Jovem portuguesa transforma "dor familiar" em tecnologia contra burlas

Jovem portuguesa transforma "dor familiar" em tecnologia contra burlas

Quando Rita Barbosa fala da avó, a voz embarga e surge uma pausa curta. A memória deste elo familiar é a origem de toda a história e vontade de ajudar, agora os outros, após a perda familiar.

Nuno Patrício - RTP /
"Eu sempre quis ajudar pessoas. Mas esta ideia surgiu quando a minha avó foi burlada. Eu não tinha ferramentas para a proteger. Agora tenho" - Rita Barbosa | Foto: Rita Barbosa - DR

Tudo começou com um telefonema banal e anónimo, que a avó de Rita atendeu e que serviu, mais uma vez, para burlar um cidadão desprevenido. Uma história que viria a cruzar-se com tecnologia, na criação de uma aplicação de segurança com um objetivo maior: proteger quem já não tem força para o fazer sozinho.

Aos 24 anos, Rita Barbosa é um dos novos rostos da inovação tecnológica europeia. Licenciada em Engenharia Informática pela Universidade Nova de Lisboa e a frequentar um mestrado em Inteligência Artificial na Universidade Técnica de Hamburgo, acaba de conquistar o primeiro lugar no maior hackathon de IA da Alemanha.

Num evento que contou com mais de 400 participantes e mais de 100 projetos em competição, Rita, em apenas dois dias, criou uma aplicação - Guardião - capaz de bloquear chamadas e mensagens fraudulentas antes de chegarem ao telemóvel. Um protótipo construído à pressa, mas que nasce de uma história profundamente pessoal.

O Guardião é uma aplicação de Inteligência Artificial que protege idosos contra burlas telefónicas e digitais, bloqueando chamadas e SMS fraudulentos antes de chegarem ao utilizador. O projeto venceu o Cursor 2-Day AI Hackathon em Hamburgo (maior hackathon de IA da Europa) com um prémio de cerca de 70 mil euros, superando mais de 400 participantes.
“Eu sempre quis ajudar pessoas. Mas esta ideia surgiu quando a minha avó foi burlada. Eu não tinha ferramentas para a proteger. Agora tenho”, conta. Este episódio familiar, que resultou de uma chamada anónima, resultou numa perda financeira inesperada e tornou-se na motivação para desenvolver uma solução que pretende evitar que o mesmo aconteça a milhares de outras pessoas.

Mais do que o currículo que a precede, foi o ato ilegal que estorquia a avó que a motivou a avançar: “A minha avó foi burlada. E eu, que sempre fui aquela neta que passava lá todos os dias, não consegui evitar. Eu, uma engenheira informática, senti-me impotente”.
Dois dias para transformar "dor" em solução
Há histórias que demoram anos a ganhar forma, mas a da Rita apenas precisou de dois dias e de um "empurrão emocional" que já vinha de trás. 

Com experiência académica na área da Engenharia Informática, Rita Barbosa, apresentou-se no maior hackathon de Inteligência Artificial da Alemanha e decidiu que era o momento de colocar em prática um sistema de proteção para as constantes burlas que todos os dias milhares de pessoas são expostas através de chamadas não identificadas, conhecidas por spam ou phishing.
 
Seguiram-se dois dias e duas noites, com um só propósito.

O resultado foi um primeiro lugar e 70 mil dólares de prémio para uma aplicação que, mesmo em versão embrionária, promete fazer aquilo que Rita gostaria de ter feito pela avó: impedir que alguém chegue ao outro lado do telefone com más intenções.

“Quando anunciaram que ganhei, pensei imediatamente nela”, conta. “Foi como se tivesse finalmente conseguido fazer alguma coisa”.

Uma aplicação que tem "algo de mágico" na forma como foi pensada: o utilizador não precisa de fazer nada. Não precisa de carregar, ler, confirmar, aprender, pois a tecnologia, baseada na Inteligência Artificial, faz o resto.

A aplicação analisa chamadas e mensagens antes de chegarem ao telemóvel e procura padrões de manipulação - urgência, pânico, pressão emocional. Se identificar risco, bloqueia. Sem alarme. Sem dúvida. Sem que o utilizador tenha sequer de desconfiar.

“Eu pensei sempre nas pessoas da idade da minha avó. Elas não devem ter de se defender sozinhas. A proteção tem de vir escondida, automática, silenciosa”.

Rita sabe que há quem tema a Inteligência Artificial. Talvez também por isso tenha decidido usá-la onde faz mais falta: do lado do bem.

“A IA pode ser usada para prejudicar, claro. Mas também pode salvar pessoas de perdas enormes, de medo, de vergonha. A minha avó, quando foi burlada, nem quis contar. Sentia-se culpada. Muitas pessoas sentem-se assim”.

Há ternura na forma como Rita diz “as pessoas”. Porque na verdade dá a entender, no desenrrolar da conversa com a RTP, que, no seu subconsciente, está a ver na fraqueza e na burla tecnológia um rosto concreto: o da avó, o de tantas outras avós que lhe enviam histórias, o de quem ainda hoje atende o telefone com confiança ingénua.
Portugal no centro, mesmo quando o futuro é global
Apesar de estudar na Alemanha, Rita nunca pensou este projeto para outro lugar que não Portugal. Porque é aqui que está o problema maior. É aqui que vivem mais de dois milhões de pessoas com mais de 65 anos. É aqui que tantas famílias carregam a culpa de não conseguirem proteger os seus.

“Eu quero trazer isto de volta. Quero que Portugal seja o primeiro lugar onde funciona. Depois logo pensamos no resto”. Embora se procure aproveitar este sistema, até porque os operadores de serviços móveis só reagem em muitos casos obrigados por directrizes europeias. 

Mas Rita Barbosa não baixa os braços e diz que os testes-piloto vão começar em breve. Primeiro com amigos. Depois com famílias que se voluntariam. E mais tarde, quando tudo estiver sólido, com todo o país.

Contudo e depois desta conquista Rita foi convidada a ir até Silicon Valley e conhecer potenciais investidores, recebeu várias propostas de trabalho conjunto com empresas e fundos de tecnologia europeus e americanos e ofertas para integrar equipas de IA em grandes empresas tecnológicas, mas o coração responde primeiro Portugal, com uma população bastante envelhecida. 

Uma aplicação que a avó nunca entenderia como foi feita, mas saberia o porquê de ter sido feita. E o que diria a avó à Rita, perguntamos nós, se visse esta defesa eletrónica, feita pela neta, para a proteger, a ela e a todo os outros que pudessem ser burlados?

Rita sorri. Depois baixa os olhos: “Ela estaria muito orgulhosa. Sempre esteve. E eu faria tudo outra vez”.
Esta não é apenas uma história de tecnologia. Não é apenas inovação. Não é apenas um prémio, uma vitória, um protótipo. É um gesto de amor transformado em software, bem como uma promessa póstoma de que nenhuma avó ou nenhum avô tenha dew ficar sozinho diante de um telefone que toca sem rosto e presumivelmente com maldade.
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