Santo Padre e isso acrescenta um elemento adicional, tendo em conta que o Papa Leão XIV e o Presidente Trump tiveram alguns desentendimentos nas últimas semanas e meses", adiantou.
Questionado sobre a relação entre a administração norte-americana e o Papa, Rough defendeu que Leão XIV "tem apenas uma arma: a retórica e a moral".
"Ele vai sempre defender a paz. Penso que é saudável que o Papa expresse uma posição a favor da paz, que possamos depois assimilar, ter em conta, refletir e ponderar", disse.
Contudo, "não será a Guarda Suíça [Pontifícia, responsável pela segurança do papa e do Vaticano] que vai reabrir o estreito de Ormuz", disse Rough, que participou em Lisboa no Foro La Toja.